A Relação da música com o processamento sensorial – partes 4 à 8/23

Greenspan e Wieder (2006, p. 15) explicam que crianças autistas que estão alheias ao seu redor, ficam esquivas e se mantêm distantes das pessoas, em nada tem haver com a falta de amor e sim por um bombardeio de estímulos sensoriais. A atenção é um processo dinâmico que envolve muitas partes do sistema nervoso  ao mesmo tempo. Essas bases biológicas nas funções motoras e sensoriais alteram a capacidade de uma criança se autorregular e ter interesse pelo mundo. E que precisamos olhar para a modulação sensorial de cada um para conseguirmos estabelecer um relacionamento com eles. Nascimento e Ikuta exemplificam que:

A estimulação sensorial é essencial para a percepção do mundo. A música se constitui em importante objeto de estimulação sensorial porque ocorre simultaneamente no tempo e no espaço, proporcionando a vivência desses elementos musicais em diferentes velocidades, alturas e durações. (NASCIMENTO, IKUTA, CARVALHO, 2009, pág.121)

O sistema Vestibular, embora não faça parte dos cinco sentidos, é um sistema fundamental para o “desempenho motor antigravitacional” (MOMO, SILVESTRE e GRACIANI, 2012, p. 9). Significa que, em função deste sistema, o Sistema Nervoso Central relaciona a ação e controle de nossos movimentos como, cabeça, olhos e corpo.

 

O estímulo vestibular com ritmo musical pode estimular a fala e o canto de crianças com autismo. Grandin (1991) é uma das autistas mais conhecidas no mundo. Apesar das dificuldades que encontrou ao longo de sua vida, conseguiu se estabelecer profissionalmente como cientista. Ela concorda que os estímulos de balanço podem proporcionar a aquisição de linguagem. Mas que coordenar muitos movimentos ao mesmo tempo limitou-a no aprendizado de um instrumento musical, porém isso não foi um impeditivo para o canto com afinação. Ela relata que quando criança tinha muitas dificuldades para se comunicar, mas que cantar sempre foi mais fácil. Outro desafio relatado é com relação ao ritmo, como por exemplo, sincronizar palmas e ritmos. Ela sugere que os problemas rítmicos podem estar relacionados com os problemas de fala. Os bebês típicos movem-se em sincronia com a fala dos pais, o que não ocorre em bebês com autismo. Sobre este tema, Bang explica:

 

O ritmo da fala é um movimento rítmico dos órgãos da fala, tais como respiração, a voz e os movimentos articulatórios da boca, em conjunto com os sons provenientes da laringe. Nós ouvimos os movimentos da fala, e dessa maneira, a audição é um processo sensório motor.

O exercício da música e do movimento treinam as funções sensório-motoras auditivas e vibratórias e a memória de tais sequências e sua utilização. As atividades musicais, portanto, treinam indiretamente as funções básicas da fala e da linguagem. BANG, 1991, p. 25)

Para Berger (2002, p.108), quando a pessoa apresenta uma desordem no processamento multissensorial altera os aspectos de coordenação auditivos e motores. Ela explica que o mesmo ritmo que estimula os músculos a reagirem com movimento, se a criança apresenta dificuldade no processamento do som e planejamento motor, isso irá interferir no modo como a criança reagirá fisiologicamente sobre o som e o movimento. Pois, o processamento em conjunto do sistema vestibular e proprioceptivo, tátil, auditivo e visual, não estão organizados e integrados em um mesmo nível. Para tocar um instrumento musical existem um envolvimento de entrada multissensorial, que inclui o feedback do planejamento motor, proprioceptivo e tátil. A ação de bater em um tambor, por exemplo, “envolve movimentos bilaterais do braço, o cotovelo fica flexionado, as mãos se ocupam com as baquetas, movimentando-se ritmicamente para cima e para baixo” (BERGER, 2002, p.108) , acompanhando o pulso. Crianças com esses déficits não têm controle motor e percepção de pulsação e andamento.

 

Penso que autistas que possuem dificuldades para registrar os estímulos sensoriais, além da desatenção já mencionada, estão em busca de sensações e tentam criar um ambiente próprio com seus balbucios vogais e movimentos, como de um pêndulo, movendo-se  de um lado e para o outro sem parar.

Contudo, Berger (2002, p. 46) diz que os elementos musicais, quando aplicados de forma correta para atender a objetivos específicos, contribuem com informações relevantes para o sistema límbico, que traz para o sistema fisiológico a sensação e ajustes de conforto necessários. A música atua como um agente que acalma e dissipam as entradas sensoriais que causam medo. É como se o som fosse um cobertor que envolve o corpo trazendo conforto e segurança. Uma vez que o cérebro humano registra informação auditiva, como forma de tratamento do ambiente, consegue sequenciar os sons ligados a ritmo. O cérebro vai controlando os sons que estão presentes, e antecipar o próximo som.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em Música

 Terapeuta DIR/Floortime

 

A Relação da Música com o processamento sensorial – parte 3/23

Por Michele Senra

Nosso cérebro nos informa acerca do mundo externo a partir dos sistemas sensoriais. Berger[1] (2002, p. 23) fala que o cérebro só decodifica e interpreta o que é recebido, e que está equipado para interpretar. Mas que ele não consegue identificar o que não tem. Um exemplo é de pessoas recém-mutiladas que ainda sentem dores em membros já não existentes. Ainda segundo a autora, o cérebro humano não pode decodificar os extremos sons altos que qualquer cão pode ouvir. Isso porque nosso (cérebro não sabe que essas frequências existem mesmo), porque o sentido da audição não detecta e nem transmiti a conversão de impulsos elétricos.

