Curso para estimulação com música

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Como ter experiências musicais com seu filho em casa

Muitos pais me perguntam se é valido estimular música com seus filhos em casa. A resposta é muito clara: deve-se estimular sempre. Se hoje sou musicoterapeuta, e tenho habilidade para o canto, foi graças aos intensos estímulos que meus pais me ofertaram quando criança. E essa experiência na infância fez com que eu torna-se minhas interações com meu filho fossem relevantes para seu desenvolvimento, e repito isso com meu sobrinho desde que era um bebê.

Pensando nisso, deixo aqui algumas dicas que podem ser realizadas em casa. Se você não sabe tocar um instrumento, não sabe cantar, não tem problema pegue um CD da preferência de seu filho e crie experiências musicais inesquecíveis. Aqui a função principal da música é fortalecer as relações afetivas, ok?

Ensine seu filho sobre diferentes texturas. 

Leve-os na cozinha e pegue bolinhas de plástico, objetos de metal e colheres de madeira. Faça muito barulho enquanto fala sobre como cada item , e relate o que sente.

Melhore as habilidades motoras finas. 
Alguns instrumentos, como a tambor, são muito fáceis de brincar: apenas dê um bom golpe e você tirará o som. Outros, como pianos ou violão, exigem um pouco mais de conhecimento. Ajude o seu filho a aprender a isolar os dedos enquanto pressionam as teclas do piano ou movem os dedos para raspar o violão. Isso melhora a força e a coordenação da mão.

Use sua respiração. 
Soprar pode realmente ser uma habilidade muito difícil para algumas crianças aprenderem, mas é muito mais divertido quando você recebe feedback instantâneo através de uma flauta ou apito, por exemplo . Brincar com esses tipos de instrumentos pode ajudar seu filho a aprender a controlar a motricidade oral e, assim, pode ajudar a facilitar a alimentação e a fala.

Combine objetos com músicas. 
Cante a música “A dona aranha” brincando com uma grande aranha de brinquedo ou cantar “O seu Lobato tem um sítio” enquanto dá opções de bichos de pelúcia ou vinil de animais para a criança escolher e fazer o som dos animais.

Faça os movimentos das mãos juntos. 
Muitas músicas de crianças vêm com gestos, por exemplo “Meu pintinho amarelinho”, “Cabeça, ombro, Joelho e pé”. Ajude seu filho a fazer os movimentos para que eles possam aprender o que todos estão fazendo.

Torno a música em um jogo. 
A música pode ser uma ótima maneira de fazer jogo interativo com outras pessoas, mesmo que o jogo seja muito, muito simples. Você pode começar apenas por troca de turnos: você toca o tambor e seu filho bate o tambor (você estará oferecendo um modelo para seu filho imitar).

Incentive a comunicação. 

Cante músicas de rima simples com seu filho  e deixe de fora a última palavra. Tente fazer com que seu filho preencha os espaços em branco. Exemplo:

A roda do ônibus, roda ……. (deixe seu filho completar)

Caminhe ao ritmo. 
Se você está tentando ensinar o seu filho a melhorar sua marcha, escolha músicas com um bom ritmo e tente caminhar ao ritmo. As cantigas folclóricas tem opções ótimas para diversos estímulos, e tem sido regravadas sempre, como a Galinha Pintadinha, por exemplo.

Você pode trocar as letras de canções conhecidas para atingir algum objetivo de ensino. Além disso, essas trocas ensinam seu filho a flexibilizar, saindo do habitual e incentivando a criatividade.

LEMBRETE IMPORTANTE!

Apesar de todas as dicas isso não configura uma sessão de musicoterapia. A musicoterapia é uma ciência que exige uma formação acadêmica de graduação ou pós-graduação. Procure um profissional qualificado para o tratamento de seu filho. A musicoterapia utilizada por outra pessoa sem formação pode causar danos.

 

 

Musicoterapia e linguagem

“A semelhança entre a construção de uma linguagem musical e de uma linguagem verbal torna a música um importante auxiliar da fonoaudiologia. Atribui-se primordialmente à linguagem da música os processos perceptivos e mentais tais como audição, memória e imitação dos sons ouvidos, aliados ao controle motor dos movimentos físicos necessários. Na fala, ocorre uma mistura dos elementos, acompanhados por símbolos da fala e da música. Durante a percepção da fala e da música, o processo é conduzido em comum com as áreas sensoriais de projeção e com os diversos centros de processamento de informação. A atividade musical e a audição ativa de música podem originar funções que favoreçam a aquisição da linguagem, da atenção e da percepção, e a transferência de um movimento para som e de som para movimento, criando uma experiência de unidade entre linguagem, música e movimento.” (JOHNS, 1991)

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Curso em Agosto!

Olá pessoal, atendendo a pedidos, no dia 19 de agosto de 2017, realizarei um curso sobre Música para desenvolver linguagem, cognitivo e relacionamentos afetivos.

O Curso tem como público-alvo: professores, educadores musicais, musicoterapeutas, pais e outras áreas de interesse.

