A Relação da música com o processamento sensorial – partes 4 à 8/23

Greenspan e Wieder (2006, p. 15) explicam que crianças autistas que estão alheias ao seu redor, ficam esquivas e se mantêm distantes das pessoas, em nada tem haver com a falta de amor e sim por um bombardeio de estímulos sensoriais. A atenção é um processo dinâmico que envolve muitas partes do sistema nervoso  ao mesmo tempo. Essas bases biológicas nas funções motoras e sensoriais alteram a capacidade de uma criança se autorregular e ter interesse pelo mundo. E que precisamos olhar para a modulação sensorial de cada um para conseguirmos estabelecer um relacionamento com eles. Nascimento e Ikuta exemplificam que:

A estimulação sensorial é essencial para a percepção do mundo. A música se constitui em importante objeto de estimulação sensorial porque ocorre simultaneamente no tempo e no espaço, proporcionando a vivência desses elementos musicais em diferentes velocidades, alturas e durações. (NASCIMENTO, IKUTA, CARVALHO, 2009, pág.121)

O sistema Vestibular, embora não faça parte dos cinco sentidos, é um sistema fundamental para o “desempenho motor antigravitacional” (MOMO, SILVESTRE e GRACIANI, 2012, p. 9). Significa que, em função deste sistema, o Sistema Nervoso Central relaciona a ação e controle de nossos movimentos como, cabeça, olhos e corpo.

 

O estímulo vestibular com ritmo musical pode estimular a fala e o canto de crianças com autismo. Grandin (1991) é uma das autistas mais conhecidas no mundo. Apesar das dificuldades que encontrou ao longo de sua vida, conseguiu se estabelecer profissionalmente como cientista. Ela concorda que os estímulos de balanço podem proporcionar a aquisição de linguagem. Mas que coordenar muitos movimentos ao mesmo tempo limitou-a no aprendizado de um instrumento musical, porém isso não foi um impeditivo para o canto com afinação. Ela relata que quando criança tinha muitas dificuldades para se comunicar, mas que cantar sempre foi mais fácil. Outro desafio relatado é com relação ao ritmo, como por exemplo, sincronizar palmas e ritmos. Ela sugere que os problemas rítmicos podem estar relacionados com os problemas de fala. Os bebês típicos movem-se em sincronia com a fala dos pais, o que não ocorre em bebês com autismo. Sobre este tema, Bang explica:

 

O ritmo da fala é um movimento rítmico dos órgãos da fala, tais como respiração, a voz e os movimentos articulatórios da boca, em conjunto com os sons provenientes da laringe. Nós ouvimos os movimentos da fala, e dessa maneira, a audição é um processo sensório motor.

O exercício da música e do movimento treinam as funções sensório-motoras auditivas e vibratórias e a memória de tais sequências e sua utilização. As atividades musicais, portanto, treinam indiretamente as funções básicas da fala e da linguagem. BANG, 1991, p. 25)

Para Berger (2002, p.108), quando a pessoa apresenta uma desordem no processamento multissensorial altera os aspectos de coordenação auditivos e motores. Ela explica que o mesmo ritmo que estimula os músculos a reagirem com movimento, se a criança apresenta dificuldade no processamento do som e planejamento motor, isso irá interferir no modo como a criança reagirá fisiologicamente sobre o som e o movimento. Pois, o processamento em conjunto do sistema vestibular e proprioceptivo, tátil, auditivo e visual, não estão organizados e integrados em um mesmo nível. Para tocar um instrumento musical existem um envolvimento de entrada multissensorial, que inclui o feedback do planejamento motor, proprioceptivo e tátil. A ação de bater em um tambor, por exemplo, “envolve movimentos bilaterais do braço, o cotovelo fica flexionado, as mãos se ocupam com as baquetas, movimentando-se ritmicamente para cima e para baixo” (BERGER, 2002, p.108) , acompanhando o pulso. Crianças com esses déficits não têm controle motor e percepção de pulsação e andamento.

 

Penso que autistas que possuem dificuldades para registrar os estímulos sensoriais, além da desatenção já mencionada, estão em busca de sensações e tentam criar um ambiente próprio com seus balbucios vogais e movimentos, como de um pêndulo, movendo-se  de um lado e para o outro sem parar.

Contudo, Berger (2002, p. 46) diz que os elementos musicais, quando aplicados de forma correta para atender a objetivos específicos, contribuem com informações relevantes para o sistema límbico, que traz para o sistema fisiológico a sensação e ajustes de conforto necessários. A música atua como um agente que acalma e dissipam as entradas sensoriais que causam medo. É como se o som fosse um cobertor que envolve o corpo trazendo conforto e segurança. Uma vez que o cérebro humano registra informação auditiva, como forma de tratamento do ambiente, consegue sequenciar os sons ligados a ritmo. O cérebro vai controlando os sons que estão presentes, e antecipar o próximo som.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em Música

 Terapeuta DIR/Floortime

 

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A Relação da Música com o processamento sensorial – parte 3/23

Por Michele Senra

Nosso cérebro nos informa acerca do mundo externo a partir dos sistemas sensoriais. Berger[1] (2002, p. 23) fala que o cérebro só decodifica e interpreta o que é recebido, e que está equipado para interpretar. Mas que ele não consegue identificar o que não tem. Um exemplo é de pessoas recém-mutiladas que ainda sentem dores em membros já não existentes. Ainda segundo a autora, o cérebro humano não pode decodificar os extremos sons altos que qualquer cão pode ouvir. Isso porque nosso (cérebro não sabe que essas frequências existem mesmo), porque o sentido da audição não detecta e nem transmiti a conversão de impulsos elétricos.

A autora ainda afirma que o cérebro humano, registra a informação auditiva e imediatamente sintoniza sequências de sons ligados e ritmo. Ele controla os sons que permanecem sintonizados ao som ainda presente, antecipando o próximo som. Neste caso, uma criança com autismo se sentirá emocionalmente bem. Isto por que a música induz a liberação de dopamina e outros relaxantes do sistema, reduzindo a resposta de luta ou fuga por acalmar o sistema para baixo o suficiente para permitir a modulação eficiente.  Em virtude das afirmações dos autores citados neste capítulo, penso que a criança não deve ser vista com uma função isolada, porque todos os sistemas estão interligados.

[1] Dorita Berger é musicoterapeuta, pianista e educadora.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em Música

Referências:

SENRA, Michele de S;, ALVARES, Thelma S. A Relação da Música com o processamento sensorial:  a musicoterapia e sua atuação no tratamento de autistas no contexto do modelo DIR/Floortime. XV Simposio Brasileiro de Musicoterapia. XV Encontro Nacional de de Pesquisa em Musicoterapia. Rio de Janeiro, 2015.

A Relação da música com o processamento sensorial – parte 2/23

Por Michele Senra

Segundo Greenspan e Wieder (2006, p.17) por causa das diferenças inatas no processamento sensorial, a experiência emocional de um estímulo irá variar de uma criança para outra. O mesmo som, por exemplo, uma voz mais aguda, pode ser interpretada como agradável e reconfortante para um e extremamente irritante para outro. Uma carícia pode apreciada por uma criança, quando para outra pode ser extremamente dolorosa. Cada pessoa, ao longo do tempo cria um “catálogo” de experiência sensorial e emocional. A deficiência sensório-motora pode afetar profundamente a experiência do indivíduo de se relacionar com o outro.

            Os autores também exemplificam que crianças com hiposensibilidade ao toque ou som apresentam comportamento agitado e uma busca sensorial e de sensações constantemente. Por conta disso, elas podem mostra-se agressivas em determinados ambientes, com incapacidade de organização, envolvimento, co-regulação e emocional. Ambientes com muitos ruídos ou com muitas pessoas em volta podem sobrecarregar a criança com hipersensibilidade[1] e alterar seu comportamento.

[1] Hipersensibilidade – o limiar de sensibilidade é alto. Ex: Não suportar ser tocado.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em música

 

Referências

SENRA, Michele de S;, ALVARES, Thelma S. A Relação da Música com o processamento sensorial:  a musicoterapia e sua atuação no tratamento de autistas no contexto do modelo DIR/Floortime. XV Simposio Brasileiro de Musicoterapia. XV Encontro Nacional de de Pesquisa em Musicoterapia. Rio de Janeiro, 2015.

A Relação da Música com o processamento sensorial – parte 1/23

Por Michele Senra

A música fornece estimulação concreta e multissensorial (auditiva, visual, vestibular, propriocepção e tátil). As interações entre os sistemas sensoriais e como o cérebro captam essas informações, podem atrapalhar as percepções musicais de uma criança com atraso no desenvolvimento, por exemplo, e o estímulo sensorial com a música pode beneficiá-las. Além disso, a música atua diretamente nas emoções, e estabelecer um vínculo afetivo e emocional é importante no processo de reabilitação.

Você sabe a diferença entre musicoterapia e educação musical?

A Federação Mundial de Musicoterapia (1996) definiu a profissão como:

(…) a utilização da música e/ou seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) por um musicoterapeuta qualificado, com um cliente ou grupo, num processo para facilitar e promover a comunicação, relação, aprendizagem, mobilização, expressão, organização, e outros objetivos terapêuticos, no sentido de alcançar necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas. A musicoterapia objetiva desenvolver potenciais e/ou restabelecer funções do indivíduo para que ele/ela possa alcançar uma melhor integração intra e/ou interpessoal e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida pela prevenção, reabilitação ou tratamento. (FEDERAÇÃO MUNDIAL DE MUSICOTERAPIA, 1996)

A Educação Musical tem um objetivo específico com fins pedagógicos, no ensino estruturado de instrumentos, leitura rítmica, etc.

Existem delimitações claras entre a musicoterapia e a educação musical. O que distingui as áreas são seus objetivos que definem seu papel empírico (PASSARINI, AOKI, PREARO e ANDRADE, 2012). Porém os autores ressaltam que o entrelaçamento dos conteúdos propostos pela educação musical também norteiam os princípios da musicoterapia. A proposta é de refletir sobre a interdisciplinaridade da musicoterapia em estimular a singularidade da criança e explorar suas capacidades criativas e exploratórias da música para uma auto expressão emocional de seus conteúdos internos. Para Bang (1991, p. 21) “Em muitos casos, a musicoterapia vem a ser o único meio viável de se obter resultados terapêuticos e pedagógicos”.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em Música

Música é um processo multissensorial

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A música é um processo multissensorial. Desde que iniciei minha práxis com a música e autismo, compreendi a importância da “Musicoterapia Sensorial” no estímulo de pessoas com autismo. Inicialmente, um colega de profissão achou que eu estava louca. Disse que a visão dele era da saúde mental e que meus questionamentos não condiziam com a realidade. Ser mãe de um rapazinho com autismo me fez enxergar fora da caixinha. Será que eu estava surtando? O colega disse para eu ir na biblioteca do CBM que tinham muitos livros sobre musicoterapia. O que o colega não sabe é que o fabuloso Kenneth Bruscia já falava há tempos sobre a música sensorial:

“Os aspectos multissensoriais da música a tornam ideal para o uso terapêutico, especialmente se considerarmos as muitas incapacidades envolvidas nas deficiências sensoriais e motoras. Os musicoterapeuta estão continuamente atentos às modalidades sensoriais que necessitam receber maior input ou output, e às formas com que a música pode fornecer meios de estímulo ou resposta para consegui-lo. Habitualmente, as experiências ou atividades musicais são úteis para estimular e exercitar todos os sentidos, no entanto, com certos clientes, os aspectos auditivos da música devem ser enfatizados e, com outros, os canais motores, táteis ou visuais é que devem ser estimulados. (BRUSCIA, 1998, p. 109)”

Eu não escolhi o autismo. O autismo me escolheu, porque se não fosse por meu filho a música pra mim continuaria como performance/estética puramente. A musicoterapia é faz parte de um processo de inserção neste mundo singular.

Certa vez, escutei de um outro colega “tem gente que já estabeleceu um público-alvo e se limitou a esse, e não se permite experimentar outra coisa”. Em minha defesa respondi que de fato, orgulhosamente tenho meu publico definido por questões estritamente pessoais que foram para o campo profissional. Porque se aprofundar um tema especifico incomoda algumas pessoas? Porque se especializar em uma área é errado?

Bem, mudando o foco de mim para a musicoterapia e autismo, as informações sobre um Transtorno de espectro tão amplo sempre gerará diversas discussões.

Barcellos (2004) reflete a respeito de pesquisas e práticas clínicas com base em experiências empíricas:

 

Quando uma teoria não vem de uma experiência vivida, pode transforma-se em um mero exercício intelectual. Assim, é a experiência que temos tanto com a música como com a musicoterapia que se transformará na essência e no coração da musicoterapia. (BARCELLOS, 2004, p. 46)

 

Então, a minha sugestão para quem quer trabalhar ou pesquisar sobre autismo, vivenciem a experiência. Os olhinhos precisam brilhar! Autismo não é moda, é um caso sério que merece respeito.

Uma mãe me relatou uma desagradável experiência com a  mediadora escolar de  sua filha. Após um momento de desregulação da criança, que bateu na mediadora, a mesma em prantos disse que nunca havia passado por aquilo. Que outras crianças com autismo não eram agressivas. Oi? De onde saiu esta criatura? Mas a culpa não é totalmente dela. A mídia romantiza o autismo. Diversos profissionais da impressa me procuraram pedindo para indicar autistas bem sucedidos. Jesus! Eles não são a maioria! Genialidade é rara na humanidade! Quer viver esta experiência? Entenda que ela pode ser:

  • Frustrante, no sentido da criança não responder aos estímulos.
  • um dia você pode apanhar e isso não significa que ele não goste de você, mas que ele não está bem e não consegue controlar o que sente naquele momento.

Mas sabe o que é realmente empolgante?

  • quando seu trabalho de meses começa a dar resultados, mesmo que lentamente.
  • quando a criança cria uma conexão com você e, quer estar com você,  e brincar com você.
  • Contribuir para seu desenvolvimento cognitivo, linguagem, interação….