A autora ainda afirma que o cérebro humano, registra a informação auditiva e imediatamente sintoniza sequências de sons ligados e ritmo. Ele controla os sons que permanecem sintonizados ao som ainda presente, antecipando o próximo som. Neste caso, uma criança com autismo se sentirá emocionalmente bem. Isto por que a música induz a liberação de dopamina e outros relaxantes do sistema, reduzindo a resposta de luta ou fuga por acalmar o sistema para baixo o suficiente para permitir a modulação eficiente.  Em virtude das afirmações dos autores citados neste capítulo, penso que a criança não deve ser vista com uma função isolada, porque todos os sistemas estão interligados.

[1] Dorita Berger é musicoterapeuta, pianista e educadora.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em Música

Referências:

SENRA, Michele de S;, ALVARES, Thelma S. A Relação da Música com o processamento sensorial:  a musicoterapia e sua atuação no tratamento de autistas no contexto do modelo DIR/Floortime. XV Simposio Brasileiro de Musicoterapia. XV Encontro Nacional de de Pesquisa em Musicoterapia. Rio de Janeiro, 2015.

A Relação da música com o processamento sensorial – parte 2/23

Por Michele Senra

Segundo Greenspan e Wieder (2006, p.17) por causa das diferenças inatas no processamento sensorial, a experiência emocional de um estímulo irá variar de uma criança para outra. O mesmo som, por exemplo, uma voz mais aguda, pode ser interpretada como agradável e reconfortante para um e extremamente irritante para outro. Uma carícia pode apreciada por uma criança, quando para outra pode ser extremamente dolorosa. Cada pessoa, ao longo do tempo cria um “catálogo” de experiência sensorial e emocional. A deficiência sensório-motora pode afetar profundamente a experiência do indivíduo de se relacionar com o outro.

            Os autores também exemplificam que crianças com hiposensibilidade ao toque ou som apresentam comportamento agitado e uma busca sensorial e de sensações constantemente. Por conta disso, elas podem mostra-se agressivas em determinados ambientes, com incapacidade de organização, envolvimento, co-regulação e emocional. Ambientes com muitos ruídos ou com muitas pessoas em volta podem sobrecarregar a criança com hipersensibilidade[1] e alterar seu comportamento.

[1] Hipersensibilidade – o limiar de sensibilidade é alto. Ex: Não suportar ser tocado.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em música

 

Referências

SENRA, Michele de S;, ALVARES, Thelma S. A Relação da Música com o processamento sensorial:  a musicoterapia e sua atuação no tratamento de autistas no contexto do modelo DIR/Floortime. XV Simposio Brasileiro de Musicoterapia. XV Encontro Nacional de de Pesquisa em Musicoterapia. Rio de Janeiro, 2015.

A Relação da Música com o processamento sensorial – parte 1/23

Por Michele Senra

A música fornece estimulação concreta e multissensorial (auditiva, visual, vestibular, propriocepção e tátil). As interações entre os sistemas sensoriais e como o cérebro captam essas informações, podem atrapalhar as percepções musicais de uma criança com atraso no desenvolvimento, por exemplo, e o estímulo sensorial com a música pode beneficiá-las. Além disso, a música atua diretamente nas emoções, e estabelecer um vínculo afetivo e emocional é importante no processo de reabilitação.

Você sabe a diferença entre musicoterapia e educação musical?

A Federação Mundial de Musicoterapia (1996) definiu a profissão como:

(…) a utilização da música e/ou seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) por um musicoterapeuta qualificado, com um cliente ou grupo, num processo para facilitar e promover a comunicação, relação, aprendizagem, mobilização, expressão, organização, e outros objetivos terapêuticos, no sentido de alcançar necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas. A musicoterapia objetiva desenvolver potenciais e/ou restabelecer funções do indivíduo para que ele/ela possa alcançar uma melhor integração intra e/ou interpessoal e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida pela prevenção, reabilitação ou tratamento. (FEDERAÇÃO MUNDIAL DE MUSICOTERAPIA, 1996)

A Educação Musical tem um objetivo específico com fins pedagógicos, no ensino estruturado de instrumentos, leitura rítmica, etc.

Existem delimitações claras entre a musicoterapia e a educação musical. O que distingui as áreas são seus objetivos que definem seu papel empírico (PASSARINI, AOKI, PREARO e ANDRADE, 2012). Porém os autores ressaltam que o entrelaçamento dos conteúdos propostos pela educação musical também norteiam os princípios da musicoterapia. A proposta é de refletir sobre a interdisciplinaridade da musicoterapia em estimular a singularidade da criança e explorar suas capacidades criativas e exploratórias da música para uma auto expressão emocional de seus conteúdos internos. Para Bang (1991, p. 21) “Em muitos casos, a musicoterapia vem a ser o único meio viável de se obter resultados terapêuticos e pedagógicos”.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em Música

Música é um processo multissensorial

FB_IMG_1432377998173

A música é um processo multissensorial. Desde que iniciei minha práxis com a música e autismo, compreendi a importância da “Musicoterapia Sensorial” no estímulo de pessoas com autismo. Inicialmente, um colega de profissão achou que eu estava louca. Disse que a visão dele era da saúde mental e que meus questionamentos não condiziam com a realidade. Ser mãe de um rapazinho com autismo me fez enxergar fora da caixinha. Será que eu estava surtando? O colega disse para eu ir na biblioteca do CBM que tinham muitos livros sobre musicoterapia. O que o colega não sabe é que o fabuloso Kenneth Bruscia já falava há tempos sobre a música sensorial:

“Os aspectos multissensoriais da música a tornam ideal para o uso terapêutico, especialmente se considerarmos as muitas incapacidades envolvidas nas deficiências sensoriais e motoras. Os musicoterapeuta estão continuamente atentos às modalidades sensoriais que necessitam receber maior input ou output, e às formas com que a música pode fornecer meios de estímulo ou resposta para consegui-lo. Habitualmente, as experiências ou atividades musicais são úteis para estimular e exercitar todos os sentidos, no entanto, com certos clientes, os aspectos auditivos da música devem ser enfatizados e, com outros, os canais motores, táteis ou visuais é que devem ser estimulados. (BRUSCIA, 1998, p. 109)”

Eu não escolhi o autismo. O autismo me escolheu, porque se não fosse por meu filho a música pra mim continuaria como performance/estética puramente. A musicoterapia é faz parte de um processo de inserção neste mundo singular.

Certa vez, escutei de um outro colega “tem gente que já estabeleceu um público-alvo e se limitou a esse, e não se permite experimentar outra coisa”. Em minha defesa respondi que de fato, orgulhosamente tenho meu publico definido por questões estritamente pessoais que foram para o campo profissional. Porque se aprofundar um tema especifico incomoda algumas pessoas? Porque se especializar em uma área é errado?

Bem, mudando o foco de mim para a musicoterapia e autismo, as informações sobre um Transtorno de espectro tão amplo sempre gerará diversas discussões.

Barcellos (2004) reflete a respeito de pesquisas e práticas clínicas com base em experiências empíricas:

 

Quando uma teoria não vem de uma experiência vivida, pode transforma-se em um mero exercício intelectual. Assim, é a experiência que temos tanto com a música como com a musicoterapia que se transformará na essência e no coração da musicoterapia. (BARCELLOS, 2004, p. 46)

 

Então, a minha sugestão para quem quer trabalhar ou pesquisar sobre autismo, vivenciem a experiência. Os olhinhos precisam brilhar! Autismo não é moda, é um caso sério que merece respeito.

Uma mãe me relatou uma desagradável experiência com a  mediadora escolar de  sua filha. Após um momento de desregulação da criança, que bateu na mediadora, a mesma em prantos disse que nunca havia passado por aquilo. Que outras crianças com autismo não eram agressivas. Oi? De onde saiu esta criatura? Mas a culpa não é totalmente dela. A mídia romantiza o autismo. Diversos profissionais da impressa me procuraram pedindo para indicar autistas bem sucedidos. Jesus! Eles não são a maioria! Genialidade é rara na humanidade! Quer viver esta experiência? Entenda que ela pode ser:

  • Frustrante, no sentido da criança não responder aos estímulos.
  • um dia você pode apanhar e isso não significa que ele não goste de você, mas que ele não está bem e não consegue controlar o que sente naquele momento.

Mas sabe o que é realmente empolgante?

  • quando seu trabalho de meses começa a dar resultados, mesmo que lentamente.
  • quando a criança cria uma conexão com você e, quer estar com você,  e brincar com você.
  • Contribuir para seu desenvolvimento cognitivo, linguagem, interação….

 

 

 

Neurodiversidade e Etnomusicologia do Autismo

No último dia 02 de abril realizei o Concerto azul, uma apresentação musical com meus pacientes que estão no Transtorno do espectro Autista. Respeitando seus limites e valorizando as potencialidades, fazem parte do olhar para a Neurodiversidade.

Cada música foi pensada neles e para eles. O mais importante não é a performance musical nos padrões e moldes acadêmicos, mas uma performance de auto expressão. Devemos ir além de ensinar música e sim participarmos da vida social e compreendermos o modo como esses indivíduos percebem a música e se expressão através dela, e garantir direito de igualdade e justiça social.

Devemos fazer música para fazer a diferença, e devemos fazê-lo com tanta paixão, comprometimento e convicção.

c64

Segundo Bakan (2014) compreender o autismo pela ótica da etnomusicologia pode esclarecer e fundamentar a expansão das potencialidades da pessoa com autismo. Uma vez que, este tipo de atitude promove respeito e amplia o relacionamento, estabelecendo uma conexão significativa. 

“Sugiro que fazer música e performance musical dentro de um contexto etnomusicologia aplicada pode ajudar a subverter, radicalizar e desmascarar uma série de mitos destrutivos e suposições sobre as pessoas autistas e experiência autista que têm metástase nos anais da investigação publicações médico-científicas sobre o autismo e expandiu-se a partir daí durante  sete décadas desde que o termo autismo foi introduzido pela primeira vez no formulário publicado no início dos anos 1940 por Leo Kanner (1943).” (BAKAN, 2014)

c79

Desenvolvimento da Apresentação do Concerto Azul

Para começar, o repertório foi pensado neles. Por exemplo:

  • Canção Bolinha de sabão do Palavra cantada

Todo o repertório foi trabalhado junto com os pais, pois sim, eles são parte fundamental neste processo. O recurso da percussão corporal foi utilizado neste recriação. Detalhe os movimentos desta percussão foram inspirados nas estereotipias de duas crianças que atendo.

