A relação da música com o processamento sensorial – parte final

Enfim, chegamos ao final da série de vídeos sobre a Relação da música com o processamento sensorial.

Muitas pessoas com autismo apresentam comportamentos ritualísticos e estereotipias motoras e vocais. Greenspan e Wieder (2006) explicam que se a criança apresenta uma tendência ritualística fazendo sempre determinado som, podemos usar e abusar da criatividade criando uma canção com aquele som, ao invés de ignorá-lo. A incorporação das vocalizações, do cliente, em improvisação musical é uma prática muito comum em Musicoterapia. Berger (2002) acredita que a repetição rítmica conduz o cérebro ao sistema de atenção. A autora explica este fenômeno através de uma analogia aos soldados que marcham por longas distâncias repetindo frases rítmicas. O cérebro pode suportar esta repetição durante o tempo necessário para obter a mensagem.

Benenzon (1985, p.146) também concorda que é possível aproveitar os próprios recursos de comunicação que a criança apresenta, para criar um canal de comunicação com a mesma, ou seja, imitação das expressões vocais da criança. Para Benezon (1985)  o trabalho com objetos intermediários e a busca de sons que impactem o ego autista, é a chave para conexão. O autor explica que o uso de instrumental é necessário para auxiliar a terapia musical, por exemplo: bolas, aros e cordas para que conduzam ao movimento e jogos musicais. Esses objetos podem ser infinitos para que sejam alcançados os objetivos esperados. Outra questão citada pelo autor é a respeito da percussão corporal:

Suas mãos, golpeadas uma contra a outra ou sobre os joelhos; seus dedos: os movimentos de seu corpo inteiro, a marcha, o balanceio de um pé pelo outro e, a partir daí, passa-se de forma natural, ao som do bater palmas, das mãos golpeando o chão ou sobre a mesa. (…) O musicoterapeuta não deve temer que o aluno-paciente golpeie a si mesmo, ou que se machuque golpeando sobre um objeto qualquer. Muito pelo contrário, este é um meio de descarga de auto-agressividade e, além disso, permite organizar o movimento mostrando a possibilidade de golpear suavemente e não de maneira furiosa e automática. (BENENZON, 1985, p. 125 e 126)

Mesmo que não se tenha noção de uma determinada língua estrangeira, conseguimos intuir as emoções pela expressão e entonação da palavra. No caso de crianças com autismo essa prosódia pode ser pobre em variedade tonal. As emissões vocais não tem nenhum valor emocional aparentemente, mas percebi na prática que quando imito essas vocalizações enfatizando expressão e emoção, mudanças de tom, a criança consegue repetir e criar  outra frase melódica. Os tons ligados horizontalmente são semelhantes à prosódia (inflexão) em um discurso. Para isso não há a necessidade de um processamento cognitivo. Por exemplo, um bebê começa a compreender a palavra “Não” por inflexão do registro vocal como expressão negativa, antes mesmo da compreensão por processos cognitivos. Neste mesmo contexto, Berger (2002) conclui que:

Melodias que imitam as inflexões da fala prosódicas tendem a evocar respostas emocionais semelhantes aos evocados pela comunicação falada. Melodias irregulares (como, de alguma música moderna) pode criar uma inquietação no cérebro, que geralmente prefere padrões ordenados. Tons em staccato muitas vezes, induzem uma espécie de risada e alegria. Rir é uma chamada humana altamente contagiosa, em geral com um nível de coesão para um grupo. (BERGER, 2002, p. 121)

 

Para Berger (2002) a harmonia enfatiza todo o contexto emocional da melodia, pois atribuem referências espaciais para a audição. Culturas de diversas comunidades no mundo criaram seus próprios sistemas harmônicos e tonais. Porém, Berger (2002) alerta que se tenha cuidado ao usar a harmonia em intervenções terapêuticas em crianças com autismo, porque ela fornece uma entrada auditiva múltipla, o que poderá dificultar o processamento, uma vez que a criança pode apresentar problemas sensoriais. Se usada de forma eficiente, a harmonia desempenhará um papel importante na estimulação de percepção de profundidade auditiva, e pode ser utilizada em atividades que fortalecem o foco auditivo e habilidades figura-fundo.

            Berger (2002) considera o timbre como um atributo importante, porque representa a qualidade e a definição da textura de um som. Os xilofones e metalofones são ótimos recursos para a combinação de timbres. Fáceis de manipular e as teclas são removíveis, assim podemos deixar somente as teclas que a criança terá que tocar. O timbre nos ajuda a diferenciar o som de cada instrumento e a distinguir uma voz feminina de uma masculina, assim como os sons agudos e graves. Alguns sons provocam uma reação negativa em indivíduos que possuem um sistema sensorial inadequado. Processar a variedade de timbres vocais e instrumentais pode ser muito difícil para crianças com transtorno do espectro autista.  Berger (2002) afirma que embora o timbre seja um elemento importante para as habilidades de escuta, crianças com distúrbios do processamento sensorial poderão não ter compreensão dos processos cognitivos que envolvem o ouvir e provocar falta de atenção. Outro problema seria de cunho comportamental, incluindo as reações emotivas de medo e fuga.