Sobre o curso:

A proposta do curso é oferecer um suporte teórico e prático aos participantes, seguindo a filosofia do modelo DIR/Floortime para aplicação em atividades musicais. O objetivo é potencializar as capacidades intelectuais, linguagem e de relacionamentos de crianças que estão com atraso no desenvolvimento (TEA, Down, entre outros).

Palestrante:

Mt. Michele Senra – Musicoterapeuta e especialista em Educação Musical, Mestranda em Música pela UFRJ. Terapeuta DIR/Floortime. Idealizadora dos projetos Concerto azul e Musicautista.

Investimento:

R$ 200,00

TURMAS LIMITADAS! SOMENTE 10 VAGAS!

Incrições:

pelo whatsapp (21) 98635-8116

Local: Av. Meriti, 2487 sala 202 – Largo do Bicão (Vila da Penha) RJ/RJ

As emoções influenciam o desenvolvimento cognitivo

Muito se fala da importância do brincar no desenvolvimento infantil. Para que  uma pessoa tenha a capacidade de fazer simbolismos, abstrações, é necessário que a mesma vivencie experiencias para criar. Pensando assim, se uma criança não consegue se relacionar com o meio por observação, experimentação, dificilmente terá a capacidade de desenvolver um pensamento criativo. Crianças em geral, brincam sobre coisas que percebem no dia a dia, por exemplo, brincar de casinha, construir cidades com objetos, etc. Infelizmente, estamos perdendo nossa capacidade de brincar por objetos tecnológicos.

Segundo Greenspan e Benderly (1999), as emoções exercem um papel importante no desenvolvimento cognitivo:

Essas crianças, que sofrem alguns dos problemas mais sérios de pensamento e linguagem que possamos imaginar, de base biológica, podem nos ensinar muito pela observação de como aprendem a pensar, se relacionar e comunicar. As crianças com as quais meus colegas e eu trabalhamos apresentam sérios déficits relacionados a problemas claramente neurológicos, tais como uma fraca capacidade de processar os sons, compreender palavras e executar movimentos sequenciais. (…) vagueiam sem rumo; agitam os braços compulsivamente; esfregam um determinado ponto no tapete de forma intermitente, pequenos objetos em fileiras rigorosamente retas – , nas quais não apresentam capacidade de respostas às tentativas mais básicas de comunicação. (GREENSPAN, BENDERLY, 1999, p. 31)

Os autores enfatizam que programas alguns programas terapêuticos podem inibir a capacidade criativa de uma criança com autismo reforçando um pensamento mecânico e estereotipado, quando poderíamos explorar todo o potencial para o raciocínio criativo e abstrato. “(…) No curso normal de eventos, cada sensação, à medida que é registrada pela criança, também dá margem a um afeto ou emoção” (GREENSPAN, BENDERLY, 1999, p. 37). Isso quer dizer, segundo os autores que uma brincadeira pode ser muito interessante para a criança ou ser desagradável, porque essas experiências vivenciadas determinam as impressões sensoriais que estão atreladas aos sentimentos. Por exemplo: se uma criança apresenta uma diferença inata na formação sensorial auditivo, podem comparar o tom de uma voz alta (frequência e altura) como se fosse o soar de uma sirene, porque só conseguem perceber a altura mais aguda daquela narrativa.

No que se refere a musicoterapia, usar técnicas de improvisação aumenta a possibilidade de extrair a capacidade criativa da criança. Mas, o que eu realmente quero falar nessa postagem é sobre como criar experiencias através do brincar com a música que ajude a modular um comportamento influenciado por incapacidades sensoriais e motoras.

Algumas crianças com autismo, não dão conta da enxurrada de informações sensoriais ao seu redor e oscilam em uma brincadeira entre o prazer, raiva ou medo, por exemplo.  Tenho crianças que podem estar muito envolvidas em um jogo musical ou em uma brincadeira e ao menor movimento, um pouco mais brusco, altera o humor da criança imediatamente de alegria para pânico ou raiva.

Seguindo os preceitos do DIR/Floortime, um dos meus atendidos se enrolou no tapete para se esconder. Seguindo sua liderança, decidi que poderíamos tornar uma brincadeira tão antiga e simples em algo mais divertido com a introdução da música. Nesse jogo foi possível ajudarmos nosso anjinho a controlar sua ansiedade e seu corpo no espaço, saber esperar (e isso para uma criança com autismo é muiiiitooooo difícil). E a nossa tendencia é reforçar porque sempre nos antecipamos a criança e entregamos “tudo de bandeja”. Precisamos criar um expectativa, e deixar a criança responder ao estímulo a seu tempo. Brincadeiras de esconder desenvolvem a capacidade da criança do pensamento, de construir imagens mentais dos objetos e das pessoas.

 

“descobrimos que a unidade básica da inteligência reside na conexão entre um sentimento, ou desejo, e uma ação, ou um símbolo. Quando um gesto ou  uma fração de linguagem relaciona-se, de alguma forma, com desejos da criança – mesmo que seja algo tão simples quanto a vontade de sair ou ganhar uma bola – , ela pode aprender a usar esse gesto ou essa linguagem de forma adequada e eficaz. Até fazer a conexão, no entanto, seu comportamento e sua comunicação permanecem em desiquilíbrio; de fato, a dificuldade em estabelecer tais conexões constitui um elemento básico do distúrbio.” (GREENSPAN, BENDERLY, 1999, p. 35).

Sendo assim, entendo que, quando uma criança apresenta um interesse incomum e persistente, devemos nos conectar a partir deste interesse e transformar essa brincadeira em algo compartilhado e prazeroso. Com afeto envolvido a expansão da capacidade cognitiva será ampliada.

Mt. Michele Senra

Referência:

GREENSPAN, Stanley I; BENDERLY, Berryl Lieff. A evolução da mente: as origens da inteligencia e as novas ameaças a seu desenvolvimento. Tradução: MONTE, Mônica Magnani. Rio de Janeiro: Record, 1999.

Debate sobre autismo

No dia 15 de Maio fui convidada para um debate sobre autismo na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Esses debates são muito importantes para mobilizar mais ações dos políticos à favor da pessoa com deficiência.

A composição da mesa:

Presidência: Exma. Sra. Vereadora Tânia Bastos

Sr. Subsecretário da Subsecretaria da pessoa com deficiente: Geraldo Marcos Nogueira Pinto

Neuropediatra: Dr. joão Gabriel da Rocha silva

Musicoterapeuta: Michele Senra (euzinha)

Neuropsicopedagoga: Rosangela da Silva Paris

Instituto Helena Antipoff: Cristiane Botelho de Lima

Centro de Atenção Psicosssocial Infanto Juvenil: Laura de Carvalho Moraes Sarmento.

Foram homenageados com a comanda municipal em reconhecimento pelo trabalho desenvolvido com pessoas com autismo, os sambistas Ito Melodia e Gugu das Candongas, e eu também. Fiquei muito feliz e honrada com a homenagem.

A relação da música com o processamento sensorial – parte final

Enfim, chegamos ao final da série de vídeos sobre a Relação da música com o processamento sensorial.

Muitas pessoas com autismo apresentam comportamentos ritualísticos e estereotipias motoras e vocais. Greenspan e Wieder (2006) explicam que se a criança apresenta uma tendência ritualística fazendo sempre determinado som, podemos usar e abusar da criatividade criando uma canção com aquele som, ao invés de ignorá-lo. A incorporação das vocalizações, do cliente, em improvisação musical é uma prática muito comum em Musicoterapia. Berger (2002) acredita que a repetição rítmica conduz o cérebro ao sistema de atenção. A autora explica este fenômeno através de uma analogia aos soldados que marcham por longas distâncias repetindo frases rítmicas. O cérebro pode suportar esta repetição durante o tempo necessário para obter a mensagem.

Benenzon (1985, p.146) também concorda que é possível aproveitar os próprios recursos de comunicação que a criança apresenta, para criar um canal de comunicação com a mesma, ou seja, imitação das expressões vocais da criança. Para Benezon (1985)  o trabalho com objetos intermediários e a busca de sons que impactem o ego autista, é a chave para conexão. O autor explica que o uso de instrumental é necessário para auxiliar a terapia musical, por exemplo: bolas, aros e cordas para que conduzam ao movimento e jogos musicais. Esses objetos podem ser infinitos para que sejam alcançados os objetivos esperados. Outra questão citada pelo autor é a respeito da percussão corporal:

Suas mãos, golpeadas uma contra a outra ou sobre os joelhos; seus dedos: os movimentos de seu corpo inteiro, a marcha, o balanceio de um pé pelo outro e, a partir daí, passa-se de forma natural, ao som do bater palmas, das mãos golpeando o chão ou sobre a mesa. (…) O musicoterapeuta não deve temer que o aluno-paciente golpeie a si mesmo, ou que se machuque golpeando sobre um objeto qualquer. Muito pelo contrário, este é um meio de descarga de auto-agressividade e, além disso, permite organizar o movimento mostrando a possibilidade de golpear suavemente e não de maneira furiosa e automática. (BENENZON, 1985, p. 125 e 126)

Mesmo que não se tenha noção de uma determinada língua estrangeira, conseguimos intuir as emoções pela expressão e entonação da palavra. No caso de crianças com autismo essa prosódia pode ser pobre em variedade tonal. As emissões vocais não tem nenhum valor emocional aparentemente, mas percebi na prática que quando imito essas vocalizações enfatizando expressão e emoção, mudanças de tom, a criança consegue repetir e criar  outra frase melódica. Os tons ligados horizontalmente são semelhantes à prosódia (inflexão) em um discurso. Para isso não há a necessidade de um processamento cognitivo. Por exemplo, um bebê começa a compreender a palavra “Não” por inflexão do registro vocal como expressão negativa, antes mesmo da compreensão por processos cognitivos. Neste mesmo contexto, Berger (2002) conclui que:

Melodias que imitam as inflexões da fala prosódicas tendem a evocar respostas emocionais semelhantes aos evocados pela comunicação falada. Melodias irregulares (como, de alguma música moderna) pode criar uma inquietação no cérebro, que geralmente prefere padrões ordenados. Tons em staccato muitas vezes, induzem uma espécie de risada e alegria. Rir é uma chamada humana altamente contagiosa, em geral com um nível de coesão para um grupo. (BERGER, 2002, p. 121)

 

Para Berger (2002) a harmonia enfatiza todo o contexto emocional da melodia, pois atribuem referências espaciais para a audição. Culturas de diversas comunidades no mundo criaram seus próprios sistemas harmônicos e tonais. Porém, Berger (2002) alerta que se tenha cuidado ao usar a harmonia em intervenções terapêuticas em crianças com autismo, porque ela fornece uma entrada auditiva múltipla, o que poderá dificultar o processamento, uma vez que a criança pode apresentar problemas sensoriais. Se usada de forma eficiente, a harmonia desempenhará um papel importante na estimulação de percepção de profundidade auditiva, e pode ser utilizada em atividades que fortalecem o foco auditivo e habilidades figura-fundo.

            Berger (2002) considera o timbre como um atributo importante, porque representa a qualidade e a definição da textura de um som. Os xilofones e metalofones são ótimos recursos para a combinação de timbres. Fáceis de manipular e as teclas são removíveis, assim podemos deixar somente as teclas que a criança terá que tocar. O timbre nos ajuda a diferenciar o som de cada instrumento e a distinguir uma voz feminina de uma masculina, assim como os sons agudos e graves. Alguns sons provocam uma reação negativa em indivíduos que possuem um sistema sensorial inadequado. Processar a variedade de timbres vocais e instrumentais pode ser muito difícil para crianças com transtorno do espectro autista.  Berger (2002) afirma que embora o timbre seja um elemento importante para as habilidades de escuta, crianças com distúrbios do processamento sensorial poderão não ter compreensão dos processos cognitivos que envolvem o ouvir e provocar falta de atenção. Outro problema seria de cunho comportamental, incluindo as reações emotivas de medo e fuga.

            Papouseck (2005) descreve a interação entre pais e bebês como uma interação intuitiva que é observada em diferentes culturas e línguas. Existe uma “fala”, dirigida ao bebê, que é musical e multimodal. Ou seja, além da voz, o movimento, o estímulo tátil, a expressão facial, ou corporal, também são fundamentais e inerentes a esta interação intuitiva com o bebê. Ao lidar com alguma tensão do bebê, os pais tendem a utilizar uma fala com melodia suave, frases mais longas e graves. Para estimular a criança, por exemplo, para que explore um novo brinquedo, os pais tendem a utilizar uma fala mais aguda e com frases mais curtas. No entanto, é importante ressaltar que as funções e significados destas melodias dependem também da capacidade do bebê de discriminar, processar e decodificar estas falas melódicas que estão presentes no dia a dia do bebê. Sabemos que este processo não ocorre satisfatoriamente nas crianças com Autismo (ALVARES, 2005)

Relatos de experiência

 

Serão descritos brevemente três processos musicoterápicos de crianças com Autismo como meio de ilustrar clinicamente o que foi discutido na literatura. É importante ressaltar que os nomes das crianças foram alterados para preservar suas identidades.

 

Caso 1 – João

 

Algumas crianças com autismo apresentam os seguintes perfis sensoriais: sistema vestibular e proprioceptivo hiporresponsivo (baixa resposta/sensibilidade). Neste estudo, foi proposto à criança que será chamada de João,  diagnóstico de autismo, na época com 9 anos, uma atividade que consistia em estimular os dois sistemas para internalizar o ritmo no andamento da canção e input[1] para organização de comportamento. Eu cantava uma música sobre uma pulguinha que pulava, e finalizava cantando que a pulguinha caía bem na almofada. João, autista de 9 anos, não pulou no comando “almofada”, contei até 10 quando finalmente se jogou na almofada. Aparentemente, seu processamento é lento, e o cérebro não fez a sinapse necessária para que ele compreendesse o momento exato de finalizar a canção.

Brincadeiras musicais no trampolim, reforçando o movimento combinado com a música para manter a continuidade rítmica com o apoio da letra, estabelece novas referências homeostáticas[2] da estimulação motora adaptativa, porém, este processo pode ser lento. Os resultados não são de imediato, além disso, João tem baixo tônus muscular, o que fazia com que no início fosse incapaz de bater em um tambor devido à fraqueza muscular dos punhos e a ausência de planejamento motor (BERGER, 2002, p. 64,65).

 

Hoje, João consegue bater em um tambor sem auxílio, com a palma da mão aberta, num compasso simples. Assim, como Grandin (1991), apesar das dificuldades motoras, ele adora cantar e compor. Cria letras em cima de qualquer melodia, dentro do seu repertório de fala, que na maioria das vezes vem com ecolalia tardia[3]. É verbal, porém às vezes é difícil compreender determinadas palavras que fala de forma um pouco idiossincrática[4], bem característico de sua patologia.

Outro avanço de João foi com relação a uma estereotipia que ele fazia com uma bola, batendo-a contra a boca, deitado no chão de barriga para cima e batendo na bola. Crianças que necessitam morder qualquer objeto e levá-los à boca, normalmente possuem baixa sensibilidade proprioceptiva, principalmente na região bucal. Seus pais se incomodavam bastante com esta estereotipia e se o inibisse, João tinha uma reação de extrema irritabilidade. Então pensei em como minimizar estas reações, redirecionando para a música. Ensinei-o que a bola terapêutica era para sentar, e ele podia marcar o ritmo com as mãos batendo na bola. Esse exercício diminuiu sua ansiedade e ele o faz quando está cantando ou assistindo um filme. E é nesses momentos que ele cria suas canções, e também percebi que ele consegue compreender ordens, comandos, em forma de canto.

Caso 2 – Luiza

 

Luiza é uma menina com autismo, de 6 anos, não verbal, com histórico de grande irritabilidade e desorganização do comportamento frente aos bombardeios sensoriais dos quais não conseguia se regular. Pouco reagia aos estímulos oferecidos por outros terapeutas e gritava bastante nessas terapias. Luiza foi escolhida para meu estudo com o objetivo de usar a música como uma ferramenta para as acomodações sensoriais, e que lhe proporcionasse uma adequação não só de acalmar seu corpo e as disfunções sensoriais, mas proporcionar uma chance de se expressar através da música.

 

No primeiro encontro foi realizada a mesma atividade apresentada ao João, primeiro estudo de caso. Luiza antecipava o ritmo e pulava na almofada antes do comando. Com o tempo, ela foi se organizando ritmicamente.

No quinto encontro, Luiza me surpreendeu. Temos uma almofada sonora sensorial que estava na sala. Peguei meu celular e aleatoriamente toquei o som de um trenzinho. Ao ouvi-lo, Luiza imediatamente pegou a almofada sonora e percebeu que o som que produzia harmonizava com o som do apito do trem. Entendeu os momentos que deveria fazer pausa, e adicionou uma percussão corporal na harmonização da nova canção que ela acabara de compor. Talvez sua compreensão não tenha sido cognitiva, mas intuitiva. Consegui registrar em vídeo esse momento e mostrei à mãe, que ficou muito surpresa de ver que a filha tinha uma percepção musical que era desconhecida por ela até então.

Caso 3 – Lucas

 

Outro caso interessante, foi o de Lucas, autista de 6 anos. Foi uma das crianças que mais apresentavam desordem no processamento sensorial. Não tinha senso gravitacional (ligado ao sistema vestibular) e toda vez que escutava uma canção, girava em torno de si sem parar. Passei um tempo, pensando, de que forma eu poderia modular essa sensação que para ele era prazerosa, mas não era adequada. Até que um dia pensei no bambolê. A ideia era produzir a sensação de rodar, porém quando o bambolê caísse no chão desse essa percepção de fim. E deu certo.

Outra estratégia que ajudou na eliminação desse comportamento foi à bola. Ao ouvir a música, quicávamos nela com o ritmo da música. Depois sua mãe relatou que comprou uma bola e ele ouvia as músicas do DVD na bola quicando ritmicamente, trocando assim o movimento giratório, por uma ação proprioceptiva mais adequada. Ele agora podia sentir o pulso da música, e estes elementos encontravam-se mais internalizados.

 

 

Considerações finais

 

O autismo é um transtorno que afeta o individuo independente de sua etnia, condições econômicas, culturais, nível de escolaridade. A necessidade de criar programas terapêuticos que atendam às necessidades desta clientela de forma eficaz exige que tenhamos mais acesso à literatura e a pesquisas que visem facilitar a vida desses sujeitos. Nos últimos anos tivemos pesquisas que abriram novos caminhos para o tratamento da pessoa com Autismo, e a Musicoterapia pode ser um caminho facilitador neste processo de proporcionar uma qualidade de vida e bem estar, assim como, dissipar as sensações de medo e fuga diante de estímulos que não consiga modular.

No campo emocional, representa que a criança aprende mais com o ambiente e desenvolve habilidades através de interações prazerosas que facilita a internalização dos estímulos que foram apresentados levando para seu cotidiano o que foi vivenciado.

Acreditamos que tanto a experiência clínica descrita neste trabalho, assim como a discussão de literatura abordada, possa contribuir para o aprimoramento do tratamento de uma síndrome que tem sido um grande desafio para pais, profissionais da área da saúde e educação.

 

[1] Refere-se às entradas de estímulos sensoriais para a organização do comportamento.

[2] Refere-se ao equilíbrio funcional de todos os sistemas.

[3] A ecolalia é a repetição de uma palavra ou frase, ou sons peculiares (sirene, comerciais, trechos de filmes e desenhos…) que a criança autista ouviu e repete como se fosse um eco. A ecolalia pode ser imediata, assim que ela ouve a palavra ou frase, ou tardia, repetindo algo que ouviu em algum momento, mas que não tem nenhum sentido de comunicação.

[4] Uso peculiar de palavras ou frases não possibilitando entender o significado do que está sendo dito.

 

 

 

 

 

Com base no que foi citado acima por Benenzon (1985), quando um paciente apresenta estereotipia motora, redireciono aquele gesto para a percussão corporal.  Fazer uso desses eventos, e transformá-los em música, ajuda-os a diminuir algo sem sentido para torná-los com um propósito definido. Um exemplo disso, quando os bebês balbuciam “mamã” e “papa”, os pais instintivamente dão significado a estas palavras como: “aqui a mamãe”, “neném quer papa?”. Começa-se então o aprendizado da linguagem. Portanto, podemos auxiliar no aprendizado da linguagem musical se utilizamos repertório ritualístico do aluno. “Apesar de mudanças tonais (nas emissões prosódicas[1]) pode ser usado como fonemas, às mudanças na tonalidade, volume e frases que constituem características prosódicas são mais freqüentemente produzidos sem intenção consciente” (DEACON, 1997, p.418)[2].

[1] Emitir corretamente as palavras quanto à posição da sílaba tônica, segunda as normas da língua culta.

[2] Original inglês: “Though tonal shifts (in prosodic emissions) can be used as phonemes, the changes in tonality, volume, and phrasing that constitute prosodic features are most often produced without conscious intention”. (DEACON, 1997, p.418)

 

Referencia:

SENRA, Michele Souza. MUSICOTERAPIA E A UTILIZAÇÃO DOS ELEMENTOS DA MÚSICA PARA ADAPTAÇÃO SENSORIAL DE CRIANÇAS COM AUTISMO: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA, 2016.

A Relação da Música com o Processamento sensorial – partes

O estímulo vestibular com ritmo musical pode estimular a fala e o canto de crianças com autismo. Grandin (1991) é uma das autistas mais conhecidas no mundo. Apesar das dificuldades que encontrou ao longo de sua vida, conseguiu se estabelecer profissionalmente como cientista. Ela concorda que os estímulos de balanço podem proporcionar a aquisição de linguagem. Mas que coordenar muitos movimentos ao mesmo tempo limitou-a no aprendizado de um instrumento musical, porém isso não foi um impeditivo para o canto com afinação. Ela relata que quando criança tinha muitas dificuldades para se comunicar, mas que cantar sempre foi mais fácil. Outro desafio relatado é com relação ao ritmo, como por exemplo, sincronizar palmas e ritmos. Ela sugere que os problemas rítmicos podem estar relacionados com os problemas de fala. Os bebês típicos movem-se em sincronia com a fala dos pais, o que não ocorre em bebês com autismo. Sobre este tema, Bang explica:

O ritmo da fala é um movimento rítmico dos órgãos da fala, tais como respiração, a voz e os movimentos articulatórios da boca, em conjunto com os sons provenientes da laringe. Nós ouvimos os movimentos da fala, e dessa maneira, a audição é um processo sensório motor.

O exercício da música e do movimento treinam as funções sensório-motoras auditivas e vibratórias e a memória de tais sequências e sua utilização. As atividades musicais, portanto, treinam indiretamente as funções básicas da fala e da linguagem. BANG, 1991, p. 25)

O ritmo está presente em toda parte. O ritmo é fisiológico. Nossos órgãos internos funcionam ritmicamente para o funcionamento perfeito de nossa sobrevivência. O bebê acompanha desde o útero materno o ritmo pulsante do coração de sua mãe, e ao nascer, quando colocado no peito de sua mãe, se autorregula com os sons do batimento cardíaco. O universo é regido pelo ritmo pulsante de luzes e frequência dos sons para a órbita dos planetas (BERGER, 2002, p.112).  Cirigliano (2015) contextualiza a respeito desta relação musical do ser humano que advém da vida uterina até a morte:

 

A música todo o ser humano, do nascimento à morte. Os batimentos cardíacos e outros sons internos de uma gestante constituem a primeira marca musical do ser humano. Percebida desde o útero materno, por via óssea, nas vibrações, e auditivamente, estas sonoridades imprimem os primeiros indícios de uma identidade musical que vai se sofisticando após o nascimento. Vale dizer que, para o musicoterapeuta, o choro do bebê também é música. (CIRIGLIANO, 2015, p.7)

 

 

 

 

 

 

 

 

A estimulação auditiva e motora pode ser muito útil para o alinhamento da pulsação rítmica do corpo. Internalizar o ritmo com o corpo é um processo importante na integração dos sistemas. Ainda na opinião de Berger (2002) o regulamento rítmico dos processos internos, pulso, batimento cardíaco, respiração e etc., incluem a cognição e a linguagem, o que influencia o ritmo em relação à entrada rítmica externa. Crianças que conseguem internalizar o ritmo desenvolvem-se melhor no comportamento. E claro, com o corpo organizado ritmicamente as respostas fisiológicas são mais gerenciáveis. Desenvolver funcionalmente o planejamento motor auxilia na internalização rítmica e pulso (BERGER, 2002, p.114).

O corpo precisa sentir o movimento para que nosso cérebro consiga compreender. Quando a criança recebe um estímulo vestibular num balanço, ou trampolim, ou numa bola terapêutica, cantando uma música, marcando ritmo, estas ações resultarão na compreensão de seu cérebro na internalização rítmica e da entoação. Ikuta explica que:

A neurociência tem demonstrado que o estímulo auditivo rítmico pode melhorar ou promover respostas motoras e, ainda mais diretamente, estimular o movimento. O ritmo pode ser mais bem descrito como um “temporizador” sensorial que utiliza conexões, fisiologicamente, muito sensíveis entre o sistema auditivo e o motor no cérebro para influenciar o controle temporal do movimento. (IKUTA, 2009, p. 99)

 

O atributo rítmico, denominado pulso é o cronometrista, o marcapasso da música. O andamento do pulso, ou seja, se é rápido ou devagar, é importante na abordagem de problemas de desenvolvimento de linguagem. A aplicação do pulso ritmico podem alcançar bons resultados para a estimulação da fala. “Quando as sílabas são discriminadas em seus padrões rítmicos, as palavras tornam-se mais simples de ouvir, repetir e lembrar” (BERGER, 2002, p.115).

Berger (2002)  chama a atenção para os padrões rítmicos, pois o cérebro adora padrões. Eles preenchem as lacunas e mantém o cérebro em alerta sobre as constantes mudanças de informação musical. Enquanto o pulso permanece constante, o padrão por sua vez é livre para mudar, com paradas, sendo rápido e lento, e quando combinados adicionam uma dimensão profunda e constante num pulso simples. Berger (2002, p.116) acredita que na linguagem a presença do padrão é evidente, pois cada palavra quando divididas em ritmo silábico exibe um padrão. Assim, o padrão rítmico é um dos elementos principais para o aprendizado da língua falada. Por exemplo, se cantar ou falar uma palavra dividida em sílabas com ritmos padronizados, obtém-se a atenção e motivação necessária para imitar a palavra. Este exercício contribui para o desenvolvimento de linguagem de crianças não verbais.

Por esta razão, aprender um vocabulário de forma cantada contribui para a memorização mais eficiente das letras, e até mesmo de língua estrangeira. Para aprendermos uma língua estrangeira assimilação do idioma se dá pela padronização rítmica e tonal das palavras e frases. Quando alguém fala muito rápido, nosso cérebro tem dificuldade de rastrear e reter cada informação de forma padronizada. Informações muito rápidas são mais difíceis de serem compreendidas, principalmente por crianças que apresentam deficiências sensoriais e dificuldades de aprendizagem (SENRA, 2015).

Quando as informações são realizadas através de um padrão e pulsação rítmica, o cérebro não as percebe como algo ameaçador. Uma vez que essa informação está estruturada e organizada dentro do ritmo com padrões de afinação, o cérebro vai processando cada dado de forma aleatória expandindo o medo, e permitindo uma abertura de passagens para os canais cognitivos (BERGER, 2002, p.117).

 

A velocidade do pulso determina como a música irá provocar reações sensoriais, fisiológicas e emocionais. Assim como músicas rápidas nos impulsionam em uma energia alegre ou tensa, a música mais lenta pode nos relaxar, e fornecer informações importantes para o processamento cognitivo. As músicas rápidas animam o sistema e tem como objetivo acelerar as respostas do planejamento motor para a execução de tarefas e baixo tônus muscular. “É um aspecto que, quando usado conscientemente por razões específicas, podem alterar as respostas físicas e emocionais” (BERGER, 2002. P.119).

Texto por MICHELE SENRA

MUSICOTERAPEUTA E MESTRANDA EM MÚSICA PELA UFRJ

A Relação da música com o processamento sensorial – partes 4 à 8/23

Greenspan e Wieder (2006, p. 15) explicam que crianças autistas que estão alheias ao seu redor, ficam esquivas e se mantêm distantes das pessoas, em nada tem haver com a falta de amor e sim por um bombardeio de estímulos sensoriais. A atenção é um processo dinâmico que envolve muitas partes do sistema nervoso  ao mesmo tempo. Essas bases biológicas nas funções motoras e sensoriais alteram a capacidade de uma criança se autorregular e ter interesse pelo mundo. E que precisamos olhar para a modulação sensorial de cada um para conseguirmos estabelecer um relacionamento com eles. Nascimento e Ikuta exemplificam que:

A estimulação sensorial é essencial para a percepção do mundo. A música se constitui em importante objeto de estimulação sensorial porque ocorre simultaneamente no tempo e no espaço, proporcionando a vivência desses elementos musicais em diferentes velocidades, alturas e durações. (NASCIMENTO, IKUTA, CARVALHO, 2009, pág.121)

O sistema Vestibular, embora não faça parte dos cinco sentidos, é um sistema fundamental para o “desempenho motor antigravitacional” (MOMO, SILVESTRE e GRACIANI, 2012, p. 9). Significa que, em função deste sistema, o Sistema Nervoso Central relaciona a ação e controle de nossos movimentos como, cabeça, olhos e corpo.

 

O estímulo vestibular com ritmo musical pode estimular a fala e o canto de crianças com autismo. Grandin (1991) é uma das autistas mais conhecidas no mundo. Apesar das dificuldades que encontrou ao longo de sua vida, conseguiu se estabelecer profissionalmente como cientista. Ela concorda que os estímulos de balanço podem proporcionar a aquisição de linguagem. Mas que coordenar muitos movimentos ao mesmo tempo limitou-a no aprendizado de um instrumento musical, porém isso não foi um impeditivo para o canto com afinação. Ela relata que quando criança tinha muitas dificuldades para se comunicar, mas que cantar sempre foi mais fácil. Outro desafio relatado é com relação ao ritmo, como por exemplo, sincronizar palmas e ritmos. Ela sugere que os problemas rítmicos podem estar relacionados com os problemas de fala. Os bebês típicos movem-se em sincronia com a fala dos pais, o que não ocorre em bebês com autismo. Sobre este tema, Bang explica:

 

O ritmo da fala é um movimento rítmico dos órgãos da fala, tais como respiração, a voz e os movimentos articulatórios da boca, em conjunto com os sons provenientes da laringe. Nós ouvimos os movimentos da fala, e dessa maneira, a audição é um processo sensório motor.

O exercício da música e do movimento treinam as funções sensório-motoras auditivas e vibratórias e a memória de tais sequências e sua utilização. As atividades musicais, portanto, treinam indiretamente as funções básicas da fala e da linguagem. BANG, 1991, p. 25)

Para Berger (2002, p.108), quando a pessoa apresenta uma desordem no processamento multissensorial altera os aspectos de coordenação auditivos e motores. Ela explica que o mesmo ritmo que estimula os músculos a reagirem com movimento, se a criança apresenta dificuldade no processamento do som e planejamento motor, isso irá interferir no modo como a criança reagirá fisiologicamente sobre o som e o movimento. Pois, o processamento em conjunto do sistema vestibular e proprioceptivo, tátil, auditivo e visual, não estão organizados e integrados em um mesmo nível. Para tocar um instrumento musical existem um envolvimento de entrada multissensorial, que inclui o feedback do planejamento motor, proprioceptivo e tátil. A ação de bater em um tambor, por exemplo, “envolve movimentos bilaterais do braço, o cotovelo fica flexionado, as mãos se ocupam com as baquetas, movimentando-se ritmicamente para cima e para baixo” (BERGER, 2002, p.108) , acompanhando o pulso. Crianças com esses déficits não têm controle motor e percepção de pulsação e andamento.

 

Penso que autistas que possuem dificuldades para registrar os estímulos sensoriais, além da desatenção já mencionada, estão em busca de sensações e tentam criar um ambiente próprio com seus balbucios vogais e movimentos, como de um pêndulo, movendo-se  de um lado e para o outro sem parar.

Contudo, Berger (2002, p. 46) diz que os elementos musicais, quando aplicados de forma correta para atender a objetivos específicos, contribuem com informações relevantes para o sistema límbico, que traz para o sistema fisiológico a sensação e ajustes de conforto necessários. A música atua como um agente que acalma e dissipam as entradas sensoriais que causam medo. É como se o som fosse um cobertor que envolve o corpo trazendo conforto e segurança. Uma vez que o cérebro humano registra informação auditiva, como forma de tratamento do ambiente, consegue sequenciar os sons ligados a ritmo. O cérebro vai controlando os sons que estão presentes, e antecipar o próximo som.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em Música

 Terapeuta DIR/Floortime

 

A Relação da Música com o processamento sensorial – parte 3/23

Por Michele Senra

Nosso cérebro nos informa acerca do mundo externo a partir dos sistemas sensoriais. Berger[1] (2002, p. 23) fala que o cérebro só decodifica e interpreta o que é recebido, e que está equipado para interpretar. Mas que ele não consegue identificar o que não tem. Um exemplo é de pessoas recém-mutiladas que ainda sentem dores em membros já não existentes. Ainda segundo a autora, o cérebro humano não pode decodificar os extremos sons altos que qualquer cão pode ouvir. Isso porque nosso (cérebro não sabe que essas frequências existem mesmo), porque o sentido da audição não detecta e nem transmiti a conversão de impulsos elétricos.

A autora ainda afirma que o cérebro humano, registra a informação auditiva e imediatamente sintoniza sequências de sons ligados e ritmo. Ele controla os sons que permanecem sintonizados ao som ainda presente, antecipando o próximo som. Neste caso, uma criança com autismo se sentirá emocionalmente bem. Isto por que a música induz a liberação de dopamina e outros relaxantes do sistema, reduzindo a resposta de luta ou fuga por acalmar o sistema para baixo o suficiente para permitir a modulação eficiente.  Em virtude das afirmações dos autores citados neste capítulo, penso que a criança não deve ser vista com uma função isolada, porque todos os sistemas estão interligados.

[1] Dorita Berger é musicoterapeuta, pianista e educadora.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em Música

Referências:

SENRA, Michele de S;, ALVARES, Thelma S. A Relação da Música com o processamento sensorial:  a musicoterapia e sua atuação no tratamento de autistas no contexto do modelo DIR/Floortime. XV Simposio Brasileiro de Musicoterapia. XV Encontro Nacional de de Pesquisa em Musicoterapia. Rio de Janeiro, 2015.