A relação da música com o processamento sensorial – parte final

Enfim, chegamos ao final da série de vídeos sobre a Relação da música com o processamento sensorial.

Muitas pessoas com autismo apresentam comportamentos ritualísticos e estereotipias motoras e vocais. Greenspan e Wieder (2006) explicam que se a criança apresenta uma tendência ritualística fazendo sempre determinado som, podemos usar e abusar da criatividade criando uma canção com aquele som, ao invés de ignorá-lo. A incorporação das vocalizações, do cliente, em improvisação musical é uma prática muito comum em Musicoterapia. Berger (2002) acredita que a repetição rítmica conduz o cérebro ao sistema de atenção. A autora explica este fenômeno através de uma analogia aos soldados que marcham por longas distâncias repetindo frases rítmicas. O cérebro pode suportar esta repetição durante o tempo necessário para obter a mensagem.

Benenzon (1985, p.146) também concorda que é possível aproveitar os próprios recursos de comunicação que a criança apresenta, para criar um canal de comunicação com a mesma, ou seja, imitação das expressões vocais da criança. Para Benezon (1985)  o trabalho com objetos intermediários e a busca de sons que impactem o ego autista, é a chave para conexão. O autor explica que o uso de instrumental é necessário para auxiliar a terapia musical, por exemplo: bolas, aros e cordas para que conduzam ao movimento e jogos musicais. Esses objetos podem ser infinitos para que sejam alcançados os objetivos esperados. Outra questão citada pelo autor é a respeito da percussão corporal:

Suas mãos, golpeadas uma contra a outra ou sobre os joelhos; seus dedos: os movimentos de seu corpo inteiro, a marcha, o balanceio de um pé pelo outro e, a partir daí, passa-se de forma natural, ao som do bater palmas, das mãos golpeando o chão ou sobre a mesa. (…) O musicoterapeuta não deve temer que o aluno-paciente golpeie a si mesmo, ou que se machuque golpeando sobre um objeto qualquer. Muito pelo contrário, este é um meio de descarga de auto-agressividade e, além disso, permite organizar o movimento mostrando a possibilidade de golpear suavemente e não de maneira furiosa e automática. (BENENZON, 1985, p. 125 e 126)

Mesmo que não se tenha noção de uma determinada língua estrangeira, conseguimos intuir as emoções pela expressão e entonação da palavra. No caso de crianças com autismo essa prosódia pode ser pobre em variedade tonal. As emissões vocais não tem nenhum valor emocional aparentemente, mas percebi na prática que quando imito essas vocalizações enfatizando expressão e emoção, mudanças de tom, a criança consegue repetir e criar  outra frase melódica. Os tons ligados horizontalmente são semelhantes à prosódia (inflexão) em um discurso. Para isso não há a necessidade de um processamento cognitivo. Por exemplo, um bebê começa a compreender a palavra “Não” por inflexão do registro vocal como expressão negativa, antes mesmo da compreensão por processos cognitivos. Neste mesmo contexto, Berger (2002) conclui que:

Melodias que imitam as inflexões da fala prosódicas tendem a evocar respostas emocionais semelhantes aos evocados pela comunicação falada. Melodias irregulares (como, de alguma música moderna) pode criar uma inquietação no cérebro, que geralmente prefere padrões ordenados. Tons em staccato muitas vezes, induzem uma espécie de risada e alegria. Rir é uma chamada humana altamente contagiosa, em geral com um nível de coesão para um grupo. (BERGER, 2002, p. 121)

 

Para Berger (2002) a harmonia enfatiza todo o contexto emocional da melodia, pois atribuem referências espaciais para a audição. Culturas de diversas comunidades no mundo criaram seus próprios sistemas harmônicos e tonais. Porém, Berger (2002) alerta que se tenha cuidado ao usar a harmonia em intervenções terapêuticas em crianças com autismo, porque ela fornece uma entrada auditiva múltipla, o que poderá dificultar o processamento, uma vez que a criança pode apresentar problemas sensoriais. Se usada de forma eficiente, a harmonia desempenhará um papel importante na estimulação de percepção de profundidade auditiva, e pode ser utilizada em atividades que fortalecem o foco auditivo e habilidades figura-fundo.

            Berger (2002) considera o timbre como um atributo importante, porque representa a qualidade e a definição da textura de um som. Os xilofones e metalofones são ótimos recursos para a combinação de timbres. Fáceis de manipular e as teclas são removíveis, assim podemos deixar somente as teclas que a criança terá que tocar. O timbre nos ajuda a diferenciar o som de cada instrumento e a distinguir uma voz feminina de uma masculina, assim como os sons agudos e graves. Alguns sons provocam uma reação negativa em indivíduos que possuem um sistema sensorial inadequado. Processar a variedade de timbres vocais e instrumentais pode ser muito difícil para crianças com transtorno do espectro autista.  Berger (2002) afirma que embora o timbre seja um elemento importante para as habilidades de escuta, crianças com distúrbios do processamento sensorial poderão não ter compreensão dos processos cognitivos que envolvem o ouvir e provocar falta de atenção. Outro problema seria de cunho comportamental, incluindo as reações emotivas de medo e fuga.

            Papouseck (2005) descreve a interação entre pais e bebês como uma interação intuitiva que é observada em diferentes culturas e línguas. Existe uma “fala”, dirigida ao bebê, que é musical e multimodal. Ou seja, além da voz, o movimento, o estímulo tátil, a expressão facial, ou corporal, também são fundamentais e inerentes a esta interação intuitiva com o bebê. Ao lidar com alguma tensão do bebê, os pais tendem a utilizar uma fala com melodia suave, frases mais longas e graves. Para estimular a criança, por exemplo, para que explore um novo brinquedo, os pais tendem a utilizar uma fala mais aguda e com frases mais curtas. No entanto, é importante ressaltar que as funções e significados destas melodias dependem também da capacidade do bebê de discriminar, processar e decodificar estas falas melódicas que estão presentes no dia a dia do bebê. Sabemos que este processo não ocorre satisfatoriamente nas crianças com Autismo (ALVARES, 2005)

Relatos de experiência

 

Serão descritos brevemente três processos musicoterápicos de crianças com Autismo como meio de ilustrar clinicamente o que foi discutido na literatura. É importante ressaltar que os nomes das crianças foram alterados para preservar suas identidades.

 

Caso 1 – João

 

Algumas crianças com autismo apresentam os seguintes perfis sensoriais: sistema vestibular e proprioceptivo hiporresponsivo (baixa resposta/sensibilidade). Neste estudo, foi proposto à criança que será chamada de João,  diagnóstico de autismo, na época com 9 anos, uma atividade que consistia em estimular os dois sistemas para internalizar o ritmo no andamento da canção e input[1] para organização de comportamento. Eu cantava uma música sobre uma pulguinha que pulava, e finalizava cantando que a pulguinha caía bem na almofada. João, autista de 9 anos, não pulou no comando “almofada”, contei até 10 quando finalmente se jogou na almofada. Aparentemente, seu processamento é lento, e o cérebro não fez a sinapse necessária para que ele compreendesse o momento exato de finalizar a canção.

Brincadeiras musicais no trampolim, reforçando o movimento combinado com a música para manter a continuidade rítmica com o apoio da letra, estabelece novas referências homeostáticas[2] da estimulação motora adaptativa, porém, este processo pode ser lento. Os resultados não são de imediato, além disso, João tem baixo tônus muscular, o que fazia com que no início fosse incapaz de bater em um tambor devido à fraqueza muscular dos punhos e a ausência de planejamento motor (BERGER, 2002, p. 64,65).

 

Hoje, João consegue bater em um tambor sem auxílio, com a palma da mão aberta, num compasso simples. Assim, como Grandin (1991), apesar das dificuldades motoras, ele adora cantar e compor. Cria letras em cima de qualquer melodia, dentro do seu repertório de fala, que na maioria das vezes vem com ecolalia tardia[3]. É verbal, porém às vezes é difícil compreender determinadas palavras que fala de forma um pouco idiossincrática[4], bem característico de sua patologia.

Outro avanço de João foi com relação a uma estereotipia que ele fazia com uma bola, batendo-a contra a boca, deitado no chão de barriga para cima e batendo na bola. Crianças que necessitam morder qualquer objeto e levá-los à boca, normalmente possuem baixa sensibilidade proprioceptiva, principalmente na região bucal. Seus pais se incomodavam bastante com esta estereotipia e se o inibisse, João tinha uma reação de extrema irritabilidade. Então pensei em como minimizar estas reações, redirecionando para a música. Ensinei-o que a bola terapêutica era para sentar, e ele podia marcar o ritmo com as mãos batendo na bola. Esse exercício diminuiu sua ansiedade e ele o faz quando está cantando ou assistindo um filme. E é nesses momentos que ele cria suas canções, e também percebi que ele consegue compreender ordens, comandos, em forma de canto.

Caso 2 – Luiza

 

Luiza é uma menina com autismo, de 6 anos, não verbal, com histórico de grande irritabilidade e desorganização do comportamento frente aos bombardeios sensoriais dos quais não conseguia se regular. Pouco reagia aos estímulos oferecidos por outros terapeutas e gritava bastante nessas terapias. Luiza foi escolhida para meu estudo com o objetivo de usar a música como uma ferramenta para as acomodações sensoriais, e que lhe proporcionasse uma adequação não só de acalmar seu corpo e as disfunções sensoriais, mas proporcionar uma chance de se expressar através da música.

 

No primeiro encontro foi realizada a mesma atividade apresentada ao João, primeiro estudo de caso. Luiza antecipava o ritmo e pulava na almofada antes do comando. Com o tempo, ela foi se organizando ritmicamente.

No quinto encontro, Luiza me surpreendeu. Temos uma almofada sonora sensorial que estava na sala. Peguei meu celular e aleatoriamente toquei o som de um trenzinho. Ao ouvi-lo, Luiza imediatamente pegou a almofada sonora e percebeu que o som que produzia harmonizava com o som do apito do trem. Entendeu os momentos que deveria fazer pausa, e adicionou uma percussão corporal na harmonização da nova canção que ela acabara de compor. Talvez sua compreensão não tenha sido cognitiva, mas intuitiva. Consegui registrar em vídeo esse momento e mostrei à mãe, que ficou muito surpresa de ver que a filha tinha uma percepção musical que era desconhecida por ela até então.

Caso 3 – Lucas

 

Outro caso interessante, foi o de Lucas, autista de 6 anos. Foi uma das crianças que mais apresentavam desordem no processamento sensorial. Não tinha senso gravitacional (ligado ao sistema vestibular) e toda vez que escutava uma canção, girava em torno de si sem parar. Passei um tempo, pensando, de que forma eu poderia modular essa sensação que para ele era prazerosa, mas não era adequada. Até que um dia pensei no bambolê. A ideia era produzir a sensação de rodar, porém quando o bambolê caísse no chão desse essa percepção de fim. E deu certo.

Outra estratégia que ajudou na eliminação desse comportamento foi à bola. Ao ouvir a música, quicávamos nela com o ritmo da música. Depois sua mãe relatou que comprou uma bola e ele ouvia as músicas do DVD na bola quicando ritmicamente, trocando assim o movimento giratório, por uma ação proprioceptiva mais adequada. Ele agora podia sentir o pulso da música, e estes elementos encontravam-se mais internalizados.

 

 

Considerações finais

 

O autismo é um transtorno que afeta o individuo independente de sua etnia, condições econômicas, culturais, nível de escolaridade. A necessidade de criar programas terapêuticos que atendam às necessidades desta clientela de forma eficaz exige que tenhamos mais acesso à literatura e a pesquisas que visem facilitar a vida desses sujeitos. Nos últimos anos tivemos pesquisas que abriram novos caminhos para o tratamento da pessoa com Autismo, e a Musicoterapia pode ser um caminho facilitador neste processo de proporcionar uma qualidade de vida e bem estar, assim como, dissipar as sensações de medo e fuga diante de estímulos que não consiga modular.

No campo emocional, representa que a criança aprende mais com o ambiente e desenvolve habilidades através de interações prazerosas que facilita a internalização dos estímulos que foram apresentados levando para seu cotidiano o que foi vivenciado.

Acreditamos que tanto a experiência clínica descrita neste trabalho, assim como a discussão de literatura abordada, possa contribuir para o aprimoramento do tratamento de uma síndrome que tem sido um grande desafio para pais, profissionais da área da saúde e educação.

 

[1] Refere-se às entradas de estímulos sensoriais para a organização do comportamento.

[2] Refere-se ao equilíbrio funcional de todos os sistemas.

[3] A ecolalia é a repetição de uma palavra ou frase, ou sons peculiares (sirene, comerciais, trechos de filmes e desenhos…) que a criança autista ouviu e repete como se fosse um eco. A ecolalia pode ser imediata, assim que ela ouve a palavra ou frase, ou tardia, repetindo algo que ouviu em algum momento, mas que não tem nenhum sentido de comunicação.

[4] Uso peculiar de palavras ou frases não possibilitando entender o significado do que está sendo dito.

 

 

 

 

 

Com base no que foi citado acima por Benenzon (1985), quando um paciente apresenta estereotipia motora, redireciono aquele gesto para a percussão corporal.  Fazer uso desses eventos, e transformá-los em música, ajuda-os a diminuir algo sem sentido para torná-los com um propósito definido. Um exemplo disso, quando os bebês balbuciam “mamã” e “papa”, os pais instintivamente dão significado a estas palavras como: “aqui a mamãe”, “neném quer papa?”. Começa-se então o aprendizado da linguagem. Portanto, podemos auxiliar no aprendizado da linguagem musical se utilizamos repertório ritualístico do aluno. “Apesar de mudanças tonais (nas emissões prosódicas[1]) pode ser usado como fonemas, às mudanças na tonalidade, volume e frases que constituem características prosódicas são mais freqüentemente produzidos sem intenção consciente” (DEACON, 1997, p.418)[2].

[1] Emitir corretamente as palavras quanto à posição da sílaba tônica, segunda as normas da língua culta.

[2] Original inglês: “Though tonal shifts (in prosodic emissions) can be used as phonemes, the changes in tonality, volume, and phrasing that constitute prosodic features are most often produced without conscious intention”. (DEACON, 1997, p.418)

 

Referencia:

SENRA, Michele Souza. MUSICOTERAPIA E A UTILIZAÇÃO DOS ELEMENTOS DA MÚSICA PARA ADAPTAÇÃO SENSORIAL DE CRIANÇAS COM AUTISMO: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA, 2016.

A Relação da Música com o Processamento sensorial – partes

O estímulo vestibular com ritmo musical pode estimular a fala e o canto de crianças com autismo. Grandin (1991) é uma das autistas mais conhecidas no mundo. Apesar das dificuldades que encontrou ao longo de sua vida, conseguiu se estabelecer profissionalmente como cientista. Ela concorda que os estímulos de balanço podem proporcionar a aquisição de linguagem. Mas que coordenar muitos movimentos ao mesmo tempo limitou-a no aprendizado de um instrumento musical, porém isso não foi um impeditivo para o canto com afinação. Ela relata que quando criança tinha muitas dificuldades para se comunicar, mas que cantar sempre foi mais fácil. Outro desafio relatado é com relação ao ritmo, como por exemplo, sincronizar palmas e ritmos. Ela sugere que os problemas rítmicos podem estar relacionados com os problemas de fala. Os bebês típicos movem-se em sincronia com a fala dos pais, o que não ocorre em bebês com autismo. Sobre este tema, Bang explica:

O ritmo da fala é um movimento rítmico dos órgãos da fala, tais como respiração, a voz e os movimentos articulatórios da boca, em conjunto com os sons provenientes da laringe. Nós ouvimos os movimentos da fala, e dessa maneira, a audição é um processo sensório motor.

O exercício da música e do movimento treinam as funções sensório-motoras auditivas e vibratórias e a memória de tais sequências e sua utilização. As atividades musicais, portanto, treinam indiretamente as funções básicas da fala e da linguagem. BANG, 1991, p. 25)

O ritmo está presente em toda parte. O ritmo é fisiológico. Nossos órgãos internos funcionam ritmicamente para o funcionamento perfeito de nossa sobrevivência. O bebê acompanha desde o útero materno o ritmo pulsante do coração de sua mãe, e ao nascer, quando colocado no peito de sua mãe, se autorregula com os sons do batimento cardíaco. O universo é regido pelo ritmo pulsante de luzes e frequência dos sons para a órbita dos planetas (BERGER, 2002, p.112).  Cirigliano (2015) contextualiza a respeito desta relação musical do ser humano que advém da vida uterina até a morte:

 

A música todo o ser humano, do nascimento à morte. Os batimentos cardíacos e outros sons internos de uma gestante constituem a primeira marca musical do ser humano. Percebida desde o útero materno, por via óssea, nas vibrações, e auditivamente, estas sonoridades imprimem os primeiros indícios de uma identidade musical que vai se sofisticando após o nascimento. Vale dizer que, para o musicoterapeuta, o choro do bebê também é música. (CIRIGLIANO, 2015, p.7)

 

 

 

 

 

 

 

 

A estimulação auditiva e motora pode ser muito útil para o alinhamento da pulsação rítmica do corpo. Internalizar o ritmo com o corpo é um processo importante na integração dos sistemas. Ainda na opinião de Berger (2002) o regulamento rítmico dos processos internos, pulso, batimento cardíaco, respiração e etc., incluem a cognição e a linguagem, o que influencia o ritmo em relação à entrada rítmica externa. Crianças que conseguem internalizar o ritmo desenvolvem-se melhor no comportamento. E claro, com o corpo organizado ritmicamente as respostas fisiológicas são mais gerenciáveis. Desenvolver funcionalmente o planejamento motor auxilia na internalização rítmica e pulso (BERGER, 2002, p.114).

O corpo precisa sentir o movimento para que nosso cérebro consiga compreender. Quando a criança recebe um estímulo vestibular num balanço, ou trampolim, ou numa bola terapêutica, cantando uma música, marcando ritmo, estas ações resultarão na compreensão de seu cérebro na internalização rítmica e da entoação. Ikuta explica que:

A neurociência tem demonstrado que o estímulo auditivo rítmico pode melhorar ou promover respostas motoras e, ainda mais diretamente, estimular o movimento. O ritmo pode ser mais bem descrito como um “temporizador” sensorial que utiliza conexões, fisiologicamente, muito sensíveis entre o sistema auditivo e o motor no cérebro para influenciar o controle temporal do movimento. (IKUTA, 2009, p. 99)

 

O atributo rítmico, denominado pulso é o cronometrista, o marcapasso da música. O andamento do pulso, ou seja, se é rápido ou devagar, é importante na abordagem de problemas de desenvolvimento de linguagem. A aplicação do pulso ritmico podem alcançar bons resultados para a estimulação da fala. “Quando as sílabas são discriminadas em seus padrões rítmicos, as palavras tornam-se mais simples de ouvir, repetir e lembrar” (BERGER, 2002, p.115).

Berger (2002)  chama a atenção para os padrões rítmicos, pois o cérebro adora padrões. Eles preenchem as lacunas e mantém o cérebro em alerta sobre as constantes mudanças de informação musical. Enquanto o pulso permanece constante, o padrão por sua vez é livre para mudar, com paradas, sendo rápido e lento, e quando combinados adicionam uma dimensão profunda e constante num pulso simples. Berger (2002, p.116) acredita que na linguagem a presença do padrão é evidente, pois cada palavra quando divididas em ritmo silábico exibe um padrão. Assim, o padrão rítmico é um dos elementos principais para o aprendizado da língua falada. Por exemplo, se cantar ou falar uma palavra dividida em sílabas com ritmos padronizados, obtém-se a atenção e motivação necessária para imitar a palavra. Este exercício contribui para o desenvolvimento de linguagem de crianças não verbais.

Por esta razão, aprender um vocabulário de forma cantada contribui para a memorização mais eficiente das letras, e até mesmo de língua estrangeira. Para aprendermos uma língua estrangeira assimilação do idioma se dá pela padronização rítmica e tonal das palavras e frases. Quando alguém fala muito rápido, nosso cérebro tem dificuldade de rastrear e reter cada informação de forma padronizada. Informações muito rápidas são mais difíceis de serem compreendidas, principalmente por crianças que apresentam deficiências sensoriais e dificuldades de aprendizagem (SENRA, 2015).

Quando as informações são realizadas através de um padrão e pulsação rítmica, o cérebro não as percebe como algo ameaçador. Uma vez que essa informação está estruturada e organizada dentro do ritmo com padrões de afinação, o cérebro vai processando cada dado de forma aleatória expandindo o medo, e permitindo uma abertura de passagens para os canais cognitivos (BERGER, 2002, p.117).

 

A velocidade do pulso determina como a música irá provocar reações sensoriais, fisiológicas e emocionais. Assim como músicas rápidas nos impulsionam em uma energia alegre ou tensa, a música mais lenta pode nos relaxar, e fornecer informações importantes para o processamento cognitivo. As músicas rápidas animam o sistema e tem como objetivo acelerar as respostas do planejamento motor para a execução de tarefas e baixo tônus muscular. “É um aspecto que, quando usado conscientemente por razões específicas, podem alterar as respostas físicas e emocionais” (BERGER, 2002. P.119).

Texto por MICHELE SENRA

MUSICOTERAPEUTA E MESTRANDA EM MÚSICA PELA UFRJ

A Relação da música com o processamento sensorial – partes 4 à 8/23

Greenspan e Wieder (2006, p. 15) explicam que crianças autistas que estão alheias ao seu redor, ficam esquivas e se mantêm distantes das pessoas, em nada tem haver com a falta de amor e sim por um bombardeio de estímulos sensoriais. A atenção é um processo dinâmico que envolve muitas partes do sistema nervoso  ao mesmo tempo. Essas bases biológicas nas funções motoras e sensoriais alteram a capacidade de uma criança se autorregular e ter interesse pelo mundo. E que precisamos olhar para a modulação sensorial de cada um para conseguirmos estabelecer um relacionamento com eles. Nascimento e Ikuta exemplificam que:

A estimulação sensorial é essencial para a percepção do mundo. A música se constitui em importante objeto de estimulação sensorial porque ocorre simultaneamente no tempo e no espaço, proporcionando a vivência desses elementos musicais em diferentes velocidades, alturas e durações. (NASCIMENTO, IKUTA, CARVALHO, 2009, pág.121)

O sistema Vestibular, embora não faça parte dos cinco sentidos, é um sistema fundamental para o “desempenho motor antigravitacional” (MOMO, SILVESTRE e GRACIANI, 2012, p. 9). Significa que, em função deste sistema, o Sistema Nervoso Central relaciona a ação e controle de nossos movimentos como, cabeça, olhos e corpo.

