A Relação da Música com o Processamento sensorial – partes

O estímulo vestibular com ritmo musical pode estimular a fala e o canto de crianças com autismo. Grandin (1991) é uma das autistas mais conhecidas no mundo. Apesar das dificuldades que encontrou ao longo de sua vida, conseguiu se estabelecer profissionalmente como cientista. Ela concorda que os estímulos de balanço podem proporcionar a aquisição de linguagem. Mas que coordenar muitos movimentos ao mesmo tempo limitou-a no aprendizado de um instrumento musical, porém isso não foi um impeditivo para o canto com afinação. Ela relata que quando criança tinha muitas dificuldades para se comunicar, mas que cantar sempre foi mais fácil. Outro desafio relatado é com relação ao ritmo, como por exemplo, sincronizar palmas e ritmos. Ela sugere que os problemas rítmicos podem estar relacionados com os problemas de fala. Os bebês típicos movem-se em sincronia com a fala dos pais, o que não ocorre em bebês com autismo. Sobre este tema, Bang explica:

O ritmo da fala é um movimento rítmico dos órgãos da fala, tais como respiração, a voz e os movimentos articulatórios da boca, em conjunto com os sons provenientes da laringe. Nós ouvimos os movimentos da fala, e dessa maneira, a audição é um processo sensório motor.

O exercício da música e do movimento treinam as funções sensório-motoras auditivas e vibratórias e a memória de tais sequências e sua utilização. As atividades musicais, portanto, treinam indiretamente as funções básicas da fala e da linguagem. BANG, 1991, p. 25)

O ritmo está presente em toda parte. O ritmo é fisiológico. Nossos órgãos internos funcionam ritmicamente para o funcionamento perfeito de nossa sobrevivência. O bebê acompanha desde o útero materno o ritmo pulsante do coração de sua mãe, e ao nascer, quando colocado no peito de sua mãe, se autorregula com os sons do batimento cardíaco. O universo é regido pelo ritmo pulsante de luzes e frequência dos sons para a órbita dos planetas (BERGER, 2002, p.112).  Cirigliano (2015) contextualiza a respeito desta relação musical do ser humano que advém da vida uterina até a morte:

 

A música todo o ser humano, do nascimento à morte. Os batimentos cardíacos e outros sons internos de uma gestante constituem a primeira marca musical do ser humano. Percebida desde o útero materno, por via óssea, nas vibrações, e auditivamente, estas sonoridades imprimem os primeiros indícios de uma identidade musical que vai se sofisticando após o nascimento. Vale dizer que, para o musicoterapeuta, o choro do bebê também é música. (CIRIGLIANO, 2015, p.7)

 

 

 

 

 

 

 

 

A estimulação auditiva e motora pode ser muito útil para o alinhamento da pulsação rítmica do corpo. Internalizar o ritmo com o corpo é um processo importante na integração dos sistemas. Ainda na opinião de Berger (2002) o regulamento rítmico dos processos internos, pulso, batimento cardíaco, respiração e etc., incluem a cognição e a linguagem, o que influencia o ritmo em relação à entrada rítmica externa. Crianças que conseguem internalizar o ritmo desenvolvem-se melhor no comportamento. E claro, com o corpo organizado ritmicamente as respostas fisiológicas são mais gerenciáveis. Desenvolver funcionalmente o planejamento motor auxilia na internalização rítmica e pulso (BERGER, 2002, p.114).

O corpo precisa sentir o movimento para que nosso cérebro consiga compreender. Quando a criança recebe um estímulo vestibular num balanço, ou trampolim, ou numa bola terapêutica, cantando uma música, marcando ritmo, estas ações resultarão na compreensão de seu cérebro na internalização rítmica e da entoação. Ikuta explica que:

A neurociência tem demonstrado que o estímulo auditivo rítmico pode melhorar ou promover respostas motoras e, ainda mais diretamente, estimular o movimento. O ritmo pode ser mais bem descrito como um “temporizador” sensorial que utiliza conexões, fisiologicamente, muito sensíveis entre o sistema auditivo e o motor no cérebro para influenciar o controle temporal do movimento. (IKUTA, 2009, p. 99)

 

O atributo rítmico, denominado pulso é o cronometrista, o marcapasso da música. O andamento do pulso, ou seja, se é rápido ou devagar, é importante na abordagem de problemas de desenvolvimento de linguagem. A aplicação do pulso ritmico podem alcançar bons resultados para a estimulação da fala. “Quando as sílabas são discriminadas em seus padrões rítmicos, as palavras tornam-se mais simples de ouvir, repetir e lembrar” (BERGER, 2002, p.115).

Berger (2002)  chama a atenção para os padrões rítmicos, pois o cérebro adora padrões. Eles preenchem as lacunas e mantém o cérebro em alerta sobre as constantes mudanças de informação musical. Enquanto o pulso permanece constante, o padrão por sua vez é livre para mudar, com paradas, sendo rápido e lento, e quando combinados adicionam uma dimensão profunda e constante num pulso simples. Berger (2002, p.116) acredita que na linguagem a presença do padrão é evidente, pois cada palavra quando divididas em ritmo silábico exibe um padrão. Assim, o padrão rítmico é um dos elementos principais para o aprendizado da língua falada. Por exemplo, se cantar ou falar uma palavra dividida em sílabas com ritmos padronizados, obtém-se a atenção e motivação necessária para imitar a palavra. Este exercício contribui para o desenvolvimento de linguagem de crianças não verbais.

Por esta razão, aprender um vocabulário de forma cantada contribui para a memorização mais eficiente das letras, e até mesmo de língua estrangeira. Para aprendermos uma língua estrangeira assimilação do idioma se dá pela padronização rítmica e tonal das palavras e frases. Quando alguém fala muito rápido, nosso cérebro tem dificuldade de rastrear e reter cada informação de forma padronizada. Informações muito rápidas são mais difíceis de serem compreendidas, principalmente por crianças que apresentam deficiências sensoriais e dificuldades de aprendizagem (SENRA, 2015).

Quando as informações são realizadas através de um padrão e pulsação rítmica, o cérebro não as percebe como algo ameaçador. Uma vez que essa informação está estruturada e organizada dentro do ritmo com padrões de afinação, o cérebro vai processando cada dado de forma aleatória expandindo o medo, e permitindo uma abertura de passagens para os canais cognitivos (BERGER, 2002, p.117).

 

A velocidade do pulso determina como a música irá provocar reações sensoriais, fisiológicas e emocionais. Assim como músicas rápidas nos impulsionam em uma energia alegre ou tensa, a música mais lenta pode nos relaxar, e fornecer informações importantes para o processamento cognitivo. As músicas rápidas animam o sistema e tem como objetivo acelerar as respostas do planejamento motor para a execução de tarefas e baixo tônus muscular. “É um aspecto que, quando usado conscientemente por razões específicas, podem alterar as respostas físicas e emocionais” (BERGER, 2002. P.119).

Texto por MICHELE SENRA

MUSICOTERAPEUTA E MESTRANDA EM MÚSICA PELA UFRJ

Posted on Setembro 15, 2016, in Dicas para os pais, Dicas para profissionais, Música e integração sensorial and tagged , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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