Curso em Agosto!

Olá pessoal, atendendo a pedidos, no dia 19 de agosto de 2017, realizarei um curso sobre Música para desenvolver linguagem, cognitivo e relacionamentos afetivos.

O Curso tem como público-alvo: professores, educadores musicais, musicoterapeutas, pais e outras áreas de interesse.

Sobre o curso:

A proposta do curso é oferecer um suporte teórico e prático aos participantes, seguindo a filosofia do modelo DIR/Floortime para aplicação em atividades musicais. O objetivo é potencializar as capacidades intelectuais, linguagem e de relacionamentos de crianças que estão com atraso no desenvolvimento (TEA, Down, entre outros).

Palestrante:

Mt. Michele Senra – Musicoterapeuta e especialista em Educação Musical, Mestranda em Música pela UFRJ. Terapeuta DIR/Floortime. Idealizadora dos projetos Concerto azul e Musicautista.

Investimento:

R$ 200,00

TURMAS LIMITADAS! SOMENTE 10 VAGAS!

Incrições:

pelo whatsapp (21) 98635-8116

Local: Av. Meriti, 2487 sala 202 – Largo do Bicão (Vila da Penha) RJ/RJ

As emoções influenciam o desenvolvimento cognitivo

Muito se fala da importância do brincar no desenvolvimento infantil. Para que  uma pessoa tenha a capacidade de fazer simbolismos, abstrações, é necessário que a mesma vivencie experiencias para criar. Pensando assim, se uma criança não consegue se relacionar com o meio por observação, experimentação, dificilmente terá a capacidade de desenvolver um pensamento criativo. Crianças em geral, brincam sobre coisas que percebem no dia a dia, por exemplo, brincar de casinha, construir cidades com objetos, etc. Infelizmente, estamos perdendo nossa capacidade de brincar por objetos tecnológicos.

Segundo Greenspan e Benderly (1999), as emoções exercem um papel importante no desenvolvimento cognitivo:

Essas crianças, que sofrem alguns dos problemas mais sérios de pensamento e linguagem que possamos imaginar, de base biológica, podem nos ensinar muito pela observação de como aprendem a pensar, se relacionar e comunicar. As crianças com as quais meus colegas e eu trabalhamos apresentam sérios déficits relacionados a problemas claramente neurológicos, tais como uma fraca capacidade de processar os sons, compreender palavras e executar movimentos sequenciais. (…) vagueiam sem rumo; agitam os braços compulsivamente; esfregam um determinado ponto no tapete de forma intermitente, pequenos objetos em fileiras rigorosamente retas – , nas quais não apresentam capacidade de respostas às tentativas mais básicas de comunicação. (GREENSPAN, BENDERLY, 1999, p. 31)

Os autores enfatizam que programas alguns programas terapêuticos podem inibir a capacidade criativa de uma criança com autismo reforçando um pensamento mecânico e estereotipado, quando poderíamos explorar todo o potencial para o raciocínio criativo e abstrato. “(…) No curso normal de eventos, cada sensação, à medida que é registrada pela criança, também dá margem a um afeto ou emoção” (GREENSPAN, BENDERLY, 1999, p. 37). Isso quer dizer, segundo os autores que uma brincadeira pode ser muito interessante para a criança ou ser desagradável, porque essas experiências vivenciadas determinam as impressões sensoriais que estão atreladas aos sentimentos. Por exemplo: se uma criança apresenta uma diferença inata na formação sensorial auditivo, podem comparar o tom de uma voz alta (frequência e altura) como se fosse o soar de uma sirene, porque só conseguem perceber a altura mais aguda daquela narrativa.

No que se refere a musicoterapia, usar técnicas de improvisação aumenta a possibilidade de extrair a capacidade criativa da criança. Mas, o que eu realmente quero falar nessa postagem é sobre como criar experiencias através do brincar com a música que ajude a modular um comportamento influenciado por incapacidades sensoriais e motoras.

Algumas crianças com autismo, não dão conta da enxurrada de informações sensoriais ao seu redor e oscilam em uma brincadeira entre o prazer, raiva ou medo, por exemplo.  Tenho crianças que podem estar muito envolvidas em um jogo musical ou em uma brincadeira e ao menor movimento, um pouco mais brusco, altera o humor da criança imediatamente de alegria para pânico ou raiva.

Seguindo os preceitos do DIR/Floortime, um dos meus atendidos se enrolou no tapete para se esconder. Seguindo sua liderança, decidi que poderíamos tornar uma brincadeira tão antiga e simples em algo mais divertido com a introdução da música. Nesse jogo foi possível ajudarmos nosso anjinho a controlar sua ansiedade e seu corpo no espaço, saber esperar (e isso para uma criança com autismo é muiiiitooooo difícil). E a nossa tendencia é reforçar porque sempre nos antecipamos a criança e entregamos “tudo de bandeja”. Precisamos criar um expectativa, e deixar a criança responder ao estímulo a seu tempo. Brincadeiras de esconder desenvolvem a capacidade da criança do pensamento, de construir imagens mentais dos objetos e das pessoas.

 

“descobrimos que a unidade básica da inteligência reside na conexão entre um sentimento, ou desejo, e uma ação, ou um símbolo. Quando um gesto ou  uma fração de linguagem relaciona-se, de alguma forma, com desejos da criança – mesmo que seja algo tão simples quanto a vontade de sair ou ganhar uma bola – , ela pode aprender a usar esse gesto ou essa linguagem de forma adequada e eficaz. Até fazer a conexão, no entanto, seu comportamento e sua comunicação permanecem em desiquilíbrio; de fato, a dificuldade em estabelecer tais conexões constitui um elemento básico do distúrbio.” (GREENSPAN, BENDERLY, 1999, p. 35).

Sendo assim, entendo que, quando uma criança apresenta um interesse incomum e persistente, devemos nos conectar a partir deste interesse e transformar essa brincadeira em algo compartilhado e prazeroso. Com afeto envolvido a expansão da capacidade cognitiva será ampliada.

Mt. Michele Senra

Referência:

GREENSPAN, Stanley I; BENDERLY, Berryl Lieff. A evolução da mente: as origens da inteligencia e as novas ameaças a seu desenvolvimento. Tradução: MONTE, Mônica Magnani. Rio de Janeiro: Record, 1999.

Debate sobre autismo

No dia 15 de Maio fui convidada para um debate sobre autismo na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Esses debates são muito importantes para mobilizar mais ações dos políticos à favor da pessoa com deficiência.