            Papouseck (2005) descreve a interação entre pais e bebês como uma interação intuitiva que é observada em diferentes culturas e línguas. Existe uma “fala”, dirigida ao bebê, que é musical e multimodal. Ou seja, além da voz, o movimento, o estímulo tátil, a expressão facial, ou corporal, também são fundamentais e inerentes a esta interação intuitiva com o bebê. Ao lidar com alguma tensão do bebê, os pais tendem a utilizar uma fala com melodia suave, frases mais longas e graves. Para estimular a criança, por exemplo, para que explore um novo brinquedo, os pais tendem a utilizar uma fala mais aguda e com frases mais curtas. No entanto, é importante ressaltar que as funções e significados destas melodias dependem também da capacidade do bebê de discriminar, processar e decodificar estas falas melódicas que estão presentes no dia a dia do bebê. Sabemos que este processo não ocorre satisfatoriamente nas crianças com Autismo (ALVARES, 2005)

Relatos de experiência

 

Serão descritos brevemente três processos musicoterápicos de crianças com Autismo como meio de ilustrar clinicamente o que foi discutido na literatura. É importante ressaltar que os nomes das crianças foram alterados para preservar suas identidades.

 

Caso 1 – João

 

Algumas crianças com autismo apresentam os seguintes perfis sensoriais: sistema vestibular e proprioceptivo hiporresponsivo (baixa resposta/sensibilidade). Neste estudo, foi proposto à criança que será chamada de João,  diagnóstico de autismo, na época com 9 anos, uma atividade que consistia em estimular os dois sistemas para internalizar o ritmo no andamento da canção e input[1] para organização de comportamento. Eu cantava uma música sobre uma pulguinha que pulava, e finalizava cantando que a pulguinha caía bem na almofada. João, autista de 9 anos, não pulou no comando “almofada”, contei até 10 quando finalmente se jogou na almofada. Aparentemente, seu processamento é lento, e o cérebro não fez a sinapse necessária para que ele compreendesse o momento exato de finalizar a canção.

Brincadeiras musicais no trampolim, reforçando o movimento combinado com a música para manter a continuidade rítmica com o apoio da letra, estabelece novas referências homeostáticas[2] da estimulação motora adaptativa, porém, este processo pode ser lento. Os resultados não são de imediato, além disso, João tem baixo tônus muscular, o que fazia com que no início fosse incapaz de bater em um tambor devido à fraqueza muscular dos punhos e a ausência de planejamento motor (BERGER, 2002, p. 64,65).

 

Hoje, João consegue bater em um tambor sem auxílio, com a palma da mão aberta, num compasso simples. Assim, como Grandin (1991), apesar das dificuldades motoras, ele adora cantar e compor. Cria letras em cima de qualquer melodia, dentro do seu repertório de fala, que na maioria das vezes vem com ecolalia tardia[3]. É verbal, porém às vezes é difícil compreender determinadas palavras que fala de forma um pouco idiossincrática[4], bem característico de sua patologia.

Outro avanço de João foi com relação a uma estereotipia que ele fazia com uma bola, batendo-a contra a boca, deitado no chão de barriga para cima e batendo na bola. Crianças que necessitam morder qualquer objeto e levá-los à boca, normalmente possuem baixa sensibilidade proprioceptiva, principalmente na região bucal. Seus pais se incomodavam bastante com esta estereotipia e se o inibisse, João tinha uma reação de extrema irritabilidade. Então pensei em como minimizar estas reações, redirecionando para a música. Ensinei-o que a bola terapêutica era para sentar, e ele podia marcar o ritmo com as mãos batendo na bola. Esse exercício diminuiu sua ansiedade e ele o faz quando está cantando ou assistindo um filme. E é nesses momentos que ele cria suas canções, e também percebi que ele consegue compreender ordens, comandos, em forma de canto.

Caso 2 – Luiza

 

Luiza é uma menina com autismo, de 6 anos, não verbal, com histórico de grande irritabilidade e desorganização do comportamento frente aos bombardeios sensoriais dos quais não conseguia se regular. Pouco reagia aos estímulos oferecidos por outros terapeutas e gritava bastante nessas terapias. Luiza foi escolhida para meu estudo com o objetivo de usar a música como uma ferramenta para as acomodações sensoriais, e que lhe proporcionasse uma adequação não só de acalmar seu corpo e as disfunções sensoriais, mas proporcionar uma chance de se expressar através da música.

 

No primeiro encontro foi realizada a mesma atividade apresentada ao João, primeiro estudo de caso. Luiza antecipava o ritmo e pulava na almofada antes do comando. Com o tempo, ela foi se organizando ritmicamente.