 

O estímulo vestibular com ritmo musical pode estimular a fala e o canto de crianças com autismo. Grandin (1991) é uma das autistas mais conhecidas no mundo. Apesar das dificuldades que encontrou ao longo de sua vida, conseguiu se estabelecer profissionalmente como cientista. Ela concorda que os estímulos de balanço podem proporcionar a aquisição de linguagem. Mas que coordenar muitos movimentos ao mesmo tempo limitou-a no aprendizado de um instrumento musical, porém isso não foi um impeditivo para o canto com afinação. Ela relata que quando criança tinha muitas dificuldades para se comunicar, mas que cantar sempre foi mais fácil. Outro desafio relatado é com relação ao ritmo, como por exemplo, sincronizar palmas e ritmos. Ela sugere que os problemas rítmicos podem estar relacionados com os problemas de fala. Os bebês típicos movem-se em sincronia com a fala dos pais, o que não ocorre em bebês com autismo. Sobre este tema, Bang explica:

 

O ritmo da fala é um movimento rítmico dos órgãos da fala, tais como respiração, a voz e os movimentos articulatórios da boca, em conjunto com os sons provenientes da laringe. Nós ouvimos os movimentos da fala, e dessa maneira, a audição é um processo sensório motor.

O exercício da música e do movimento treinam as funções sensório-motoras auditivas e vibratórias e a memória de tais sequências e sua utilização. As atividades musicais, portanto, treinam indiretamente as funções básicas da fala e da linguagem. BANG, 1991, p. 25)

Para Berger (2002, p.108), quando a pessoa apresenta uma desordem no processamento multissensorial altera os aspectos de coordenação auditivos e motores. Ela explica que o mesmo ritmo que estimula os músculos a reagirem com movimento, se a criança apresenta dificuldade no processamento do som e planejamento motor, isso irá interferir no modo como a criança reagirá fisiologicamente sobre o som e o movimento. Pois, o processamento em conjunto do sistema vestibular e proprioceptivo, tátil, auditivo e visual, não estão organizados e integrados em um mesmo nível. Para tocar um instrumento musical existem um envolvimento de entrada multissensorial, que inclui o feedback do planejamento motor, proprioceptivo e tátil. A ação de bater em um tambor, por exemplo, “envolve movimentos bilaterais do braço, o cotovelo fica flexionado, as mãos se ocupam com as baquetas, movimentando-se ritmicamente para cima e para baixo” (BERGER, 2002, p.108) , acompanhando o pulso. Crianças com esses déficits não têm controle motor e percepção de pulsação e andamento.

 

Penso que autistas que possuem dificuldades para registrar os estímulos sensoriais, além da desatenção já mencionada, estão em busca de sensações e tentam criar um ambiente próprio com seus balbucios vogais e movimentos, como de um pêndulo, movendo-se  de um lado e para o outro sem parar.

Contudo, Berger (2002, p. 46) diz que os elementos musicais, quando aplicados de forma correta para atender a objetivos específicos, contribuem com informações relevantes para o sistema límbico, que traz para o sistema fisiológico a sensação e ajustes de conforto necessários. A música atua como um agente que acalma e dissipam as entradas sensoriais que causam medo. É como se o som fosse um cobertor que envolve o corpo trazendo conforto e segurança. Uma vez que o cérebro humano registra informação auditiva, como forma de tratamento do ambiente, consegue sequenciar os sons ligados a ritmo. O cérebro vai controlando os sons que estão presentes, e antecipar o próximo som.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em Música

 Terapeuta DIR/Floortime

 

A Relação da Música com o processamento sensorial – parte 3/23

Por Michele Senra

Nosso cérebro nos informa acerca do mundo externo a partir dos sistemas sensoriais. Berger[1] (2002, p. 23) fala que o cérebro só decodifica e interpreta o que é recebido, e que está equipado para interpretar. Mas que ele não consegue identificar o que não tem. Um exemplo é de pessoas recém-mutiladas que ainda sentem dores em membros já não existentes. Ainda segundo a autora, o cérebro humano não pode decodificar os extremos sons altos que qualquer cão pode ouvir. Isso porque nosso (cérebro não sabe que essas frequências existem mesmo), porque o sentido da audição não detecta e nem transmiti a conversão de impulsos elétricos.

A autora ainda afirma que o cérebro humano, registra a informação auditiva e imediatamente sintoniza sequências de sons ligados e ritmo. Ele controla os sons que permanecem sintonizados ao som ainda presente, antecipando o próximo som. Neste caso, uma criança com autismo se sentirá emocionalmente bem. Isto por que a música induz a liberação de dopamina e outros relaxantes do sistema, reduzindo a resposta de luta ou fuga por acalmar o sistema para baixo o suficiente para permitir a modulação eficiente.  Em virtude das afirmações dos autores citados neste capítulo, penso que a criança não deve ser vista com uma função isolada, porque todos os sistemas estão interligados.

[1] Dorita Berger é musicoterapeuta, pianista e educadora.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em Música

Referências:

SENRA, Michele de S;, ALVARES, Thelma S. A Relação da Música com o processamento sensorial:  a musicoterapia e sua atuação no tratamento de autistas no contexto do modelo DIR/Floortime. XV Simposio Brasileiro de Musicoterapia. XV Encontro Nacional de de Pesquisa em Musicoterapia. Rio de Janeiro, 2015.

A Relação da música com o processamento sensorial – parte 2/23

Por Michele Senra

Segundo Greenspan e Wieder (2006, p.17) por causa das diferenças inatas no processamento sensorial, a experiência emocional de um estímulo irá variar de uma criança para outra. O mesmo som, por exemplo, uma voz mais aguda, pode ser interpretada como agradável e reconfortante para um e extremamente irritante para outro. Uma carícia pode apreciada por uma criança, quando para outra pode ser extremamente dolorosa. Cada pessoa, ao longo do tempo cria um “catálogo” de experiência sensorial e emocional. A deficiência sensório-motora pode afetar profundamente a experiência do indivíduo de se relacionar com o outro.

            Os autores também exemplificam que crianças com hiposensibilidade ao toque ou som apresentam comportamento agitado e uma busca sensorial e de sensações constantemente. Por conta disso, elas podem mostra-se agressivas em determinados ambientes, com incapacidade de organização, envolvimento, co-regulação e emocional. Ambientes com muitos ruídos ou com muitas pessoas em volta podem sobrecarregar a criança com hipersensibilidade[1] e alterar seu comportamento.

[1] Hipersensibilidade – o limiar de sensibilidade é alto. Ex: Não suportar ser tocado.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em música

 

Referências

SENRA, Michele de S;, ALVARES, Thelma S. A Relação da Música com o processamento sensorial:  a musicoterapia e sua atuação no tratamento de autistas no contexto do modelo DIR/Floortime. XV Simposio Brasileiro de Musicoterapia. XV Encontro Nacional de de Pesquisa em Musicoterapia. Rio de Janeiro, 2015.

A Relação da Música com o processamento sensorial – parte 1/23

Por Michele Senra

A música fornece estimulação concreta e multissensorial (auditiva, visual, vestibular, propriocepção e tátil). As interações entre os sistemas sensoriais e como o cérebro captam essas informações, podem atrapalhar as percepções musicais de uma criança com atraso no desenvolvimento, por exemplo, e o estímulo sensorial com a música pode beneficiá-las. Além disso, a música atua diretamente nas emoções, e estabelecer um vínculo afetivo e emocional é importante no processo de reabilitação.

Você sabe a diferença entre musicoterapia e educação musical?

A Federação Mundial de Musicoterapia (1996) definiu a profissão como:

(…) a utilização da música e/ou seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) por um musicoterapeuta qualificado, com um cliente ou grupo, num processo para facilitar e promover a comunicação, relação, aprendizagem, mobilização, expressão, organização, e outros objetivos terapêuticos, no sentido de alcançar necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas. A musicoterapia objetiva desenvolver potenciais e/ou restabelecer funções do indivíduo para que ele/ela possa alcançar uma melhor integração intra e/ou interpessoal e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida pela prevenção, reabilitação ou tratamento. (FEDERAÇÃO MUNDIAL DE MUSICOTERAPIA, 1996)

A Educação Musical tem um objetivo específico com fins pedagógicos, no ensino estruturado de instrumentos, leitura rítmica, etc.

Existem delimitações claras entre a musicoterapia e a educação musical. O que distingui as áreas são seus objetivos que definem seu papel empírico (PASSARINI, AOKI, PREARO e ANDRADE, 2012). Porém os autores ressaltam que o entrelaçamento dos conteúdos propostos pela educação musical também norteiam os princípios da musicoterapia. A proposta é de refletir sobre a interdisciplinaridade da musicoterapia em estimular a singularidade da criança e explorar suas capacidades criativas e exploratórias da música para uma auto expressão emocional de seus conteúdos internos. Para Bang (1991, p. 21) “Em muitos casos, a musicoterapia vem a ser o único meio viável de se obter resultados terapêuticos e pedagógicos”.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em Música

Música é um processo multissensorial

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A música é um processo multissensorial. Desde que iniciei minha práxis com a música e autismo, compreendi a importância da “Musicoterapia Sensorial” no estímulo de pessoas com autismo. Inicialmente, um colega de profissão achou que eu estava louca. Disse que a visão dele era da saúde mental e que meus questionamentos não condiziam com a realidade. Ser mãe de um rapazinho com autismo me fez enxergar fora da caixinha. Será que eu estava surtando? O colega disse para eu ir na biblioteca do CBM que tinham muitos livros sobre musicoterapia. O que o colega não sabe é que o fabuloso Kenneth Bruscia já falava há tempos sobre a música sensorial:

“Os aspectos multissensoriais da música a tornam ideal para o uso terapêutico, especialmente se considerarmos as muitas incapacidades envolvidas nas deficiências sensoriais e motoras. Os musicoterapeuta estão continuamente atentos às modalidades sensoriais que necessitam receber maior input ou output, e às formas com que a música pode fornecer meios de estímulo ou resposta para consegui-lo. Habitualmente, as experiências ou atividades musicais são úteis para estimular e exercitar todos os sentidos, no entanto, com certos clientes, os aspectos auditivos da música devem ser enfatizados e, com outros, os canais motores, táteis ou visuais é que devem ser estimulados. (BRUSCIA, 1998, p. 109)”

Eu não escolhi o autismo. O autismo me escolheu, porque se não fosse por meu filho a música pra mim continuaria como performance/estética puramente. A musicoterapia é faz parte de um processo de inserção neste mundo singular.

Certa vez, escutei de um outro colega “tem gente que já estabeleceu um público-alvo e se limitou a esse, e não se permite experimentar outra coisa”. Em minha defesa respondi que de fato, orgulhosamente tenho meu publico definido por questões estritamente pessoais que foram para o campo profissional. Porque se aprofundar um tema especifico incomoda algumas pessoas? Porque se especializar em uma área é errado?

Bem, mudando o foco de mim para a musicoterapia e autismo, as informações sobre um Transtorno de espectro tão amplo sempre gerará diversas discussões.

Barcellos (2004) reflete a respeito de pesquisas e práticas clínicas com base em experiências empíricas:

 

Quando uma teoria não vem de uma experiência vivida, pode transforma-se em um mero exercício intelectual. Assim, é a experiência que temos tanto com a música como com a musicoterapia que se transformará na essência e no coração da musicoterapia. (BARCELLOS, 2004, p. 46)

 

Então, a minha sugestão para quem quer trabalhar ou pesquisar sobre autismo, vivenciem a experiência. Os olhinhos precisam brilhar! Autismo não é moda, é um caso sério que merece respeito.

Uma mãe me relatou uma desagradável experiência com a  mediadora escolar de  sua filha. Após um momento de desregulação da criança, que bateu na mediadora, a mesma em prantos disse que nunca havia passado por aquilo. Que outras crianças com autismo não eram agressivas. Oi? De onde saiu esta criatura? Mas a culpa não é totalmente dela. A mídia romantiza o autismo. Diversos profissionais da impressa me procuraram pedindo para indicar autistas bem sucedidos. Jesus! Eles não são a maioria! Genialidade é rara na humanidade! Quer viver esta experiência? Entenda que ela pode ser:

  • Frustrante, no sentido da criança não responder aos estímulos.
  • um dia você pode apanhar e isso não significa que ele não goste de você, mas que ele não está bem e não consegue controlar o que sente naquele momento.

Mas sabe o que é realmente empolgante?

  • quando seu trabalho de meses começa a dar resultados, mesmo que lentamente.
  • quando a criança cria uma conexão com você e, quer estar com você,  e brincar com você.
  • Contribuir para seu desenvolvimento cognitivo, linguagem, interação….

 

 

 

Neurodiversidade e Etnomusicologia do Autismo

No último dia 02 de abril realizei o Concerto azul, uma apresentação musical com meus pacientes que estão no Transtorno do espectro Autista. Respeitando seus limites e valorizando as potencialidades, fazem parte do olhar para a Neurodiversidade.

Cada música foi pensada neles e para eles. O mais importante não é a performance musical nos padrões e moldes acadêmicos, mas uma performance de auto expressão. Devemos ir além de ensinar música e sim participarmos da vida social e compreendermos o modo como esses indivíduos percebem a música e se expressão através dela, e garantir direito de igualdade e justiça social.

Devemos fazer música para fazer a diferença, e devemos fazê-lo com tanta paixão, comprometimento e convicção.

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Segundo Bakan (2014) compreender o autismo pela ótica da etnomusicologia pode esclarecer e fundamentar a expansão das potencialidades da pessoa com autismo. Uma vez que, este tipo de atitude promove respeito e amplia o relacionamento, estabelecendo uma conexão significativa. 

“Sugiro que fazer música e performance musical dentro de um contexto etnomusicologia aplicada pode ajudar a subverter, radicalizar e desmascarar uma série de mitos destrutivos e suposições sobre as pessoas autistas e experiência autista que têm metástase nos anais da investigação publicações médico-científicas sobre o autismo e expandiu-se a partir daí durante  sete décadas desde que o termo autismo foi introduzido pela primeira vez no formulário publicado no início dos anos 1940 por Leo Kanner (1943).” (BAKAN, 2014)

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Desenvolvimento da Apresentação do Concerto Azul

Para começar, o repertório foi pensado neles. Por exemplo:

  • Canção Bolinha de sabão do Palavra cantada

Todo o repertório foi trabalhado junto com os pais, pois sim, eles são parte fundamental neste processo. O recurso da percussão corporal foi utilizado neste recriação. Detalhe os movimentos desta percussão foram inspirados nas estereotipias de duas crianças que atendo.

Muitas pessoas com autismo apresentam comportamentos ritualísticos e estereotipias motoras e vocais. Greenspan e Wieder (2006) explicam que se a criança apresenta uma tendência ritualística fazendo sempre determinado som, podemos usar e abusar da criatividade criando uma canção com aquele som, ao invés de ignorá-lo. Berger (2002) acredita que a repetição rítmica conduz o cérebro ao sistema de atenção. A autora explica este fenômeno através de uma analogia aos soldados que marcham por longas distâncias repetindo frases rítmicas. O cérebro pode suportar esta repetição durante o tempo necessário para obter a mensagem.

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Benenzon (1985, p.146) também concorda que é possível aproveitar os próprios recursos de comunicação que a criança apresenta para criar um canal de comunicação com o mesmo, ou seja, imitação das expressões vocais da criança. Ele diz que o trabalho com objetos intermediários e a busca de sons que impactem o ego autista, é a chave para conexão. O autor explica que o uso de instrumental auxiliar é necessário para auxiliar a terapia musical, por exemplo: bolas, aros e cordas para que conduzam ao movimento e jogos musicais. Esses objetos podem ser infinitos para que sejam alcançados os objetivos esperados. Outra questão citada pelo autor é a respeito da percurssão corporal:

Suas mãos, golpeadas uma contra a outra ou sobre os joelhos; seus dedos: os movimentos de seu corpo inteiro, a marcha, o balanceio de um pé pelo outro e, a partir daí, passa-se de forma natural, ao som do bater palmas, das mãos golpeando o chão ou sobre a mesa. (…) O musicoterapeuta não deve temer que o aluno-paciente golpeie a si mesmo, ou que se machuque golpeando sobre um objeto qualquer. Muito pelo contrário, este é um meio de descarga de auto-agressividade e, além disso, permite organizar o movimento mostrando a possibilidade de golpear suavemente e não de maneira furiosa e automática. (BENENZON, 1985, p. 125 e 126)

 

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  • Canção Lava Uma Mão de Arnaldo Antunes

Esta canção foi escolhida pelo Rômulo, 17 anos. Ele queria tocá-la no violão. Ele só sabe um único acorde o A (lá maior). Mas, foi um momento de imensa felicidade para ele. Além disso, a maioria das crianças adoram esta música.

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Durante os ensaios, o pensamento concreto é tão interessante, rsrs. Quando disse que o evento se chamaria Concerto azul, ele comentou que o show precisava de um CONSERTO porque precisava melhorar. Se fizermos uma metáfora, pensemos que consertamos a forma de apresentar adaptadas as necessidades deles e respeitando seu modo de expressão.

  • Canção O Grilinho de Kitty Driemeyer

Brinco que meus pequeninos são grilinhos que saltam sem parar. Nesta canção utilizamos alguns recursos visuais e sonoros. O parachute, promovendo também movimento, interação…

Crianças não verbais realizando os efeitos sonoros na canção (pau de chuva e tambor trovador).

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Inicialmente, eu iria solar a canção, mas Breno, quando viu um microfone de bobeira, cantou junto comigo. O que não é planejado, e sim espontâneo tem como resultado uma rica experiência. Além disso, começou a falar com público mostrando-se um excelente comunicador. Orgulho de mãe.

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  • Brilha, brilha estrelinha nos sinos musicais.

Momento brilho de fato! Foi lindo! O trabalho com os sinos é interessante porque não exige tanto esforço motor, auxilia na concentração, planejamento motor, sequenciamento, entre outras habilidades.

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Contei com o auxílio das minhas super amigas terapeutas nesta tarefa:

Liliam Ameal (Musicoterapeuta e Educadora Musical)

Elaine Oliveira (fisioterapeuta)

Adriana Fernandes (Fonoaudióloga super fofa, linduda)

  • Amigos são, solo de Breno Willians, Violão com o Musicoterapeuta Bruno Reis.

Breno escolheu esta canção que tem um significado emocional muito importante pra ele: amizade. Arrasou, uhu! Filho de peixe, peixinho é. Tenho meu direito de babar pela cria, rsrsrs

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  • Em meu coração você vai sempre estar

Deixei para falar por último da primeira canção. Todos se emocionaram neste primeiro momento. A canção, desenvolvida para o filme  Tarzan, foi solada por mim e pelo cantor gospel Thiago Henrique. Não preciso descrever a emoção, as fotos falam por si.

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Música, arte e informação

Enquanto os pais assistiam as palestras, as crianças participaram de oficinas de arte.

Na mesa redonda, contamos com a participação :

  • Adriana Fernandes (Fonoaudiologa)
  • Drª Thelma Alvares (Musicoterapeuta e professora da UFRJ. Minha Orientadora querida)
  • Rosangela Koppe ( Psicóloga)
  • Drº Rafael Engel (neuropediatra)
  • André (advogado)
  • Zilmar Saraiva (assistente social)

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A oficina de artes comandada pela pedagoga Michele Morgane:

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Balanço sensorial.

Feito em lycra Expandex , medindo 1,50m x 1,70m, possue argolas e mosquetão.

O balanço Sensorial oferece uma experiência física para as crianças que gostam de balançar. Oferecendo a sensação de ausência de peso, sensação semelhante a segurança e conforto do útero materno. Cria desafios originais do planejamento motor, provocando um forte estímulo tátil, proprioceptivo e vestibular, organizando o paciente nos seus movimentos e consequentemente em seu estado de alerta e emocional.

Seu filho e seus pacientes vão passar horas pulando, girando, pendurado, navegando através do ar, ou apenas descansando dentro do Balanço.

De R$ 420,00 por R$ 320,00

http://www.musicautista.com.br

Divertida brincadeira africana Si ma ma Ka

Conheci esta brincadeira do folclore africano, Ghana, e me apaixonei logo de cara. A letra é fácil e está associada aos movimentos corporais. Na prática já realizei com crianças típicas (a diversão foi garantida) e crianças com autismo leve (muito bom também).

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Geralmente nas oficinas que ministro, ela se torna um momento musical extremamente prazeroso.

Si Ma ma Ka
Si Ma ma Ka/ Si Mama Ka
Ruka, ruka, ruka/ Si Ma ma Ka
Tembea, tembea, tembea/ Tembea, Tembea, Tembea
Ruka, ruka, ruka/ Si Ma ma Ka
Kimbia, kimbia, kimbia/ Kimbia, kimbia, kimbia
Ruka, ruka, ruka/ Si Ma ma Ka
A brincadeira consiste em fazer um movimento específico para cada uma das palavras, da seguinte maneira:
Si Ma ma = fica em pé, parado
Ka = abaixa, ou senta no chão
Ruka = pula no lugar
Tembea = anda em qualquer direção
Kimbia = corre em qualquer direção

Segue abaixo a partitura em PDF:

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E você pode assistir o vídeo da brincadeira musical em nosso canal do youtube, segue o link:

 

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