Reflexões sobre a neurodiversidade, inclusão e exclusão nos sistemas educacionais do séc. XXI: uma breve discussão sobre as adaptações curriculares na inclusão de alunos com autismo em escolas regulares

Reflexões sobre a neurodiversidade, inclusão e exclusão nos sistemas educacionais do séc. XXI: uma breve discussão sobre as adaptações curriculares na inclusão de alunos com autismo em escolas regulares

Michele Senra

 

RESUMO

Há muitas reflexões sobre como a inclusão no século XXI, e de como está sendo conduzida no Brasil e no mundo. As micropolíticas estimulam ou desestimulam os processos educacionais em geral? Faltam adaptações curriculares e quanto mais a idade chega pra eles, menos oportunidade de uma educação eficiente. A demanda de alunos com necessidades especiais tem sido cada vez mais crescente nas escolas regulares, as leis favorecem essa inserção, porém, há dúvidas quanto à aplicação das mesmas. A música é essencial para o desenvolvimento humano, independente da patologia, a pessoa com autismo é um ser com limitações, mas que faz parte de uma neurodiversidade que não pode ser ignorada. Compreender a diversidade que o sujeito carrega em si é necessário para adaptar as propostas pedagógicas musicais as necessidades do aluno a fim de proporcionar uma inclusão dentro do processo educativo e inserção em um grupo social. Este trabalho tem por objetivo refletir sobre os caminhos da inclusão, com base em minha experiência como mãe de um autista e como educadora musical.

Palavra-chave: Inclusão. Neurodiversidade. Autismo.

 

INTRODUÇÃO

A música está presente em todas as culturas, e como o som tem propriedades físicas sobre nosso corpo e sobre nosso cérebro, somos estimulados por ela, mesmo que involuntariamente. Gordon (2008) afirma que todas as crianças nascem com alguma aptidão musical. Porém a qualidade vai depender do meio em que ela está inserida. Oliver Sacks[1](1933-2015), Friedrich Nietzche[2](1844-1900), entre outros pesquisadores e pensadores dedicaram-se a discursão da temática das relações da música e do cérebro, tornando a música um agente de estimulação  na cognição, autorregulação emocional e motora. Independente de qualquer patologia, a musicalização é essencial para o desenvolvimento humano.  Muitas crianças com autismo possuem aptidões musicais, mas os entraves do desenvolvimento podem atrapalhar suas percepções, e dificultar o vínculo afetivo com o professor de música.

O autismo foi descoberto pelo psiquiatra infantil Leo Kanner (1894-1981) em 1943. Desde sua descoberta ainda não se sabe o que causa, e nem mesmo a cura. Porém, há uma movimentação por parte de cientistas do mundo inteiro na solução deste mistério, e está cada vez mais próximo de se comprovar através da genética e defeitos neurais[3].

Em contrapartida pela busca incessante da cura do autismo, um grupo de ativista com Síndrome de Asperger (uma forma mais branda da síndrome de autismo) como Judy Singer[4] (s/d), Temple Grandin[5] (1947-) e Donna Willians[6] (1963-) levantam a bandeira da Neurodiversidade. Este movimento contrapõe a ideia de que o autismo é uma doença, e sim uma maneira diferente de ser.

Desafios da inclusão nos sistemas educacionais no século XXI

Embora os sistemas educacionais no Brasil terem o compromisso com a Declaração de Salamanca em seu sistema de inclusão (BRASIL, 1994), e a Lei Nº 10.172/2001 que aprova o Plano Nacional de Educação e a Constituição Federal que determina o direito da pessoa com necessidades especiais de serem inseridas em classes regulares: “O princípio que orienta esta Estrutura é o de que as escolas deveriam acomodar todas as crianças independente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras”(BRASIL, 1994, p.3). Apesar disso, há pouca literatura nos Anais dos Congressos como ABEM e SICAM, disponíveis que seja direcionada ao ensino de música para crianças com necessidades especiais, incluindo autismo. Cada vez mais as escolas estão recebendo alunos autistas, porém poucos profissionais estão preparados para atender esta demanda. A inclusão não se trata somente de ensinar de forma eficaz, mas sim de atitude do querer fazer, de compreender a complexidade humana e aceitar a diversidade. O uso da música na escola pode auxiliar o aluno especial em sua percepção à socialização e despertar o interesse pelo conteúdo escolar.

Existe um movimento crescente denominado neurodiversidade organizado por indivíduos com síndrome de asperger, como Temple Grandin, Judy Singer, entre outros, que dizem que o autismo não é uma doença e sim uma maneira diferente de ser (ORTEGA, 2008). Essa postura vem a eliminar as ideias pré-concebidas de psicanalistas nos anos 50 que acusaram as mães pelo autismo de seus filhos, chamando-as de mães geladeira. Segundo Ortega (2008) outro ponto defendido pelo movimento da neurodiversidade no autismo é a rejeição a terapias como o ABA (Análise Comportamental Aplicada), pois este método visa o progresso da criança, porém tira sua capacidade de expressão natural. No entanto, este movimento contrapõe com os anseios dos pais, e com a realidade dos indivíduos com autismo, onde são mais comprometidos e tem menos independência que os indivíduos de alto funcionamento.  Para o autor é uma forma de negar o reconhecimento da identidade do sujeito.