Muitas pessoas com autismo apresentam comportamentos ritualísticos e estereotipias motoras e vocais. Greenspan e Wieder (2006) explicam que se a criança apresenta uma tendência ritualística fazendo sempre determinado som, podemos usar e abusar da criatividade criando uma canção com aquele som, ao invés de ignorá-lo. Berger (2002) acredita que a repetição rítmica conduz o cérebro ao sistema de atenção. A autora explica este fenômeno através de uma analogia aos soldados que marcham por longas distâncias repetindo frases rítmicas. O cérebro pode suportar esta repetição durante o tempo necessário para obter a mensagem.

c50

Benenzon (1985, p.146) também concorda que é possível aproveitar os próprios recursos de comunicação que a criança apresenta para criar um canal de comunicação com o mesmo, ou seja, imitação das expressões vocais da criança. Ele diz que o trabalho com objetos intermediários e a busca de sons que impactem o ego autista, é a chave para conexão. O autor explica que o uso de instrumental auxiliar é necessário para auxiliar a terapia musical, por exemplo: bolas, aros e cordas para que conduzam ao movimento e jogos musicais. Esses objetos podem ser infinitos para que sejam alcançados os objetivos esperados. Outra questão citada pelo autor é a respeito da percurssão corporal:

Suas mãos, golpeadas uma contra a outra ou sobre os joelhos; seus dedos: os movimentos de seu corpo inteiro, a marcha, o balanceio de um pé pelo outro e, a partir daí, passa-se de forma natural, ao som do bater palmas, das mãos golpeando o chão ou sobre a mesa. (…) O musicoterapeuta não deve temer que o aluno-paciente golpeie a si mesmo, ou que se machuque golpeando sobre um objeto qualquer. Muito pelo contrário, este é um meio de descarga de auto-agressividade e, além disso, permite organizar o movimento mostrando a possibilidade de golpear suavemente e não de maneira furiosa e automática. (BENENZON, 1985, p. 125 e 126)

 

c63

  • Canção Lava Uma Mão de Arnaldo Antunes

Esta canção foi escolhida pelo Rômulo, 17 anos. Ele queria tocá-la no violão. Ele só sabe um único acorde o A (lá maior). Mas, foi um momento de imensa felicidade para ele. Além disso, a maioria das crianças adoram esta música.

012

Durante os ensaios, o pensamento concreto é tão interessante, rsrs. Quando disse que o evento se chamaria Concerto azul, ele comentou que o show precisava de um CONSERTO porque precisava melhorar. Se fizermos uma metáfora, pensemos que consertamos a forma de apresentar adaptadas as necessidades deles e respeitando seu modo de expressão.

  • Canção O Grilinho de Kitty Driemeyer

Brinco que meus pequeninos são grilinhos que saltam sem parar. Nesta canção utilizamos alguns recursos visuais e sonoros. O parachute, promovendo também movimento, interação…

Crianças não verbais realizando os efeitos sonoros na canção (pau de chuva e tambor trovador).

c69 c70

Inicialmente, eu iria solar a canção, mas Breno, quando viu um microfone de bobeira, cantou junto comigo. O que não é planejado, e sim espontâneo tem como resultado uma rica experiência. Além disso, começou a falar com público mostrando-se um excelente comunicador. Orgulho de mãe.

c71

  • Brilha, brilha estrelinha nos sinos musicais.

Momento brilho de fato! Foi lindo! O trabalho com os sinos é interessante porque não exige tanto esforço motor, auxilia na concentração, planejamento motor, sequenciamento, entre outras habilidades.

c83

c86 c87

concerto5 011 concerto5 012

Contei com o auxílio das minhas super amigas terapeutas nesta tarefa:

Liliam Ameal (Musicoterapeuta e Educadora Musical)

Elaine Oliveira (fisioterapeuta)

Adriana Fernandes (Fonoaudióloga super fofa, linduda)

  • Amigos são, solo de Breno Willians, Violão com o Musicoterapeuta Bruno Reis.

Breno escolheu esta canção que tem um significado emocional muito importante pra ele: amizade. Arrasou, uhu! Filho de peixe, peixinho é. Tenho meu direito de babar pela cria, rsrsrs

c89

  • Em meu coração você vai sempre estar

Deixei para falar por último da primeira canção. Todos se emocionaram neste primeiro momento. A canção, desenvolvida para o filme  Tarzan, foi solada por mim e pelo cantor gospel Thiago Henrique. Não preciso descrever a emoção, as fotos falam por si.

c58 c48 concerto3 035 concerto3 037 concerto3 040 concerto3 043

Música, arte e informação

Enquanto os pais assistiam as palestras, as crianças participaram de oficinas de arte.

Na mesa redonda, contamos com a participação :

  • Adriana Fernandes (Fonoaudiologa)
  • Drª Thelma Alvares (Musicoterapeuta e professora da UFRJ. Minha Orientadora querida)
  • Rosangela Koppe ( Psicóloga)
  • Drº Rafael Engel (neuropediatra)
  • André (advogado)
  • Zilmar Saraiva (assistente social)

concerto3 029 COBCERTO 046 COBCERTO 047 COBCERTO 068

 

A oficina de artes comandada pela pedagoga Michele Morgane:

c104 c105 c106 c107 c108 c109 c110 c111 c112 c113

lançamento Balanço Sensorial

promoção balanço

Balanço sensorial.

Feito em lycra Expandex , medindo 1,50m x 1,70m, possue argolas e mosquetão.

O balanço Sensorial oferece uma experiência física para as crianças que gostam de balançar. Oferecendo a sensação de ausência de peso, sensação semelhante a segurança e conforto do útero materno. Cria desafios originais do planejamento motor, provocando um forte estímulo tátil, proprioceptivo e vestibular, organizando o paciente nos seus movimentos e consequentemente em seu estado de alerta e emocional.

Seu filho e seus pacientes vão passar horas pulando, girando, pendurado, navegando através do ar, ou apenas descansando dentro do Balanço.

De R$ 420,00 por R$ 320,00

http://www.musicautista.com.br

Divertida brincadeira africana Si ma ma Ka

Conheci esta brincadeira do folclore africano, Ghana, e me apaixonei logo de cara. A letra é fácil e está associada aos movimentos corporais. Na prática já realizei com crianças típicas (a diversão foi garantida) e crianças com autismo leve (muito bom também).

be06a8_ac249e1bf0654f6b97c86478d0024a7c

Geralmente nas oficinas que ministro, ela se torna um momento musical extremamente prazeroso.

Si Ma ma Ka
Si Ma ma Ka/ Si Mama Ka
Ruka, ruka, ruka/ Si Ma ma Ka
Tembea, tembea, tembea/ Tembea, Tembea, Tembea
Ruka, ruka, ruka/ Si Ma ma Ka
Kimbia, kimbia, kimbia/ Kimbia, kimbia, kimbia
Ruka, ruka, ruka/ Si Ma ma Ka
A brincadeira consiste em fazer um movimento específico para cada uma das palavras, da seguinte maneira:
Si Ma ma = fica em pé, parado
Ka = abaixa, ou senta no chão
Ruka = pula no lugar
Tembea = anda em qualquer direção
Kimbia = corre em qualquer direção

Segue abaixo a partitura em PDF:

simama

E você pode assistir o vídeo da brincadeira musical em nosso canal do youtube, segue o link:

 

Porquê trabalhar na regulação/modulação sensorial na musicoterapia?

Desde que iniciei meu trabalho musical com pessoas com autismo, percebi o quanto é importante conhecer sobre integração sensorial para se trabalhar na musicoterapia e educação musical. É uma pena que as grades curriculares ainda não estão atualizadas, isso facilitaria a vida dos futuros profissionais, seja em consultório ou em uma escola.

52

Listarei abaixo esta justificativa:

A aprendizagem dos elementos musicais que constituem o que chamamos de ritmo está diretamente relacionada com as sensações físicas de equilíbrio, peso e movimento corporal. Portanto, as competências com a pulsação/tempo, a divisão da pulsação (binária/ternária), a memória rítmica e a polirritmia (vários ritmos em simultâneo), deverão ser aprendidas justamente a partir das sensações físicas que o nosso corpo já conhece.

As atividades a usar para desenvolver este tipo de competências deverão envolver muito mais do que “palminhas”! A diversidade das atividades relacionadas ao ritmo deverá incluir jogos de movimento corporal e deslocação espacial que envolvam o corpo todo e não apenas os membros superiores.

A estimulação vestibular aumenta a produção  da fala  por causa da relação estreita com o sistema auditivo. Por esta razão, estimular o sistema vestibular pode ser uma boa estratégia quando se quer promover a produção da fala em uma criança.

No caso do trabalho com crianças devemos levar em conta a menor dimensão dos membros, a localização mais baixa do centro de gravidade e a maior velocidade do batimento cardíaco. Portanto os cuidados a ter deverão envolver:

  1. escolher frases com um tamanho e uma regularidade adequadas
  2. Escolher um tempo adequado ao ritmo interno e as características físicas da criança (usualmente mais rápido do que os do adulto)
  3. escolher padrões rítmicos que as crianças possam repetir (levando em conta as características físicas da criança)
  4. escolher movimentos “naturais” para a criança.

A RELAÇÃO DA MÚSICA COM O PROCESSAMENTO SENSORIAL: A musicoterapia e sua atuação no tratamento de crianças com autismo no contexto do modelo DIR/Floortime.

A RELAÇÃO DA MÚSICA COM O PROCESSAMENTO SENSORIAL: A musicoterapia e sua atuação no tratamento de crianças com autismo no contexto do modelo DIR/Floortime.

Michele de Souza Senra

             Thelma Alvares

RESUMO

Este artigo integra uma pesquisa em andamento em fase inicial, visando relacionar os elementos musicais e a forma como as disfunções sensoriais podem influenciar como o individuo com autismo percebe a música. O modelo de intervenção escolhido para a pesquisa é a abordagem desenvolvimentista DIR/Floortime,  partindo de uma revisão bibliográfica e da experiência da autora na prática do mesmo. A música fornece estimulação concreta e multissensorial (auditiva, visual, vestibular, propriocepção e tátil). As interações entre os sistemas sensoriais e como o cérebro captam essas informações, podem atrapalhar as percepções musicais de uma criança com atraso no desenvolvimento, por exemplo, e o estímulo sensorial com a música pode beneficiá-las. Além disso, a música atua diretamente nas emoções, e estabelecer um vínculo afetivo e emocional é importante no processo de reabilitação.

Palavras-chave: autismo, musicoterapia, DIR/Floortime e Processamento sensorial

 

1 INTRODUÇÃO

Muitas crianças com autismo possuem aptidões musicais, mas a dificuldade no processamento sensorial pode atrapalhar suas percepções, e dificultar o vínculo afetivo. O Objetivo deste artigo é abordar o funcionamento sensorial ligado às competências musicais e como podemos estimular crianças com autismo na musicoterapia.

A metodologia deste trabalho tem como principais referenciais teóricos a musicoterapeuta Dorita Berger e o médico Stanley Greenspan, entre outros autores. O que me motivou a querer estudar sobre essa temática, primeiramente foi meu filho, e através dele me envolvi com outras crianças. Busquei e ainda busco entender essa misteriosa síndrome e como posso ajudar cada criança com o transtorno com suas diferenças individuais.

2 AUTISMO: BEM VINDO AO MEU MUNDO SENSORIAL

 O artigo Autistic disturbances of affective contact2 de Kanner (1943) descreveu pela primeira vez, o que hoje conhecemos por autismo. Ele percebeu que apesar de apresentarem sintomas que lembravam os de pacientes com esquizofrenia (obsessividade, estereotipia e ecolalia), existiam outros pontos que divergiam e diferenciavam esse diagnóstico.

Desde sua descoberta, muitas coisas aconteceram. Hoje a classe médica está fornecida de mais informações para o diagnóstico. Prova disso, são os dados estatísticos cada vez mais crescentes do diagnóstico de autismo. Segundo dados da CDC (Centers for Disease control and Prevention)3, responsável pelo controle estatístico  de incidências de autismo, o número de crianças com o transtorno é alarmante. Cerca de 1 em 68 crianças recebem o diagnóstico. Para se ter uma ideia, entre o ano de 2000 a 2002 era 1 em 150, 2008 1 em 88.

Ainda não se sabe o que causa, e nem mesmo a cura. Porém, há uma movimentação por parte de cientistas do mundo inteiro na solução deste mistério, e está cada vez mais próximo de se comprovar através da genética e defeitos neurais. O mais recente Manual de Diagnóstico de Transtornos Mentais DSM-54 (2013), inclui nos comportamentos de padrões repetitivos as dificuldades no processamento de informações sensoriais.

Greenpan e Wieder (2006) dedicaram-se em pesquisas e desenvolveram uma intervenção terapêutica conhecida como DIR/Floortime, baseado em atividades lúdicas e de base sensorial que ajudam a criança a expressar seus sentimentos e resolução de conflitos. É uma abordagem de dentro para fora que visa atender a uma variedade de entraves no desenvolvimento. A outra meta é auxiliar os pais dessas crianças para que ajudem seus filhos a perceber e a interagir com o meio. Eles afirmam que o autista com pouca idade ou com problemas de atraso severo na linguagem não podem ser alcançado

2 Tradução: Distúrbios autísticos do contato afetivo.

3 Disponível em: http://www.cdc.gov/ncbddd/autism/data.html. Tradução CDC: Centro de Controle e prevenção de doenças. Acessado em: 15 de out. 2014

Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5) de 2013.

se não usarmos a brincadeira como um canal de aproximação. Neste aspecto, a musicoterapia pode ser uma ferramenta importante neste processo de engajamento e vínculo afetivo.

Para Greenpan e Wieder (2006, p. 14) para que a criança autista tenha um bom desenvolvimento é essencial que haja uma troca afetiva com seus cuidadores, assim como qualquer criança. E nessa tríade inclui a organização comportamental e do humor. A falta desta troca pode privá-las e prejudicá-las no desenvolvimento da linguagem e cognição. Os autores ainda ressaltam que sem experiência vivida não há como fechar conceitos, fazer abstrações. Essa é uma problemática que se acentua nas  pessoas afetadas pelo autismo. A dificuldade de interação e interesse pelo meio as impede de desenvolverem de acordo com os padrões.

Aspectos sensoriais no autismo

 Segundo Greenspan e Wieder (2006, p.17) por causa das diferenças inatas no processamento sensorial, a experiência emocional de um estímulo irá variar de uma criança para outra. O mesmo som, por exemplo, uma voz mais aguda, pode ser interpretada como agradável e reconfortante para um e extremamente irritante para outro. Uma carícia pode ser apreciada por uma criança, quando para outra pode ser extremamente dolorosa. Cada pessoa, ao longo do tempo cria um “catálogo” de experiência sensorial e emocional. A deficiência sensório-motora pode afetar profundamente a experiência do indivíduo de se relacionar com o outro.

Os autores também exemplificam que crianças com hiposensibilidade ao toque ou som apresentam comportamento agitado e uma busca sensorial e de sensações constantemente. Por conta disso, elas podem mostra-se agressivas em determinados ambientes, com incapacidade de organização, envolvimento, co-regulação e emocional. Ambientes com muitos ruídos ou com muitas pessoas em volta podem sobrecarregar a criança com hipersensibilidade e alterar seu comportamento.

Nosso cérebro nos informa acerca do mundo externo a partir dos sistemas sensoriais. Berger (2002, p. 23) fala que o cérebro só decodifica e interpreta o que é recebido, e que está equipado para interpretar. Mas que ele não consegue identificar o que não tem. Um exemplo é de pessoas recém-mutiladas que ainda sentem dores em membros  já  não  existentes.  Ainda  segundo  a  autora,  o  cérebro  humano  não  pode decodificar os extremos sons altos que qualquer cão pode ouvir. Isso porque nosso (cérebro não sabe que essas frequências existem mesmo), porque o sentido da audição não detecta e nem transmiti a conversão de impulsos elétricos.