No quinto encontro, Luiza me surpreendeu. Temos uma almofada sonora sensorial que estava na sala. Peguei meu celular e aleatoriamente toquei o som de um trenzinho. Ao ouvi-lo, Luiza imediatamente pegou a almofada sonora e percebeu que o som que produzia harmonizava com o som do apito do trem. Entendeu os momentos que deveria fazer pausa, e adicionou uma percussão corporal na harmonização da nova canção que ela acabara de compor. Talvez sua compreensão não tenha sido cognitiva, mas intuitiva. Consegui registrar em vídeo esse momento e mostrei à mãe, que ficou muito surpresa de ver que a filha tinha uma percepção musical que era desconhecida por ela até então.

Caso 3 – Lucas

 

Outro caso interessante, foi o de Lucas, autista de 6 anos. Foi uma das crianças que mais apresentavam desordem no processamento sensorial. Não tinha senso gravitacional (ligado ao sistema vestibular) e toda vez que escutava uma canção, girava em torno de si sem parar. Passei um tempo, pensando, de que forma eu poderia modular essa sensação que para ele era prazerosa, mas não era adequada. Até que um dia pensei no bambolê. A ideia era produzir a sensação de rodar, porém quando o bambolê caísse no chão desse essa percepção de fim. E deu certo.

Outra estratégia que ajudou na eliminação desse comportamento foi à bola. Ao ouvir a música, quicávamos nela com o ritmo da música. Depois sua mãe relatou que comprou uma bola e ele ouvia as músicas do DVD na bola quicando ritmicamente, trocando assim o movimento giratório, por uma ação proprioceptiva mais adequada. Ele agora podia sentir o pulso da música, e estes elementos encontravam-se mais internalizados.

 

 

Considerações finais

 

O autismo é um transtorno que afeta o individuo independente de sua etnia, condições econômicas, culturais, nível de escolaridade. A necessidade de criar programas terapêuticos que atendam às necessidades desta clientela de forma eficaz exige que tenhamos mais acesso à literatura e a pesquisas que visem facilitar a vida desses sujeitos. Nos últimos anos tivemos pesquisas que abriram novos caminhos para o tratamento da pessoa com Autismo, e a Musicoterapia pode ser um caminho facilitador neste processo de proporcionar uma qualidade de vida e bem estar, assim como, dissipar as sensações de medo e fuga diante de estímulos que não consiga modular.

No campo emocional, representa que a criança aprende mais com o ambiente e desenvolve habilidades através de interações prazerosas que facilita a internalização dos estímulos que foram apresentados levando para seu cotidiano o que foi vivenciado.

Acreditamos que tanto a experiência clínica descrita neste trabalho, assim como a discussão de literatura abordada, possa contribuir para o aprimoramento do tratamento de uma síndrome que tem sido um grande desafio para pais, profissionais da área da saúde e educação.

 

[1] Refere-se às entradas de estímulos sensoriais para a organização do comportamento.

[2] Refere-se ao equilíbrio funcional de todos os sistemas.

[3] A ecolalia é a repetição de uma palavra ou frase, ou sons peculiares (sirene, comerciais, trechos de filmes e desenhos…) que a criança autista ouviu e repete como se fosse um eco. A ecolalia pode ser imediata, assim que ela ouve a palavra ou frase, ou tardia, repetindo algo que ouviu em algum momento, mas que não tem nenhum sentido de comunicação.

[4] Uso peculiar de palavras ou frases não possibilitando entender o significado do que está sendo dito.

 

 

 

 

 

Com base no que foi citado acima por Benenzon (1985), quando um paciente apresenta estereotipia motora, redireciono aquele gesto para a percussão corporal.  Fazer uso desses eventos, e transformá-los em música, ajuda-os a diminuir algo sem sentido para torná-los com um propósito definido. Um exemplo disso, quando os bebês balbuciam “mamã” e “papa”, os pais instintivamente dão significado a estas palavras como: “aqui a mamãe”, “neném quer papa?”. Começa-se então o aprendizado da linguagem. Portanto, podemos auxiliar no aprendizado da linguagem musical se utilizamos repertório ritualístico do aluno. “Apesar de mudanças tonais (nas emissões prosódicas[1]) pode ser usado como fonemas, às mudanças na tonalidade, volume e frases que constituem características prosódicas são mais freqüentemente produzidos sem intenção consciente” (DEACON, 1997, p.418)[2].

[1] Emitir corretamente as palavras quanto à posição da sílaba tônica, segunda as normas da língua culta.

[2] Original inglês: “Though tonal shifts (in prosodic emissions) can be used as phonemes, the changes in tonality, volume, and phrasing that constitute prosodic features are most often produced without conscious intention”. (DEACON, 1997, p.418)

 

Referencia:

SENRA, Michele Souza. MUSICOTERAPIA E A UTILIZAÇÃO DOS ELEMENTOS DA MÚSICA PARA ADAPTAÇÃO SENSORIAL DE CRIANÇAS COM AUTISMO: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA, 2016.

Posted on Novembro 1, 2016, in Dicas para os pais, Dicas para profissionais, Música e integração sensorial, Meus artigos. Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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