A composição da mesa:

Presidência: Exma. Sra. Vereadora Tânia Bastos

Sr. Subsecretário da Subsecretaria da pessoa com deficiente: Geraldo Marcos Nogueira Pinto

Neuropediatra: Dr. joão Gabriel da Rocha silva

Musicoterapeuta: Michele Senra (euzinha)

Neuropsicopedagoga: Rosangela da Silva Paris

Instituto Helena Antipoff: Cristiane Botelho de Lima

Centro de Atenção Psicosssocial Infanto Juvenil: Laura de Carvalho Moraes Sarmento.

Foram homenageados com a comanda municipal em reconhecimento pelo trabalho desenvolvido com pessoas com autismo, os sambistas Ito Melodia e Gugu das Candongas, e eu também. Fiquei muito feliz e honrada com a homenagem.

O que podemos aprender com nossos pequenos mestres TEA

Não me canso de agradecer aos pais por me proporcionarem a maior fonte de aprendizado que nenhum livro ou teoria poderia me fornecer. Não subestime a capacidade que nossos heróis tem de nos surpreenderem. Hoje quero contar algumas de minhas experiências mais fantásticas na musicoterapia e no Concerto Azul.

Todo mês de abril será realizado uma edição do Concerto Azul, e para este ano conseguimos um palco maravilhoso cedido pelo Teatro Miguel Falabella. Mediante este evento, procurei programar apresentações emocionantes que mobilizasse e sensibilizasse pessoas para a causa do Autismo. Claro que neste processo coletamos muitas histórias interessantes e que merecem ser compartilhadas.

Caso Violino:

Musicoterapia na educação musical

No ano passado, cursei uma disciplina do mestrado sobre Ensino Coletivo de instrumentos musicais com o Prof. João Bellard Freire. Uma das propostas da aula foi assistirmos palestras no Painel Funarte de Ensino de Cordas Friccionadas. Eu me apaixonei por cada projeto apresentado, e deste momento coloquei na minha cabeça que tinha que ensinar violino para meus meninos se apresentarem no Concerto Azul. Detalhe, eu nunca tinha tocado um violino em minha vida.

Pedi no facebook a doação de um violino e ganhei um. Agora, faltava aprender a tocar para ensinar.

Faltando menos de um mês para a apresentação, eu o Thiago, entramos em uma aula particular e pedimos nossa professora que focasse em nos ensinar um trecho de uma música “Aleluia”. Marcamos as notas que deveriam tocar e confiantes iniciamos os ensaios. Foi caótico. Chorei e pensei “será que vai dar certo?. Faltavam menos de duas semanas. Marcamos ensaios todos os dias e Thiago e eu nos reversamos nesses dias. A Sylvia, que é psicóloga e tinha uma noção do instrumento, também nos ajudou nessa tarefa.

No último dia que eu estava a frente do ensaio, Rômulo, autista de 18 anos, e Fábio , autista de 24 anos, ainda estavam com dificuldades para dominar o arco, tocar no ritmo, acertar as notas….

Rômulo nos ensaios

Rômulo dava vários suspiros de desespero e Fábio repetia “Isso é muito difícil”. Com pena, tentei minimizar a situação:

  • Rômulo, vamos fazer o seguinte, a gente para um pouco e continua depois.

Rômulo deu mais um suspiro e disse:

  • Espera Michele, eu quero tentar mais uma vez. Vem Fábio, toca comigo.

Os dois iniciaram o ensaio e conseguiram tocar. Quase chorei de emoção! Rômulo e Fábio me ensinaram a não desistir diante de um obstáculo. Foram persistentes e acreditaram em si mesmos. No dia da apresentação, fiquei nos bastidores ouvindo e me emocionando, com a certeza de dever cumprido. Mas o mérito foi todo deles.

Concerto Azul

 

“O sucesso nasce do querer, da determinação e persistência em se chegar a um objetivo. Mesmo não atingindo o alvo, quem busca e vence obstáculos, no mínimo fará coisas admiráveis.”

José de Alencar

 

Vídeo do dia da apresentação:

Caso hiperacusia e acusia

Você sabe o que é hiperacusia e acusia? São dois fenômenos sensoriais Onde o indivíduo tem uma hipersensibilidade a determinados sons, podendo provocar dor física. Além disso, a hiperacusia pode afetar o emocional, isso porque o sistema límbico , que é responsável pelas emoções e comportamentos, faz parte deste processo de desenvolvimento da hipersensibilidade, focando sua atenção aos sons dificultando a atenção em outras atividades. O fato é que a hiperacusia atrapalha avida social desses indivíduos. Meu filho por exemplo, tem muita sensibilidade a som de latido de cachorro. Passar por uma rua onde tenha muios cachorros é uma tortura pra ele. Imagine, uma criança com hiperacusia que os pais vão levar para um evento social como: shopping, festa, igreja, etc. Se essa criança não for verbal, o que torna identificação mais difícil, a criança pode ter crises de comportamento em função de sons que não tolera e os pais se sentirem perdidos. Com o tempo são privados de frequentarem determinados locais.

Thomaz, Manu e Breno fazem parte desta estatística, porém o trabalho da musicoterapia pode minimizar os impactos sensoriais e auxiliar na modulação desses sentidos.

Manu quando iniciou na musicoterapia não suportava minha voz, principalmente quando eu cantava. Certos instrumentos faziam com que ela pedisse para parar de tocar pois “meus ouvidos doem”. A musicoterapia foi vital para que esses sintomas fossem minimizados. Hoje, Manu tem mais tolerância a sons, participa de musicoterapia em grupo e conseguiu se apresentar no Concerto Azul, mesmo com tantos estímulos sonoros aos seu redor. Para Thomaz, ainda tem um pouco de dificuldade de estar em um ambiente musical, e na medida do possível tentamos reduzir o estresse através de técnicas de dessensibilização. Breno também é capaz de se apresentar em um ambiente com bastante ruído, mas os latidos de cachorro ainda o incomoda, porém com menos frequência.

 

 

Por isso, defendo o atendimento em grupo, porque é por meio da observação e vivencia com o outro que aprendemos a resolver conflitos, criar pontes de ideias, fazer parte de um grupo social.

“Ninguém nasce feito, é experimentando-nos no mundo que nós nos fazemos.”

Paulo Freire

 

Caso Feio Inibitório e organização corporal

Você sabe o que é freio inibitório?

É a capacidade que a criança tem de controlar o próprio corpo e mudá-lo de direção quando em movimento. è o controle no tempo e no espaço.

Emanuel é uma fofura. Mas tem uma dificuldade com organização e controle do próprio corpo. Em uma sessão de musicoterapia estávamos ensaiando uma canção Si mama ka, música folclórica de Ghana, que é sobre movimento. Na canção tem comandos de ficar parado, pular, correr, andar… Dai surgiram suas maiores dificuldades, ter a atenção para fazer cada movimento a seu tempo. Então usamos uma estratégia, como ele adora inglês e tem uma compreensão muito boa, fizemos uma brincadeira sem música, inicialmente. Eu dizia:

  • Emanuel, pay attention. One, two, trhee and run. (Emanuel, preste atenção: um, dois, três e corre)

Emanuel começava a correr feliz da vida. Depois de repetir algumas vezes essa frase, acrescentei as palavras Jump (pular), stand still (ficar parado), Run (correr).

“O saber “entra” pelos sentidos e não somente pelo intelecto”.
(Frei Betto)

Depois de brincarmos pedir que ficasse parado e ai introduzimos o ritmo com a percussão, depois com o Ukulelê, e logo depois a canção. Fragmentar a canção com a brincadeira, e utilizando o inglês para aumentar o engajamento, Emanuel finalmente, conseguiu compreender com seu corpo a brincadeira. Isso não quer dizer que ele superou essa dificuldade, ainda precisa de muita organização. Mas conseguimos compreender, como as atividades para ele devem ser trabalhadas por pequenas etapas.

“… a brincadeira que é universal e que é própria da saúde: o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde…”
(Winnicott)

 

Isso é uma pequena parte das muitas experiencias que tenho vivido e quero poder continuar a compartilhar mais e mais histórias.

Mt. Michele Senra

 

Próximo Concerto Azul tem data marcada

Devido ao sucesso do Concerto Azul, o Norteshopping e Teatro Miguel Falabella pediram BIS. Então no dia 24 de abril de 2017 às 19h faremos uma reapresentação especial. Anote aí na sua agenda:

Data: 24 de abril de 2017

Horário: 19h

Ingresso: R$ 10,00

Comprar ingressos: http://www.musicacomestilo.com.br

Local: Teatro Miguel Falabella – Norteshopping

Participe! Você vai se encantar e ainda contribuir para a manutenção do projeto CORA, onde parte das vendas será destinada à instituição. As crianças precisam do cora e o cora precisa de vocês!

Concerto Azul – Ingressos esgotados

Estou imensamente feliz pela repercussão da 2ª edição do Concerto Azul. Os ingressos se esgotaram rapidamente.

Sou eternamente grata a Raquel, gerente do Teatro Miguel Falabella por acreditar no projeto e abrir as portas para essa apresentação. E claro, sem parcerias não seria possível a realização deste evento. O Concerto azul conta com os apoios do Norteshopping, Estilo By Elix, AMT-RJ, Marselle Rodrigues Fotografias.

Demanda muito trabalho, mas a recompensa vem na empolgação de nossos artistas TEA. No show, mostraremos diversos aspectos do autismo, como por exemplo o autismo severo, onde a música chega onde a linguagem verbal não alcança. Tem um número muito especial sobre isso.

Serão momentos emocionantes!

Para quem não conseguiu ingresso, não fique triste, postaremos alguns trechos do Concerto Azul,

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“Conserto” Azul: Repensando a performance estética como performance de relacionamento em uma apresentação musical de crianças e adolescentes com autismo

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo apresentar um relato de experiência de uma apresentação musical realizada com crianças e adolescentes dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA) no dia 2 de abril de 2016, dia mundial da conscientização do autismo. O repertório e a estrutura do evento foram planejados e executados respeitando a neurodiversidade para que pudessem expressar-se através da arte seus sentimentos e troca afetiva com o outro na construção de uma performance que valorizasse mais o relacionamento do que a estética propriamente dita. O pressuposto teórico deste artigo visa analisar o papel da musicoterapia como mediadora no processo de expressão artística.

Palavra-chave: autismo, performance, expressão musical, neurodiversidade

Introdução

O autismo é um transtorno que afeta a forma como o indivíduo se relaciona com o mundo. Suas percepções são alteradas, e por vezes, essas especificidades podem afetar o modo como podemos estabelecer uma conexão. No entanto, para Bakan (2014) ao pensarmos no autismo somente como uma patologia, perdemos a oportunidade de quebrarmos um paradigma: construímos uma nova maneira de olhar esse público pelo viés da neurodiversidade[1]. O autor acredita que este pensar não é uma negação da gravidade que o transtorno acarreta na vida do sujeito e de seus cuidadores e sim, redirecionar para uma perspectiva de aceitação das peculiaridades, e que a música seria essa “voz” alternativa para comunicar pensamentos, sentimentos e necessidades.

Alvares e Amarante (2016) explicam que o conceito da diversidade em contraponto com a “patologização”. Os autores advertem que com base na prática com alunos em sofrimento psíquico, fazer com que os alunos atendam os padrões de ensino é prejudicar o processo de aprendizado do mesmo, pois padronizar configura uma frustração deste indivíduo. “(…) a música, assim como as outras artes, contribui com a construção de espaços sociais que possam acolher a diversidade humana (ALVARES, AMARANTE, 2016, p. 33).

            Quando estava no processo de ensaios para a apresentação do Concerto Azul, um dos adolescentes do projeto, inusitadamente, indagou: “Ah Conserto Azul quer dizer que o show precisa ser consertado? ”.  Achei muito interessante e pertinente, embora que não tenha sido proposital, pois é conhecido como característica do autismo a dificuldade de compreensão de palavras de duplo sentido, metáforas e outras figuras de linguagem (APA, 2014). Porém, de fato, a ideia da apresentação era reconstruir a forma de uma apresentação musical que fosse inteiramente adaptada a realidade deles. A palavra azul representa a cor símbolo da causa.

A contribuição da musicoterapia na descoberta da identidade sonora do indivíduo com autismo

Enquanto a educação musical tem como objetivo o ensino e aprendizado da música, a musicoterapia se utiliza do som, da música e do movimento com a finalidade de abrir canais de comunicação e reabilitação (BENEZON, 1985).

Existem delimitações claras entre a musicoterapia e a educação musical. O que distingui as áreas são seus objetivos que definem seu papel empírico (PASSARINI, AOKI, PREARO e ANDRADE, 2012). Porém os autores ressaltam que os entrelaçamentos dos conteúdos propostos pela educação musical também norteiam os princípios da musicoterapia. A proposta é de refletir sobre a interdisciplinaridade da musicoterapia em estimular a singularidade da criança e explorar suas capacidades criativas e exploratórias da música para uma auto expressão emocional de seus conteúdos internos. Para Bang (1991, p. 21) “Em muitos casos, a musicoterapia vem a ser o único meio viável de se obter resultados terapêuticos e pedagógicos”.