A autora ainda afirma que o cérebro humano, registra a informação auditiva e imediatamente sintoniza sequências de sons ligados e ritmo. Ele controla os sons que permanecem sintonizados ao som ainda presente, antecipando o próximo som. Neste caso, uma criança com autismo se sentirá emocionalmente bem. Isto por que a música induz a liberação de dopamina e outros relaxantes do sistema, reduzindo a resposta de luta ou fuga por acalmar o sistema para baixo o suficiente para permitir a modulação eficiente. Em virtude das afirmações dos autores citados neste capítulo, penso que a criança não deve ser vista com uma função isolada, porque todos os sistemas estão interligados.

Greenspan e Wieder (2006, p. 15) explicam que crianças autistas que estão alheias ao seu redor, ficam esquivas e se mantêm distantes das pessoas, em nada tem haver com a falta de amor e sim por um bombardeio de estímulos sensoriais. A atenção é um processo dinâmico que envolve muitas partes do sistema nervoso  ao mesmo tempo. Essas bases biológicas nas funções motoras e sensoriais alteram a capacidade de uma criança se autorregular e ter interesse pelo mundo. E que precisamos olhar para a modulação sensorial de cada um para conseguirmos estabelecer um relacionamento com eles. Nascimento e Ikuta exemplificam que:

A estimulação sensorial é essencial para a percepção do mundo. A música se constitui em importante objeto de estimulação sensorial porque ocorre simultaneamente no tempo e no espaço, proporcionando a vivência desses elementos musicais em diferentes velocidades, alturas e durações. (NASCIMENTO, IKUTA, CARVALHO, 2009, pág.121)

Para uma melhor compreensão dos sistemas sensoriais básicos, e como eles se relacionam com a música, devemos observar suas funcionalidades e o que acontecem quando não são processados adequadamente. Desde o útero de nossas ães vivenciamos experiências gravitacionais. Após o nascimento o bebê, a cada mês, seu corpo vai se preparando motoramente para as posturas corporais necessárias para sentar, mover-se e andar. O sistema vestibular é responsável pelo equilíbrio e movimento do nosso corpo. “Ele também age juntamente com o sistema proprioceptivo, cuja função está ligada aos músculos e tendões” (Berger,2002, p. 62) . Greenspan e Wieder (2006) sugerem que algumas crianças podem se concentrar melhor quando estão envolvidas em atividades rítmicas lentas, movimentando-se no balanço de lycra. Outros podem responder melhor quando experimentam movimentos alternados entre rápido e lento. A frequência do ritmo e movimento ajuda a manter um estado de regulação e calma.

Para Berger (2002, p.108), quando a pessoa apresenta uma desordem no processamento multissensorial altera os aspectos de coordenação auditivos e motores. Ela explica que o mesmo ritmo que estimula os músculos a reagirem com movimento, se a criança apresenta dificuldade no processamento do som e planejamento motor, isso irá interferir no modo como a criança reagirá fisiologicamente sobre o som e o movimento. Pois, o processamento em conjunto do sistema vestibular e proprioceptivo, tátil, auditivo e visual, não estão organizados e integrados em um mesmo nível. Para tocar um instrumento musical existem um envolvimento de entrada multissensorial, que inclui o feedback do planejamento motor, proprioceptivo e tátil. A ação de bater em um tambor, por exemplo, “envolve movimentos bilaterais do braço, o cotovelo fica flexionado, as mãos se ocupam com as baquetas, movimentando-se ritmicamente para cima e para baixo” (BERGER, 2002, p.108) , acompanhando o pulso. Crianças com esses déficits não têm controle motor e percepção de pulsação e andamento.

Penso que autistas que possuem dificuldades para registrar os estímulos sensoriais, além da desatenção já mencionada, estão em busca de sensações e tentam criar um ambiente próprio com seus balbucios vogais e movimentos, como de um pêndulo, movendo-se  de um lado e para o outro sem parar.

Contudo, Berger (2002, p. 46) diz que os elementos musicais, quando aplicados de forma correta para atender a objetivos específicos, contribuem com informações relevantes para o sistema límbico, que traz para o sistema fisiológico a sensação e ajustes de conforto necessários. A música atua como um agente que acalma e dissipam as entradas sensoriais que causam medo. É como se o som fosse um cobertor que envolve o corpo trazendo conforto e segurança. Uma vez que o cérebro humano registra informação auditiva, como forma de tratamento do ambiente, consegue sequenciar os sons ligados a ritmo. O cérebro vai controlando os sons que estão presentes, e antecipar o próximo som.

Apesar disso alguns sons não recebem a mesma atenção. Outro ponto relatado pela autora é que existe um efeito no sistema auditivo que é conhecido por reflexo do ouvido médio. Ao ouvirmos sons em frequência muito alta em um determinado ambiente, dois músculos do ouvido médio são acionados (adaptação reflexiva), a fim de reduzir a capacidade da membrana timpânica na recepção do som. A autora ainda dá o exemplo do que ocorre com o sistema visual. O contato dos olhos com luzes mais fortes, faz com que nossa pálpebra se contraia. Deste modo, a criança autista tem como reflexo, colocar as mãos ou os dedos no ouvido para bloquear a entrada de sons (BERGER, 2002, p.85).

Greenspan e Wieder (2006) explicam que crianças com hiposensibilidade  ao som reagem a um padrão vocal dramático alto, porém as que apresentam hipersensibilidade responderão melhor com os tons suaves e de baixa frequência. Neste caso, a criança tem dificuldade para abstrair a sequência de sons, mesmo que sejam com ritmos simples, ou com mais variações.

Benezon (1985) explica que as reações de perigo frente aos ruídos estão em um nível mais profundo. Ele acredita que essa sensibilidade a determinados sons não está relacionada aos sons internos que percebemos desde a vida uterina, e sim são percebidos pelo corpo pelo sistema tátil. Sons específicos provocam os medos, assim como sons monótonos, repetidos, podem causar o aumento da tensão e levar ao sentimento de pânico.

Considerações finais

A música é parte integrante do comportamento humano. É através dela que nos expressamos e nos conectamos com o outro afetivamente. A música redireciona nossas tensões e organiza nossos comportamentos. Através deste trabalho podemos entender que o som nem sempre será respondido por um processamento intelectual. A música poder ser compreendida a nível intuitivo sem que ainda tenha desenvolvido o intelecto.

O conhecimento sobre o funcionamento vestibular e proprioceptivo e do planejamento motor, são importantes para que o musicoterapeuta possa ajudar a  criança a receber as mensagens adequadas às articulações e músculos e a se desenvolver. Isso faz com que o cérebro desenvolva a capacidade de reprogramar e reter novas informações sensoriais para uma adaptação funcional. Atividades musicais com as devidas adaptações sensoriais podem melhorar as funções fisiológicas presentes nos déficits sensoriais.

A interpretação sensorial é única em cada sujeito. Quando a música é aplicada para atender aos objetivos específicos, pode contribuir consideravelmente para  o sistema límbico, o que pode ajustar um conforto maior ao sistema fisiológico. A música tem como recurso o fator de acalmar o que pode trazer autoregulação sensorial. Ela envolve todo nosso corpo produzindo sensação de proteção e segurança.

Como a música poderia nos auxiliar para acalmar o sistema sensorial com a finalidade de eliminar as respostas de medo e rejeição a determinados sons e  músicas? A terapia realizada pelo musicoterapeuta, através de estímulos sonoros em uma base persistente, auxilia nas questões motoras e de linguagem. O estímulo musical afeta as adaptações auditivas. Além disso, atividades de escuta com foco em treinar o cérebro a ouvir e recordar os sons em sequência, podem ser muito eficiente. Berger (2002) sugere que essa escuta pode ser para sons específicos, trabalhar os tons graves e agudos para o ganho de habilidades de escuta, pois esses estímulos estimulam o planejamento motor- oral para a imitação do som vocal. Este é o desafio para permitir que a música faça a transferência de habilidades de rastreamento musical para os centros de monitoramento da fala no cérebro. Outro recurso para amenizar esses fenômenos é a dessensibilização do som específico. Potencializar de forma eficaz a reprogramação das funções do sistema auditivo. Nascimento (2009), diz que o método de dessensibilização tem como objetivo aumentar o limiar auditivo para os estímulos sonoros, para que melhore a qualidade de vida e a integração social.

REFERENCIAS

BENEZON, Rolando O. Manual de Musicoterapia. Tradução Clementina Nastari. Rio de Janeiro: Enelivros, 1985.

BERGER, Dorita S. Music Therapy, sensory integration and autistic child. London and Philadelphia: Jéssica Kingsley Publishers, 2002.

CENTERS   FOR   DISEASE   CONTROL   AND   PREVENTION.   Disponível    em:

http://www.cdc.gov/ncbddd/autism/data.html.  Acessado em: 15 de out. 2014

DIAGNOSTIC AND STATISTICAL MANUAL OF MENTAL DISORDERS    (DSM- 5). Disponível em: http://www.dsm5.org/about/Pages/BoardofTrusteePrinciples.aspx. Acessado em: 15 de out.2014.

GREENSPAN, Stanley I; BENDERLEY, Beryl Lieff. A evolução da mente. Tradução do inglês: Mônica magnani Monte. Rio de Janeiro: Record, 1999.

GREENSPAN, Stanley I; WIEDER, Serena. Infant and Early Childhood Mental Health: A Comprehensive Developmental Approach to Assessment and Intervention. Arlington, Va: American Psychiatric Publishing, Inc., 2006.

IKUTA, Clara Métodos de intervenção musicoterapêutica e suas aplicações. IN: NASCIMENTO, Marilene do (Coordenadora), Musicoterapia e a reabilitação do paciente neurológico. São Paulo: Memnon, 2009.

KANNER, Leo. Autistic disturbances of affective contact, na revista Nervous Children, número 2, páginas 217-250. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Autismo>. Acessado em: 14 de out. 2014.

NASCIMENTO, Marilena do. Musicoterapia e a reabilitação do paciente neurológico. São Paulo: Memnon, 2009.

THE INTERDISCIPLINARY COUNCIL DEVELOPMENT  LEARNING.  Disponível em: www.icdl.com

ARTIGO APRESENTADO NO XV SIMPOSIO DE MUSICOTERAPIA E XV ENCONTRO DE PESQUISAS EM MUSICOTERAPIA DA AMTRJ, EM 31 DE OUTUBRO DE 2015.

016 017 018

024

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 47 outros seguidores

%d bloggers like this: