“Conserto” Azul: Repensando a performance estética como performance de relacionamento em uma apresentação musical de crianças e adolescentes com autismo

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo apresentar um relato de experiência de uma apresentação musical realizada com crianças e adolescentes dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA) no dia 2 de abril de 2016, dia mundial da conscientização do autismo. O repertório e a estrutura do evento foram planejados e executados respeitando a neurodiversidade para que pudessem expressar-se através da arte seus sentimentos e troca afetiva com o outro na construção de uma performance que valorizasse mais o relacionamento do que a estética propriamente dita. O pressuposto teórico deste artigo visa analisar o papel da musicoterapia como mediadora no processo de expressão artística.

Palavra-chave: autismo, performance, expressão musical, neurodiversidade

Introdução

O autismo é um transtorno que afeta a forma como o indivíduo se relaciona com o mundo. Suas percepções são alteradas, e por vezes, essas especificidades podem afetar o modo como podemos estabelecer uma conexão. No entanto, para Bakan (2014) ao pensarmos no autismo somente como uma patologia, perdemos a oportunidade de quebrarmos um paradigma: construímos uma nova maneira de olhar esse público pelo viés da neurodiversidade[1]. O autor acredita que este pensar não é uma negação da gravidade que o transtorno acarreta na vida do sujeito e de seus cuidadores e sim, redirecionar para uma perspectiva de aceitação das peculiaridades, e que a música seria essa “voz” alternativa para comunicar pensamentos, sentimentos e necessidades.

Alvares e Amarante (2016) explicam que o conceito da diversidade em contraponto com a “patologização”. Os autores advertem que com base na prática com alunos em sofrimento psíquico, fazer com que os alunos atendam os padrões de ensino é prejudicar o processo de aprendizado do mesmo, pois padronizar configura uma frustração deste indivíduo. “(…) a música, assim como as outras artes, contribui com a construção de espaços sociais que possam acolher a diversidade humana (ALVARES, AMARANTE, 2016, p. 33).

            Quando estava no processo de ensaios para a apresentação do Concerto Azul, um dos adolescentes do projeto, inusitadamente, indagou: “Ah Conserto Azul quer dizer que o show precisa ser consertado? ”.  Achei muito interessante e pertinente, embora que não tenha sido proposital, pois é conhecido como característica do autismo a dificuldade de compreensão de palavras de duplo sentido, metáforas e outras figuras de linguagem (APA, 2014). Porém, de fato, a ideia da apresentação era reconstruir a forma de uma apresentação musical que fosse inteiramente adaptada a realidade deles. A palavra azul representa a cor símbolo da causa.

A contribuição da musicoterapia na descoberta da identidade sonora do indivíduo com autismo

Enquanto a educação musical tem como objetivo o ensino e aprendizado da música, a musicoterapia se utiliza do som, da música e do movimento com a finalidade de abrir canais de comunicação e reabilitação (BENEZON, 1985).

Existem delimitações claras entre a musicoterapia e a educação musical. O que distingui as áreas são seus objetivos que definem seu papel empírico (PASSARINI, AOKI, PREARO e ANDRADE, 2012). Porém os autores ressaltam que os entrelaçamentos dos conteúdos propostos pela educação musical também norteiam os princípios da musicoterapia. A proposta é de refletir sobre a interdisciplinaridade da musicoterapia em estimular a singularidade da criança e explorar suas capacidades criativas e exploratórias da música para uma auto expressão emocional de seus conteúdos internos. Para Bang (1991, p. 21) “Em muitos casos, a musicoterapia vem a ser o único meio viável de se obter resultados terapêuticos e pedagógicos”.

            Um dos princípios metodológicas da musicoterapia consiste no ISO (igualdade) de Altshuler. Na prática significa que devesse igualar “o tempo mental do paciente com o tempo sonoro/musical executado pelo terapeuta (BENEZON, 1985, p. 44). Segundo Benenzon (1985) cada pessoa carrega um tempo biológico particular, e que em pessoas com deficiência intelectual seu ritmo interno, velocidade do andar são irregulares, atribuídos aos déficits motores. O autor exemplifica que uma criança agitada tem um tempo orgânico muito rápido, e que os exercícios rítmicos devem acompanhar o mesmo andamento. Por outro lado, uma criança inerte, com baixa reatividade motora, tem em seu tempo natural os andamentos mais lentos. “A criança, através do ritmo aprende a viver o tempo que passa” (BENENZON, 1985, p. 131).

Benezon (1985) também definiu uma outra forma de ISO:

O ISO universal é uma identidade sonora que caracteriza ou identifica a todos os seres humanos, independente de seus contextos sociais, culturais, históricos e psicofisiológicos particulares. Dentro deste ISSO universal figurariam as características particulares do batimento cardíaco, dos sons de inspiração e expiração, e da voz da mãe nos primeiros momentos do nascimento e dias do novo ser. (BENENZON, 1985, p. 46)

            Com base no princípio de ISO universal, em uma das escolhas do repertório do Concerto Azul, foi considerado a estereotipia motora de duas crianças. A primeira criança colocava a mão na boca e outra no ouvido para escutar o ressoar de seu próprio som. A segunda criança batia palma repetidamente sem nenhuma função aparente. Parecia experimentar o som que produzia. Escolhemos então a canção, cuja letra é sobre bolinha de sabão, com percussão corporal utilizando os elementos sonoros que esses pacientes traziam para o setting terapêutico. No Brasil, essa prática musical é muito difundida pelo grupo Barbatuques, de onde surgiu nossa inspiração. As batidas eram marcadas no peito (som grave) e a palma (som mais agudo), e finalizava com um som de estourar bolhas batendo na boca, como era produzido pelo primeiro paciente. A resposta emocional das duas crianças foi muito emocionante, pois a impressão que passava é que foi descoberto um caminho peculiar de comunicação, ou seja, segundo uma técnica de aproximação para abrir canais de comunicação entre o terapeuta e a criança (BENENZON, 1985).

Segundo Benenzon (1985) o corpo humano constitui um instrumento corporal que originou os instrumentos musicais, porque o instrumento seria uma extensão do próprio corpo.

Um dos adolescentes, no dia da apresentação, espontaneamente, sentiu-se compelido em ensinar a cada espectador a coreografia da canção. O resultado, foi a participação total de todos que estavam presentes no show.

Figura 1: Concerto Azul

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Fonte: arquivo pessoal

            Segundo Bruscia (2000) a experiência musicoterápica envolve quatro técnicas fundamentais: improvisação, Re-criação, composição e audição. Para o Concerto azul utilizamos o recurso de Re-criação onde “o cliente canta ou toca, de memória ou utilizando partitura, uma peça musical composta anteriormente” (BRUSCIA, 2000, p. 31).  Ainda segundo o autor, esta técnica tem como objetivo facilitar o engajamento, uma vez que aquele repertório tem um significado para a pessoa que o escolhe:

Os clientes de eleição para as experiências re-criativas são aqueles que precisam de estrutura para desenvolverem comportamentos e habilidades específicas. Também são indicadas para clientes que precisam entender e se adaptar às ideias e sentimentos dos outros preservando suas próprias identidades, assim como clientes que precisam trabalhar juntamente com outras pessoas visando a objetivos comuns. (BRUSCIA, 2000, p. 127)

Um dos integrantes do Concerto escolheu um solo de uma canção que falava de amizade, o que contrapõe com o mito de que pessoas com autismo não desenvolvem empatia. A dificuldade na comunicação social e no relacionado é descrito no DSM-5 (APA, 2014), porém a dificuldade não é sinônimo de desprezo ao contato humano. A música pode ser um intermediador neste processo de socialização. Bruscia (2000) acrescenta que a empatia, uma habilidade muito importante na construção de relacionamentos é facilitada pela música.  “De todos os fenômenos sonoros do corpo humano, o mais profundo é constituído da voz e canto” (BENENZON, 1985, p. 50).  Este mesmo menino, em uma entrevista para o Jornal da Band  (2015), sobre inclusão na escola, declarou “eu tenho os melhores amigos do mundo”. Em uma análise na perspectiva da musicoterapia, a escolha da música sobre o tema amizade, revela muito sobre seu conteúdo interno, seus sentimentos e o desejo de compartilhar suas descobertas com o outro.

Figura 2 – Canção da amizade

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Fonte: arquivo pessoal

Bruscia (2000) ressalta que o fazer musical em um grupo faz com que o centro tonal seja compartilhado, sincronização de ritmo, troca de estímulos sonoros e sensações provocadas pela música, tornando-se uma só pessoa no processo terapêutico. “ A música é útil para fazer conexões porque ela envolve e requer todos os tipos de conexões! ” (BRUSCIA, 2000, p. 73).

            Outros momentos foram igualmente importantes na produção deste evento. “Além de ter relações com outras pessoas significativas, cada indivíduo é parte de muitos estratos da comunidade, desde o núcleo familiar (…), amigos, sociedade a cultura (…)” (BRUSCIA, 2000, p. 153).  Um adolescente estava muito feliz em tocar uma canção com o único acorde que conhecia no violão, o La. Enquanto ele tocava seu único e precioso acorde, três meninos com autismo severo utilizavam o pau de chuva e o tambor trovador para fazerem efeitos de percussão na canção, marcando o tempo corretamente. Em um momento coletivo, todos tocaram Twinkle Litlle Star com sinos musicais. Cada criança acompanhada de um cuidador era responsável por uma nota. Três terapeutas ficaram responsáveis por guiar as crianças e adolescentes com TEA na leitura de uma partitura com cores. Cada cor representava uma nota. Este tipo de atividade musical pode auxiliar nos déficits de planejamento motor e viso-motor, que são processos sensoriais e motores deficientes, e que acarretam uma grande parte da população autista (DSM-5/APA, 2014).

Figura 2 – Apoio visual

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Fonte: arquivo pessoal

            Outras medidas foram tomadas para que as crianças e adolescentes pudessem se sentir confortáveis na apresentação. Levando em consideração que os distúrbios sensoriais estão presentes na vida de uma pessoa com autismo, o som foi diminuído para que as crianças que apresentavam uma hipersensibilidade auditiva conseguissem participar. Quanto as crianças com baixa reatividade ao som, os pais foram orientados a se sentarem próximos as caixas de som para que a vibração emitida por elas aumentasse o limiar auditivo.

O processo artístico: performance estética no conceito da musicoterapia

Por se tratar de um concerto onde a neurodiversidade era celebrada, as crianças tinham a total liberdade para circularem no palco e se aproximarem dos músicos. Bakan (2014) acredita que a produção musical de pessoas com autismo, podem ser classificadas como etnomusicologia. E que essas apresentações fornecem a sociedade uma outra perspectiva com relação a arte de indivíduos com autismo. “(…) o terapeuta utiliza as experiências musicais coletivas como base para a terapia do indivíduo ou da comunidade” (BRUSCIA, 2000, p.153).

            Bruscia (2000) traça uma interessante visão a respeito do que seria a estética para o musicoterapeuta:

A música é experienciada como um objeto artístico sempre que o foco está no puro prazer estético derivado do ato de fazer ou ouvir música. Aqui, os valores estéticos e a beleza são perseguidos e alcançados ao se improvisar, compor, re-criar ou escutar música, no processo criativo propriamente dito. Portanto, é o ato da criação artística que tem sentido estético, com interesse comparativamente menor sobre o valor artístico do produto resultante. (BRUSCIA, 2000, p. 157,158).

Considerações finais

            Como descrito no texto, a musicoterapia, diferentemente da educação musical, tem objetivos diferentes com a utilização da música. Porém, ambas as profissões podem dialogar, e juntas criar possibilidades para pessoas com necessidades especiais de se expressar através do fazer musical.

            A estética dentro da performance está mais voltada para o relacionamento que a música se interpõe entre o sujeito e seus pares. Neste sentido, a beleza não está em tocar os acordes perfeitos, no aprendizado formal de música, mas sim, em como a música é um objeto transformador e aberto a diversidade humana.  A experiência musical de como a pessoa com autismo se relaciona com ela é que torna esta vivência tão interessante. Além disso, este tipo de evento promove um modelo de socialização e sensibilização do público em geral, apreciando a produção artística de pessoas com TEA. Assim, objetivamos a quebra de barreiras e a construção de uma identidade.

REFERENCIAS

ÁLVARES, Sérgio Luís de Almeida. Considerações sobre a educação musical na diversidade sob a perspectiva da musicalidade abrangente. IN: ALVARES, Thelma Syndenstricker; AMARANTE, Paulo (org.). Educação Musical na Diversidade: construindo um olhar de reconhecimento e equidade social em educação. Curitiba: Editora CRV, 2016.

ÁLVARES, Thelma Sydenstrick; AMARANTE, Paulo. Educação musical na diversidade: um caminho para a ressignificação do sujeito em sofrimento psiquico. IN: ALVARES, Thelma Syndenstricker; AMARANTE, Paulo (org.). Educação Musical na Diversidade: construindo um olhar de reconhecimento e equidade social em educação. Curitiba: Editora CRV, 2016.

ÁLVARES, Thelma Sydenstrick; SALGADO, José Alberto. Refletindo sobre práticas musicais educativas, diferença e emancipação. IN: ALVARES, Thelma Syndenstricker; AMARANTE, Paulo (org.). Educação Musical na Diversidade: construindo um olhar de reconhecimento e equidade social em educação. Curitiba: Editora CRV, 2016.

BAKAN, Michael B. Ethnomusicological Perspectives on Autism, Neurodiversity, and Music Therapy. Voices: A world forum for music therapy. Vol, 14, nº3, 2014

BANG, Claus. Um mundo de som e música. IN: RUUD, Even (org.). Música e Saúde. Tradução: WROBEL, Vera B; CAMARGO, Glória P.; GOLDFEDER, Miriam. São Paulo: Summus Editora, 1991.

BENENZON, Rolando O. Manual de Musicoterapia. Tradução: NASTARI, Clementina. Rio de Janeiro: Enelivros, 1985.

BRUSCIA. Kenneth E. Definindo Musicoterapia. 2ª ed. Tradução: CONDE, Marisa Velloso Fernandez. Rio de Janeiro: Enelivros, 2000.

DSM-5/American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Tradução: NASCIMENTO, Maria Inês. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

ORTEGA, Francisco. Sujeito Cerebral e o movimento da neurodiversidade. Mana vol.14 no.2 Rio de Janeiro, 2008.

PASSARINI, Luisiana B. F; AOKI, Thiago T.; PREARO, Pablo de M.; ANDRADE, Andressa L. A educação musical no desenvolvimento da criança: trilhas da musicoterapia preventiva. IN: Anais do XIV Simpósio Brasileiro de Musicoterapia e XII Encontro Nacional de Pesquisa em Musicoterapia. Olinda, 2012.

[1] O termo Neurodiversidade (diversidade cerebral) foi cunhado por um grupo de ativistas autistas nos EUA, que dizem que o autismo não é uma doença e sim uma maneira diferente de ser (ORTEGA, 2008). Essa postura vem a eliminar as ideias pré-concebidas de psicanalistas nos anos 50 que acusaram as mães pelo autismo de seus filhos, chamando-as de mães geladeira.

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One thought on ““Conserto” Azul: Repensando a performance estética como performance de relacionamento em uma apresentação musical de crianças e adolescentes com autismo

  1. Parabéns, pelo maravilhoso trabalho. Sou Musicoterapeuta, e acho sua criatividade exemplar. Um grande e carinhoso abraço. Graça Khede.

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