            Um dos princípios metodológicas da musicoterapia consiste no ISO (igualdade) de Altshuler. Na prática significa que devesse igualar “o tempo mental do paciente com o tempo sonoro/musical executado pelo terapeuta (BENEZON, 1985, p. 44). Segundo Benenzon (1985) cada pessoa carrega um tempo biológico particular, e que em pessoas com deficiência intelectual seu ritmo interno, velocidade do andar são irregulares, atribuídos aos déficits motores. O autor exemplifica que uma criança agitada tem um tempo orgânico muito rápido, e que os exercícios rítmicos devem acompanhar o mesmo andamento. Por outro lado, uma criança inerte, com baixa reatividade motora, tem em seu tempo natural os andamentos mais lentos. “A criança, através do ritmo aprende a viver o tempo que passa” (BENENZON, 1985, p. 131).

Benezon (1985) também definiu uma outra forma de ISO:

O ISO universal é uma identidade sonora que caracteriza ou identifica a todos os seres humanos, independente de seus contextos sociais, culturais, históricos e psicofisiológicos particulares. Dentro deste ISSO universal figurariam as características particulares do batimento cardíaco, dos sons de inspiração e expiração, e da voz da mãe nos primeiros momentos do nascimento e dias do novo ser. (BENENZON, 1985, p. 46)

            Com base no princípio de ISO universal, em uma das escolhas do repertório do Concerto Azul, foi considerado a estereotipia motora de duas crianças. A primeira criança colocava a mão na boca e outra no ouvido para escutar o ressoar de seu próprio som. A segunda criança batia palma repetidamente sem nenhuma função aparente. Parecia experimentar o som que produzia. Escolhemos então a canção, cuja letra é sobre bolinha de sabão, com percussão corporal utilizando os elementos sonoros que esses pacientes traziam para o setting terapêutico. No Brasil, essa prática musical é muito difundida pelo grupo Barbatuques, de onde surgiu nossa inspiração. As batidas eram marcadas no peito (som grave) e a palma (som mais agudo), e finalizava com um som de estourar bolhas batendo na boca, como era produzido pelo primeiro paciente. A resposta emocional das duas crianças foi muito emocionante, pois a impressão que passava é que foi descoberto um caminho peculiar de comunicação, ou seja, segundo uma técnica de aproximação para abrir canais de comunicação entre o terapeuta e a criança (BENENZON, 1985).

Segundo Benenzon (1985) o corpo humano constitui um instrumento corporal que originou os instrumentos musicais, porque o instrumento seria uma extensão do próprio corpo.

Um dos adolescentes, no dia da apresentação, espontaneamente, sentiu-se compelido em ensinar a cada espectador a coreografia da canção. O resultado, foi a participação total de todos que estavam presentes no show.

Figura 1: Concerto Azul

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Fonte: arquivo pessoal

            Segundo Bruscia (2000) a experiência musicoterápica envolve quatro técnicas fundamentais: improvisação, Re-criação, composição e audição. Para o Concerto azul utilizamos o recurso de Re-criação onde “o cliente canta ou toca, de memória ou utilizando partitura, uma peça musical composta anteriormente” (BRUSCIA, 2000, p. 31).  Ainda segundo o autor, esta técnica tem como objetivo facilitar o engajamento, uma vez que aquele repertório tem um significado para a pessoa que o escolhe:

Os clientes de eleição para as experiências re-criativas são aqueles que precisam de estrutura para desenvolverem comportamentos e habilidades específicas. Também são indicadas para clientes que precisam entender e se adaptar às ideias e sentimentos dos outros preservando suas próprias identidades, assim como clientes que precisam trabalhar juntamente com outras pessoas visando a objetivos comuns. (BRUSCIA, 2000, p. 127)

Um dos integrantes do Concerto escolheu um solo de uma canção que falava de amizade, o que contrapõe com o mito de que pessoas com autismo não desenvolvem empatia. A dificuldade na comunicação social e no relacionado é descrito no DSM-5 (APA, 2014), porém a dificuldade não é sinônimo de desprezo ao contato humano. A música pode ser um intermediador neste processo de socialização. Bruscia (2000) acrescenta que a empatia, uma habilidade muito importante na construção de relacionamentos é facilitada pela música.  “De todos os fenômenos sonoros do corpo humano, o mais profundo é constituído da voz e canto” (BENENZON, 1985, p. 50).  Este mesmo menino, em uma entrevista para o Jornal da Band  (2015), sobre inclusão na escola, declarou “eu tenho os melhores amigos do mundo”. Em uma análise na perspectiva da musicoterapia, a escolha da música sobre o tema amizade, revela muito sobre seu conteúdo interno, seus sentimentos e o desejo de compartilhar suas descobertas com o outro.

Figura 2 – Canção da amizade

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Fonte: arquivo pessoal

Bruscia (2000) ressalta que o fazer musical em um grupo faz com que o centro tonal seja compartilhado, sincronização de ritmo, troca de estímulos sonoros e sensações provocadas pela música, tornando-se uma só pessoa no processo terapêutico. “ A música é útil para fazer conexões porque ela envolve e requer todos os tipos de conexões! ” (BRUSCIA, 2000, p. 73).

            Outros momentos foram igualmente importantes na produção deste evento. “Além de ter relações com outras pessoas significativas, cada indivíduo é parte de muitos estratos da comunidade, desde o núcleo familiar (…), amigos, sociedade a cultura (…)” (BRUSCIA, 2000, p. 153).  Um adolescente estava muito feliz em tocar uma canção com o único acorde que conhecia no violão, o La. Enquanto ele tocava seu único e precioso acorde, três meninos com autismo severo utilizavam o pau de chuva e o tambor trovador para fazerem efeitos de percussão na canção, marcando o tempo corretamente. Em um momento coletivo, todos tocaram Twinkle Litlle Star com sinos musicais. Cada criança acompanhada de um cuidador era responsável por uma nota. Três terapeutas ficaram responsáveis por guiar as crianças e adolescentes com TEA na leitura de uma partitura com cores. Cada cor representava uma nota. Este tipo de atividade musical pode auxiliar nos déficits de planejamento motor e viso-motor, que são processos sensoriais e motores deficientes, e que acarretam uma grande parte da população autista (DSM-5/APA, 2014).

Figura 2 – Apoio visual

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Fonte: arquivo pessoal

            Outras medidas foram tomadas para que as crianças e adolescentes pudessem se sentir confortáveis na apresentação. Levando em consideração que os distúrbios sensoriais estão presentes na vida de uma pessoa com autismo, o som foi diminuído para que as crianças que apresentavam uma hipersensibilidade auditiva conseguissem participar. Quanto as crianças com baixa reatividade ao som, os pais foram orientados a se sentarem próximos as caixas de som para que a vibração emitida por elas aumentasse o limiar auditivo.

O processo artístico: performance estética no conceito da musicoterapia

Por se tratar de um concerto onde a neurodiversidade era celebrada, as crianças tinham a total liberdade para circularem no palco e se aproximarem dos músicos. Bakan (2014) acredita que a produção musical de pessoas com autismo, podem ser classificadas como etnomusicologia. E que essas apresentações fornecem a sociedade uma outra perspectiva com relação a arte de indivíduos com autismo. “(…) o terapeuta utiliza as experiências musicais coletivas como base para a terapia do indivíduo ou da comunidade” (BRUSCIA, 2000, p.153).

            Bruscia (2000) traça uma interessante visão a respeito do que seria a estética para o musicoterapeuta:

A música é experienciada como um objeto artístico sempre que o foco está no puro prazer estético derivado do ato de fazer ou ouvir música. Aqui, os valores estéticos e a beleza são perseguidos e alcançados ao se improvisar, compor, re-criar ou escutar música, no processo criativo propriamente dito. Portanto, é o ato da criação artística que tem sentido estético, com interesse comparativamente menor sobre o valor artístico do produto resultante. (BRUSCIA, 2000, p. 157,158).

Considerações finais

            Como descrito no texto, a musicoterapia, diferentemente da educação musical, tem objetivos diferentes com a utilização da música. Porém, ambas as profissões podem dialogar, e juntas criar possibilidades para pessoas com necessidades especiais de se expressar através do fazer musical.

            A estética dentro da performance está mais voltada para o relacionamento que a música se interpõe entre o sujeito e seus pares. Neste sentido, a beleza não está em tocar os acordes perfeitos, no aprendizado formal de música, mas sim, em como a música é um objeto transformador e aberto a diversidade humana.  A experiência musical de como a pessoa com autismo se relaciona com ela é que torna esta vivência tão interessante. Além disso, este tipo de evento promove um modelo de socialização e sensibilização do público em geral, apreciando a produção artística de pessoas com TEA. Assim, objetivamos a quebra de barreiras e a construção de uma identidade.

REFERENCIAS

ÁLVARES, Sérgio Luís de Almeida. Considerações sobre a educação musical na diversidade sob a perspectiva da musicalidade abrangente. IN: ALVARES, Thelma Syndenstricker; AMARANTE, Paulo (org.). Educação Musical na Diversidade: construindo um olhar de reconhecimento e equidade social em educação. Curitiba: Editora CRV, 2016.

ÁLVARES, Thelma Sydenstrick; AMARANTE, Paulo. Educação musical na diversidade: um caminho para a ressignificação do sujeito em sofrimento psiquico. IN: ALVARES, Thelma Syndenstricker; AMARANTE, Paulo (org.). Educação Musical na Diversidade: construindo um olhar de reconhecimento e equidade social em educação. Curitiba: Editora CRV, 2016.

ÁLVARES, Thelma Sydenstrick; SALGADO, José Alberto. Refletindo sobre práticas musicais educativas, diferença e emancipação. IN: ALVARES, Thelma Syndenstricker; AMARANTE, Paulo (org.). Educação Musical na Diversidade: construindo um olhar de reconhecimento e equidade social em educação. Curitiba: Editora CRV, 2016.

BAKAN, Michael B. Ethnomusicological Perspectives on Autism, Neurodiversity, and Music Therapy. Voices: A world forum for music therapy. Vol, 14, nº3, 2014

BANG, Claus. Um mundo de som e música. IN: RUUD, Even (org.). Música e Saúde. Tradução: WROBEL, Vera B; CAMARGO, Glória P.; GOLDFEDER, Miriam. São Paulo: Summus Editora, 1991.

BENENZON, Rolando O. Manual de Musicoterapia. Tradução: NASTARI, Clementina. Rio de Janeiro: Enelivros, 1985.

BRUSCIA. Kenneth E. Definindo Musicoterapia. 2ª ed. Tradução: CONDE, Marisa Velloso Fernandez. Rio de Janeiro: Enelivros, 2000.

DSM-5/American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Tradução: NASCIMENTO, Maria Inês. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

ORTEGA, Francisco. Sujeito Cerebral e o movimento da neurodiversidade. Mana vol.14 no.2 Rio de Janeiro, 2008.

PASSARINI, Luisiana B. F; AOKI, Thiago T.; PREARO, Pablo de M.; ANDRADE, Andressa L. A educação musical no desenvolvimento da criança: trilhas da musicoterapia preventiva. IN: Anais do XIV Simpósio Brasileiro de Musicoterapia e XII Encontro Nacional de Pesquisa em Musicoterapia. Olinda, 2012.

[1] O termo Neurodiversidade (diversidade cerebral) foi cunhado por um grupo de ativistas autistas nos EUA, que dizem que o autismo não é uma doença e sim uma maneira diferente de ser (ORTEGA, 2008). Essa postura vem a eliminar as ideias pré-concebidas de psicanalistas nos anos 50 que acusaram as mães pelo autismo de seus filhos, chamando-as de mães geladeira.

A relação da música com o processamento sensorial – parte final

Enfim, chegamos ao final da série de vídeos sobre a Relação da música com o processamento sensorial.

Muitas pessoas com autismo apresentam comportamentos ritualísticos e estereotipias motoras e vocais. Greenspan e Wieder (2006) explicam que se a criança apresenta uma tendência ritualística fazendo sempre determinado som, podemos usar e abusar da criatividade criando uma canção com aquele som, ao invés de ignorá-lo. A incorporação das vocalizações, do cliente, em improvisação musical é uma prática muito comum em Musicoterapia. Berger (2002) acredita que a repetição rítmica conduz o cérebro ao sistema de atenção. A autora explica este fenômeno através de uma analogia aos soldados que marcham por longas distâncias repetindo frases rítmicas. O cérebro pode suportar esta repetição durante o tempo necessário para obter a mensagem.

Benenzon (1985, p.146) também concorda que é possível aproveitar os próprios recursos de comunicação que a criança apresenta, para criar um canal de comunicação com a mesma, ou seja, imitação das expressões vocais da criança. Para Benezon (1985)  o trabalho com objetos intermediários e a busca de sons que impactem o ego autista, é a chave para conexão. O autor explica que o uso de instrumental é necessário para auxiliar a terapia musical, por exemplo: bolas, aros e cordas para que conduzam ao movimento e jogos musicais. Esses objetos podem ser infinitos para que sejam alcançados os objetivos esperados. Outra questão citada pelo autor é a respeito da percussão corporal:

Suas mãos, golpeadas uma contra a outra ou sobre os joelhos; seus dedos: os movimentos de seu corpo inteiro, a marcha, o balanceio de um pé pelo outro e, a partir daí, passa-se de forma natural, ao som do bater palmas, das mãos golpeando o chão ou sobre a mesa. (…) O musicoterapeuta não deve temer que o aluno-paciente golpeie a si mesmo, ou que se machuque golpeando sobre um objeto qualquer. Muito pelo contrário, este é um meio de descarga de auto-agressividade e, além disso, permite organizar o movimento mostrando a possibilidade de golpear suavemente e não de maneira furiosa e automática. (BENENZON, 1985, p. 125 e 126)

Mesmo que não se tenha noção de uma determinada língua estrangeira, conseguimos intuir as emoções pela expressão e entonação da palavra. No caso de crianças com autismo essa prosódia pode ser pobre em variedade tonal. As emissões vocais não tem nenhum valor emocional aparentemente, mas percebi na prática que quando imito essas vocalizações enfatizando expressão e emoção, mudanças de tom, a criança consegue repetir e criar  outra frase melódica. Os tons ligados horizontalmente são semelhantes à prosódia (inflexão) em um discurso. Para isso não há a necessidade de um processamento cognitivo. Por exemplo, um bebê começa a compreender a palavra “Não” por inflexão do registro vocal como expressão negativa, antes mesmo da compreensão por processos cognitivos. Neste mesmo contexto, Berger (2002) conclui que:

Melodias que imitam as inflexões da fala prosódicas tendem a evocar respostas emocionais semelhantes aos evocados pela comunicação falada. Melodias irregulares (como, de alguma música moderna) pode criar uma inquietação no cérebro, que geralmente prefere padrões ordenados. Tons em staccato muitas vezes, induzem uma espécie de risada e alegria. Rir é uma chamada humana altamente contagiosa, em geral com um nível de coesão para um grupo. (BERGER, 2002, p. 121)

 

Para Berger (2002) a harmonia enfatiza todo o contexto emocional da melodia, pois atribuem referências espaciais para a audição. Culturas de diversas comunidades no mundo criaram seus próprios sistemas harmônicos e tonais. Porém, Berger (2002) alerta que se tenha cuidado ao usar a harmonia em intervenções terapêuticas em crianças com autismo, porque ela fornece uma entrada auditiva múltipla, o que poderá dificultar o processamento, uma vez que a criança pode apresentar problemas sensoriais. Se usada de forma eficiente, a harmonia desempenhará um papel importante na estimulação de percepção de profundidade auditiva, e pode ser utilizada em atividades que fortalecem o foco auditivo e habilidades figura-fundo.

            Berger (2002) considera o timbre como um atributo importante, porque representa a qualidade e a definição da textura de um som. Os xilofones e metalofones são ótimos recursos para a combinação de timbres. Fáceis de manipular e as teclas são removíveis, assim podemos deixar somente as teclas que a criança terá que tocar. O timbre nos ajuda a diferenciar o som de cada instrumento e a distinguir uma voz feminina de uma masculina, assim como os sons agudos e graves. Alguns sons provocam uma reação negativa em indivíduos que possuem um sistema sensorial inadequado. Processar a variedade de timbres vocais e instrumentais pode ser muito difícil para crianças com transtorno do espectro autista.  Berger (2002) afirma que embora o timbre seja um elemento importante para as habilidades de escuta, crianças com distúrbios do processamento sensorial poderão não ter compreensão dos processos cognitivos que envolvem o ouvir e provocar falta de atenção. Outro problema seria de cunho comportamental, incluindo as reações emotivas de medo e fuga.

            Papouseck (2005) descreve a interação entre pais e bebês como uma interação intuitiva que é observada em diferentes culturas e línguas. Existe uma “fala”, dirigida ao bebê, que é musical e multimodal. Ou seja, além da voz, o movimento, o estímulo tátil, a expressão facial, ou corporal, também são fundamentais e inerentes a esta interação intuitiva com o bebê. Ao lidar com alguma tensão do bebê, os pais tendem a utilizar uma fala com melodia suave, frases mais longas e graves. Para estimular a criança, por exemplo, para que explore um novo brinquedo, os pais tendem a utilizar uma fala mais aguda e com frases mais curtas. No entanto, é importante ressaltar que as funções e significados destas melodias dependem também da capacidade do bebê de discriminar, processar e decodificar estas falas melódicas que estão presentes no dia a dia do bebê. Sabemos que este processo não ocorre satisfatoriamente nas crianças com Autismo (ALVARES, 2005)

Relatos de experiência

 

Serão descritos brevemente três processos musicoterápicos de crianças com Autismo como meio de ilustrar clinicamente o que foi discutido na literatura. É importante ressaltar que os nomes das crianças foram alterados para preservar suas identidades.

 

Caso 1 – João

 

Algumas crianças com autismo apresentam os seguintes perfis sensoriais: sistema vestibular e proprioceptivo hiporresponsivo (baixa resposta/sensibilidade). Neste estudo, foi proposto à criança que será chamada de João,  diagnóstico de autismo, na época com 9 anos, uma atividade que consistia em estimular os dois sistemas para internalizar o ritmo no andamento da canção e input[1] para organização de comportamento. Eu cantava uma música sobre uma pulguinha que pulava, e finalizava cantando que a pulguinha caía bem na almofada. João, autista de 9 anos, não pulou no comando “almofada”, contei até 10 quando finalmente se jogou na almofada. Aparentemente, seu processamento é lento, e o cérebro não fez a sinapse necessária para que ele compreendesse o momento exato de finalizar a canção.

Brincadeiras musicais no trampolim, reforçando o movimento combinado com a música para manter a continuidade rítmica com o apoio da letra, estabelece novas referências homeostáticas[2] da estimulação motora adaptativa, porém, este processo pode ser lento. Os resultados não são de imediato, além disso, João tem baixo tônus muscular, o que fazia com que no início fosse incapaz de bater em um tambor devido à fraqueza muscular dos punhos e a ausência de planejamento motor (BERGER, 2002, p. 64,65).

 

Hoje, João consegue bater em um tambor sem auxílio, com a palma da mão aberta, num compasso simples. Assim, como Grandin (1991), apesar das dificuldades motoras, ele adora cantar e compor. Cria letras em cima de qualquer melodia, dentro do seu repertório de fala, que na maioria das vezes vem com ecolalia tardia[3]. É verbal, porém às vezes é difícil compreender determinadas palavras que fala de forma um pouco idiossincrática[4], bem característico de sua patologia.

Outro avanço de João foi com relação a uma estereotipia que ele fazia com uma bola, batendo-a contra a boca, deitado no chão de barriga para cima e batendo na bola. Crianças que necessitam morder qualquer objeto e levá-los à boca, normalmente possuem baixa sensibilidade proprioceptiva, principalmente na região bucal. Seus pais se incomodavam bastante com esta estereotipia e se o inibisse, João tinha uma reação de extrema irritabilidade. Então pensei em como minimizar estas reações, redirecionando para a música. Ensinei-o que a bola terapêutica era para sentar, e ele podia marcar o ritmo com as mãos batendo na bola. Esse exercício diminuiu sua ansiedade e ele o faz quando está cantando ou assistindo um filme. E é nesses momentos que ele cria suas canções, e também percebi que ele consegue compreender ordens, comandos, em forma de canto.

Caso 2 – Luiza

 

Luiza é uma menina com autismo, de 6 anos, não verbal, com histórico de grande irritabilidade e desorganização do comportamento frente aos bombardeios sensoriais dos quais não conseguia se regular. Pouco reagia aos estímulos oferecidos por outros terapeutas e gritava bastante nessas terapias. Luiza foi escolhida para meu estudo com o objetivo de usar a música como uma ferramenta para as acomodações sensoriais, e que lhe proporcionasse uma adequação não só de acalmar seu corpo e as disfunções sensoriais, mas proporcionar uma chance de se expressar através da música.

 

No primeiro encontro foi realizada a mesma atividade apresentada ao João, primeiro estudo de caso. Luiza antecipava o ritmo e pulava na almofada antes do comando. Com o tempo, ela foi se organizando ritmicamente.

No quinto encontro, Luiza me surpreendeu. Temos uma almofada sonora sensorial que estava na sala. Peguei meu celular e aleatoriamente toquei o som de um trenzinho. Ao ouvi-lo, Luiza imediatamente pegou a almofada sonora e percebeu que o som que produzia harmonizava com o som do apito do trem. Entendeu os momentos que deveria fazer pausa, e adicionou uma percussão corporal na harmonização da nova canção que ela acabara de compor. Talvez sua compreensão não tenha sido cognitiva, mas intuitiva. Consegui registrar em vídeo esse momento e mostrei à mãe, que ficou muito surpresa de ver que a filha tinha uma percepção musical que era desconhecida por ela até então.

Caso 3 – Lucas

 

Outro caso interessante, foi o de Lucas, autista de 6 anos. Foi uma das crianças que mais apresentavam desordem no processamento sensorial. Não tinha senso gravitacional (ligado ao sistema vestibular) e toda vez que escutava uma canção, girava em torno de si sem parar. Passei um tempo, pensando, de que forma eu poderia modular essa sensação que para ele era prazerosa, mas não era adequada. Até que um dia pensei no bambolê. A ideia era produzir a sensação de rodar, porém quando o bambolê caísse no chão desse essa percepção de fim. E deu certo.

Outra estratégia que ajudou na eliminação desse comportamento foi à bola. Ao ouvir a música, quicávamos nela com o ritmo da música. Depois sua mãe relatou que comprou uma bola e ele ouvia as músicas do DVD na bola quicando ritmicamente, trocando assim o movimento giratório, por uma ação proprioceptiva mais adequada. Ele agora podia sentir o pulso da música, e estes elementos encontravam-se mais internalizados.

 

 

Considerações finais

 

O autismo é um transtorno que afeta o individuo independente de sua etnia, condições econômicas, culturais, nível de escolaridade. A necessidade de criar programas terapêuticos que atendam às necessidades desta clientela de forma eficaz exige que tenhamos mais acesso à literatura e a pesquisas que visem facilitar a vida desses sujeitos. Nos últimos anos tivemos pesquisas que abriram novos caminhos para o tratamento da pessoa com Autismo, e a Musicoterapia pode ser um caminho facilitador neste processo de proporcionar uma qualidade de vida e bem estar, assim como, dissipar as sensações de medo e fuga diante de estímulos que não consiga modular.

No campo emocional, representa que a criança aprende mais com o ambiente e desenvolve habilidades através de interações prazerosas que facilita a internalização dos estímulos que foram apresentados levando para seu cotidiano o que foi vivenciado.

Acreditamos que tanto a experiência clínica descrita neste trabalho, assim como a discussão de literatura abordada, possa contribuir para o aprimoramento do tratamento de uma síndrome que tem sido um grande desafio para pais, profissionais da área da saúde e educação.

 

[1] Refere-se às entradas de estímulos sensoriais para a organização do comportamento.

[2] Refere-se ao equilíbrio funcional de todos os sistemas.

[3] A ecolalia é a repetição de uma palavra ou frase, ou sons peculiares (sirene, comerciais, trechos de filmes e desenhos…) que a criança autista ouviu e repete como se fosse um eco. A ecolalia pode ser imediata, assim que ela ouve a palavra ou frase, ou tardia, repetindo algo que ouviu em algum momento, mas que não tem nenhum sentido de comunicação.

[4] Uso peculiar de palavras ou frases não possibilitando entender o significado do que está sendo dito.

 

 

 

 

 

Com base no que foi citado acima por Benenzon (1985), quando um paciente apresenta estereotipia motora, redireciono aquele gesto para a percussão corporal.  Fazer uso desses eventos, e transformá-los em música, ajuda-os a diminuir algo sem sentido para torná-los com um propósito definido. Um exemplo disso, quando os bebês balbuciam “mamã” e “papa”, os pais instintivamente dão significado a estas palavras como: “aqui a mamãe”, “neném quer papa?”. Começa-se então o aprendizado da linguagem. Portanto, podemos auxiliar no aprendizado da linguagem musical se utilizamos repertório ritualístico do aluno. “Apesar de mudanças tonais (nas emissões prosódicas[1]) pode ser usado como fonemas, às mudanças na tonalidade, volume e frases que constituem características prosódicas são mais freqüentemente produzidos sem intenção consciente” (DEACON, 1997, p.418)[2].

[1] Emitir corretamente as palavras quanto à posição da sílaba tônica, segunda as normas da língua culta.

[2] Original inglês: “Though tonal shifts (in prosodic emissions) can be used as phonemes, the changes in tonality, volume, and phrasing that constitute prosodic features are most often produced without conscious intention”. (DEACON, 1997, p.418)

 

Referencia:

SENRA, Michele Souza. MUSICOTERAPIA E A UTILIZAÇÃO DOS ELEMENTOS DA MÚSICA PARA ADAPTAÇÃO SENSORIAL DE CRIANÇAS COM AUTISMO: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA, 2016.

A Relação da Música com o Processamento sensorial – partes

O estímulo vestibular com ritmo musical pode estimular a fala e o canto de crianças com autismo. Grandin (1991) é uma das autistas mais conhecidas no mundo. Apesar das dificuldades que encontrou ao longo de sua vida, conseguiu se estabelecer profissionalmente como cientista. Ela concorda que os estímulos de balanço podem proporcionar a aquisição de linguagem. Mas que coordenar muitos movimentos ao mesmo tempo limitou-a no aprendizado de um instrumento musical, porém isso não foi um impeditivo para o canto com afinação. Ela relata que quando criança tinha muitas dificuldades para se comunicar, mas que cantar sempre foi mais fácil. Outro desafio relatado é com relação ao ritmo, como por exemplo, sincronizar palmas e ritmos. Ela sugere que os problemas rítmicos podem estar relacionados com os problemas de fala. Os bebês típicos movem-se em sincronia com a fala dos pais, o que não ocorre em bebês com autismo. Sobre este tema, Bang explica:

O ritmo da fala é um movimento rítmico dos órgãos da fala, tais como respiração, a voz e os movimentos articulatórios da boca, em conjunto com os sons provenientes da laringe. Nós ouvimos os movimentos da fala, e dessa maneira, a audição é um processo sensório motor.

O exercício da música e do movimento treinam as funções sensório-motoras auditivas e vibratórias e a memória de tais sequências e sua utilização. As atividades musicais, portanto, treinam indiretamente as funções básicas da fala e da linguagem. BANG, 1991, p. 25)

O ritmo está presente em toda parte. O ritmo é fisiológico. Nossos órgãos internos funcionam ritmicamente para o funcionamento perfeito de nossa sobrevivência. O bebê acompanha desde o útero materno o ritmo pulsante do coração de sua mãe, e ao nascer, quando colocado no peito de sua mãe, se autorregula com os sons do batimento cardíaco. O universo é regido pelo ritmo pulsante de luzes e frequência dos sons para a órbita dos planetas (BERGER, 2002, p.112).  Cirigliano (2015) contextualiza a respeito desta relação musical do ser humano que advém da vida uterina até a morte:

 

A música todo o ser humano, do nascimento à morte. Os batimentos cardíacos e outros sons internos de uma gestante constituem a primeira marca musical do ser humano. Percebida desde o útero materno, por via óssea, nas vibrações, e auditivamente, estas sonoridades imprimem os primeiros indícios de uma identidade musical que vai se sofisticando após o nascimento. Vale dizer que, para o musicoterapeuta, o choro do bebê também é música. (CIRIGLIANO, 2015, p.7)

 

 

 

 

 

 

 

 

A estimulação auditiva e motora pode ser muito útil para o alinhamento da pulsação rítmica do corpo. Internalizar o ritmo com o corpo é um processo importante na integração dos sistemas. Ainda na opinião de Berger (2002) o regulamento rítmico dos processos internos, pulso, batimento cardíaco, respiração e etc., incluem a cognição e a linguagem, o que influencia o ritmo em relação à entrada rítmica externa. Crianças que conseguem internalizar o ritmo desenvolvem-se melhor no comportamento. E claro, com o corpo organizado ritmicamente as respostas fisiológicas são mais gerenciáveis. Desenvolver funcionalmente o planejamento motor auxilia na internalização rítmica e pulso (BERGER, 2002, p.114).

O corpo precisa sentir o movimento para que nosso cérebro consiga compreender. Quando a criança recebe um estímulo vestibular num balanço, ou trampolim, ou numa bola terapêutica, cantando uma música, marcando ritmo, estas ações resultarão na compreensão de seu cérebro na internalização rítmica e da entoação. Ikuta explica que:

A neurociência tem demonstrado que o estímulo auditivo rítmico pode melhorar ou promover respostas motoras e, ainda mais diretamente, estimular o movimento. O ritmo pode ser mais bem descrito como um “temporizador” sensorial que utiliza conexões, fisiologicamente, muito sensíveis entre o sistema auditivo e o motor no cérebro para influenciar o controle temporal do movimento. (IKUTA, 2009, p. 99)

 

O atributo rítmico, denominado pulso é o cronometrista, o marcapasso da música. O andamento do pulso, ou seja, se é rápido ou devagar, é importante na abordagem de problemas de desenvolvimento de linguagem. A aplicação do pulso ritmico podem alcançar bons resultados para a estimulação da fala. “Quando as sílabas são discriminadas em seus padrões rítmicos, as palavras tornam-se mais simples de ouvir, repetir e lembrar” (BERGER, 2002, p.115).

Berger (2002)  chama a atenção para os padrões rítmicos, pois o cérebro adora padrões. Eles preenchem as lacunas e mantém o cérebro em alerta sobre as constantes mudanças de informação musical. Enquanto o pulso permanece constante, o padrão por sua vez é livre para mudar, com paradas, sendo rápido e lento, e quando combinados adicionam uma dimensão profunda e constante num pulso simples. Berger (2002, p.116) acredita que na linguagem a presença do padrão é evidente, pois cada palavra quando divididas em ritmo silábico exibe um padrão. Assim, o padrão rítmico é um dos elementos principais para o aprendizado da língua falada. Por exemplo, se cantar ou falar uma palavra dividida em sílabas com ritmos padronizados, obtém-se a atenção e motivação necessária para imitar a palavra. Este exercício contribui para o desenvolvimento de linguagem de crianças não verbais.

Por esta razão, aprender um vocabulário de forma cantada contribui para a memorização mais eficiente das letras, e até mesmo de língua estrangeira. Para aprendermos uma língua estrangeira assimilação do idioma se dá pela padronização rítmica e tonal das palavras e frases. Quando alguém fala muito rápido, nosso cérebro tem dificuldade de rastrear e reter cada informação de forma padronizada. Informações muito rápidas são mais difíceis de serem compreendidas, principalmente por crianças que apresentam deficiências sensoriais e dificuldades de aprendizagem (SENRA, 2015).

Quando as informações são realizadas através de um padrão e pulsação rítmica, o cérebro não as percebe como algo ameaçador. Uma vez que essa informação está estruturada e organizada dentro do ritmo com padrões de afinação, o cérebro vai processando cada dado de forma aleatória expandindo o medo, e permitindo uma abertura de passagens para os canais cognitivos (BERGER, 2002, p.117).

 

A velocidade do pulso determina como a música irá provocar reações sensoriais, fisiológicas e emocionais. Assim como músicas rápidas nos impulsionam em uma energia alegre ou tensa, a música mais lenta pode nos relaxar, e fornecer informações importantes para o processamento cognitivo. As músicas rápidas animam o sistema e tem como objetivo acelerar as respostas do planejamento motor para a execução de tarefas e baixo tônus muscular. “É um aspecto que, quando usado conscientemente por razões específicas, podem alterar as respostas físicas e emocionais” (BERGER, 2002. P.119).

Texto por MICHELE SENRA

MUSICOTERAPEUTA E MESTRANDA EM MÚSICA PELA UFRJ