Segundo McDowell (2010) desde o inicio da história da educação musical nos Estados Unidos a música é parte fundamental no currículo escolar, incluindo pessoas com deficiência. Entre as atividades desenvolvidas para alunos com surdos ou cegueira, incluía o canto, bater palmas, tocar instrumentos de percussão, e outros instrumentos mais simples como os sinos. Para os alunos com deficiência intelectual, eram realizados canto e ritmo. Essas atividades musicais tinham o objetivo de integrá-los na comunidade. Vivemos em um período onde há um número substancial de matrículas de alunos especiais em classes regulares, conforme as leis de diretrizes educacionais, no que se refere à inclusão, o que fará com que cada vez mais os professores de música tenham que adaptar suas práticas pedagógicas a realidade do “novo aluno”. Apesar disso, a autora detalha em sua pesquisa que poucos profissionais em seu país estão capacitados para atender esta clientela. No Brasil não é muito diferente desta realidade.

A demanda de pessoas com deficiências incluídas nas escolas é crescente, e por isso professores de música precisam adquirir técnicas de ensino especiais, ou pelo menos entender sua forma de aprendizagem, para atingirem seus objetivos de musicalização. A música é um processo multissensorial que envolve o ouvir, o movimento, sentimento, e para isso, no currículo deve incluir o desenvolvimento das percepções psicomotoras e sensoriais.

Ao falar sobre o ensino de música para pessoas com necessidades especiais, não podemos nos esquecer de educadores precursores que dedicaram seus esforços em aceitar essa diversidade mesmo antes das leis de inclusão. Liddy Chiaffareli Mignone (1891-1962) contribuiu consideravelmente para a educação musical, e seu trabalho foi motivo de inspiração para a entrada da musicoterapia em nosso país. O que tornou seu trabalho marcante foi a preocupação com o aluno enquanto ser humano e não como número. Além dos cursos de especialização para professores de iniciação musical no Conservatório Brasileiro de Música (CBM), Mignone expandiu seus estudos e ensino a pessoas com deficiência. Abrindo assim a oportunidade dos excluídos na inclusão musical. Atuou e treinou profissionais para praticarem a musicalização adaptada nas APAES, Sociedade Pestalozzi, Hospital Jesus, Hospital Neuro-psiquiátrico do Engenho de Dentro, sanatório de Curicica, Instituto Benjamin Constant, entre outros. Deixou um imenso legado para a educação musical infantil no Brasil. Para ela a música para a criança deveria ser como um brinquedo valioso, um amigo inseparável (PAZ, 2000).

Além disso, Mignone e Fernandez (1947)  sentiam que o professor de educação musical  tinha que ter o conhecimento e preparo de outras ciências, como a pedagogia e a psicologia para facilitar o ensino das crianças.

Sobre a iniciação musical, Mignone e Fernandez explicam:

A Iniciação Musical visa não somente a acentuar as aptidões inatas das crianças, como também despertar o interesse musical, nas menos dotadas pela natureza, por meio de jogos e exercícios divertidos e variados.

A aproveitar atividade da criança para movimenta-la em ritmos seguros, fixando-lhe o ‘senso rítmico’, pois é nele, que se baseia toda a educação musical.

A apurar-lhe o ouvido até conseguir a justa percepção da altura dos sons e a diferenciação das tonalidades maiores e menores.

A desenvolver-lhe a memória auditiva e estimular-lhe a imaginação na criação de pequenas melodias, etc. (MIGNONE, FERNANDEZ, 1947, p. 5)

o que diz respeito à educação musical, a ideia não é o abandono das técnicas musicais, mas sim adaptações das mesmas para a realidade do aluno. Esta prática é importante para a internalização dos elementos musicais, porém algumas crianças com transtorno ou desordem do processamento sensorial, poderão apresentar dificuldades no desenvolvimento musical. Compreender estas dificuldades poderá contribuir para o ensino e desenvolvimento cognitivo, afetivo, coordenação motora, auditivo, linguagem e visual, que será de extrema importância para todo o currículo escolar em que ela estiver inserida. “O que realmente merece atenção maior é a forma como essas pessoas se constituíram como sujeitos, e que habilidades e dificuldades especificamente as impedem de aprender e se desenvolver socialmente” (SCHMIDT, 2012, p.183)

McDowell (2010) sugere aos professores de música que venham a realizar adaptações para atender seus alunos, devem compreender algumas estratégias comportamentais, curriculares, ambientais, motivacionais e organizacionais. Apesar de concordar com a autora, existem outras estratégias que não podem ser ignoradas, como estratégias para ajudar no processamento sensorial e motor. “Ao adulto caberá compreender em que medida a música constitui uma possibilidade expressiva privilegiada para a criança, uma vez que atinge diretamente sua sensibilidade afetiva e sensorial” (JEANDOT, 1993, p.20).

Conclusão

A música é parte integrante do comportamento humano. É através dela que nos expressamos e nos conectamos com o outro afetivamente. A música redireciona nossas tensões e organiza nossos comportamentos. O professor de música pode adaptar o planejamento de aula, com base nas necessidades individuais de seus alunos, e compreendendo suas limitações. Esse olhar para a neurodiversidade é importante para que o educador musical possa ajudar a criança a ser inserida e aceita em um contexto social.

Olhando para o passado, nos deparamos com Liddy Mignone, que a frente de seu tempo, uniu a pedagogia musical aos conceitos da psicologia para facilitar o aprendizado do aluno. Enxergar as possibilidades e não olhar para as limitações como obstáculo. Proporcionar o acesso ao ensino.

Acredito que todos os alunos merecem a oportunidade de vivenciar uma experiência musical. Aprender sobre música, explorar todas as possibilidades que ela nos proporciona. Essa experiência só poderá ser possível se houver uma formação adequada e uma disposição pessoal de adaptar-se ao aluno. Devemos olhar para nossos alunos com humanidade e desejo árduo de ajuda-los em seus desafios, afetividade, relacionamentos, criar conexões.

Devemos nos comprometer com a qualidade de ensino desses alunos. Infelizmente, as leis existem, mas não há poucos esforços governamentais na capacitação desses profissionais, muito menos o incentivo a pesquisas que possam ter efeitos impactantes na musicalização dessas crianças.

 

REFERENCIAS

BRASIL. Constituição Federal, de 05.10.88. Atualizada com as Emendas Constitucionais Promulgadas.

_______. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. Lei 7853/89.

_______. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. Lei 10098/00.

_______. Declaração de Salamanca e Linha de ação sobre necessidades educativas especiais. Coordenadoria nacional para a integração da pessoa portadora de deficiência. Brasília, DF, 1994.

_______. Política Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. Decreto 3298/99.

_______. Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional – Lei nº 9394/96. Brasília, 20 dez. 1998.

_______. Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional. Lei n° 11.769/2008.

DALBEN, Ângela I. L. de Freitas. A educação musical na atual organização do trabalho escolar. In: Cadernos de Estudo. São Paulo: Através, fev./ago., 1991.

GORDON, Edwin E. Teoria de aprendizagem musical para recém-nascidos e crianças em idade pré-escolar. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2008, 3ª ed.

JEANDOT, Nicole. Explorando o universo da música. 2. ed. São Paulo: 1993. (Série Pensamento e Ação no Magistério).

KANNER, Leo. Autistic disturbances of affective contact, na revista Nervous Children, número 2, páginas 217-250. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Autismo>. Acessado em: 14 de out. 2014.

MCDOWELL, Carol. (2010). An Adaptation Tool Kit for Teaching Music. TEACHING Exceptional Children Plus, 6(3) Article 3. Disponível em: <http://escholarship.bc.edu/education/tecplus/vol6/iss3/art3>. Acesso em 24 de set.2015.

MIGNONE, Liddy Chiaffarelli, FERNANDEZ, Marina Lorenzo. Iniciação Musical: Treinos de Ouvido, Ritmo e Leitura. Rio de Janeiro: Edições Tupy, 1947.

ORTEGA, Francisco. Sujeito Cerebral e o movimento da neurodiversidade. Mana vol.14 no.2 Rio de Janeiro, 2008.

SCHMIDT, Carlo. Temple Grandin e o autismo: uma análise do filme. Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v.18, n.2, p. 179-194, Abr.-Jun., 2012

PAZ, Ermelinda A. Pedagogia Musical Brasileira no Século XX. Metodologias e Tendências. Brasília. Musimed. 2000.

[1] Neurologista anglo-americano, autor de livros sobre estudos de casos sobre a relação da música com o cérebro,  como: Alucinações Musicais: Relatos sobre música e cérebro, 2007.

[2] Filósofo, poeta e compositor alemão do século XIX.

[3] O cientista Brasileiro Alysson Muoutri está realizando uma importante pesquisa para criar um medicamento para a cura dos genes autistas.

[4] Socióloga Austríaca com síndrome de Asperger, que cunhou o termo Neurodiversidade. Uma das principais ativistas do movimento desde 1999, promovendo o Autist Pride Day (Dia do Orgulho Autista – 18 de Junho).

[5] A americana  Temple Grandin é uma das portadores de síndrome de Asperger, mais conhecida no mundo inteiro. Tendo sua vida retrada em um filme exibido pela HBO, interpretado pela atriz americana Clare Daines, cujo filme biográfico foi vencedor de 3 premiações do Emmys. Temple é Bacharel em Psicologia, e mestrado e doutorado em Zootecnia.

[6] Donna Willians, síndrome de Asperger, nascida na Austrália, tornou-se escritora, artista, cantora e compositora.

066 067

Artigo apresentado no II Encontro de Educadores Musicais do Colégio Pedro II – Novembro de 2015

 

Posted on Novembro 21, 2015, in Meus artigos and tagged , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: