A Relação da música com o processamento sensorial – parte 2/23

Por Michele Senra

Segundo Greenspan e Wieder (2006, p.17) por causa das diferenças inatas no processamento sensorial, a experiência emocional de um estímulo irá variar de uma criança para outra. O mesmo som, por exemplo, uma voz mais aguda, pode ser interpretada como agradável e reconfortante para um e extremamente irritante para outro. Uma carícia pode apreciada por uma criança, quando para outra pode ser extremamente dolorosa. Cada pessoa, ao longo do tempo cria um “catálogo” de experiência sensorial e emocional. A deficiência sensório-motora pode afetar profundamente a experiência do indivíduo de se relacionar com o outro.

            Os autores também exemplificam que crianças com hiposensibilidade ao toque ou som apresentam comportamento agitado e uma busca sensorial e de sensações constantemente. Por conta disso, elas podem mostra-se agressivas em determinados ambientes, com incapacidade de organização, envolvimento, co-regulação e emocional. Ambientes com muitos ruídos ou com muitas pessoas em volta podem sobrecarregar a criança com hipersensibilidade[1] e alterar seu comportamento.

[1] Hipersensibilidade – o limiar de sensibilidade é alto. Ex: Não suportar ser tocado.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em música

 

Referências

SENRA, Michele de S;, ALVARES, Thelma S. A Relação da Música com o processamento sensorial:  a musicoterapia e sua atuação no tratamento de autistas no contexto do modelo DIR/Floortime. XV Simposio Brasileiro de Musicoterapia. XV Encontro Nacional de de Pesquisa em Musicoterapia. Rio de Janeiro, 2015.

Anúncios

A RELAÇÃO DA MÚSICA COM O PROCESSAMENTO SENSORIAL: A musicoterapia e sua atuação no tratamento de crianças com autismo no contexto do modelo DIR/Floortime.

A RELAÇÃO DA MÚSICA COM O PROCESSAMENTO SENSORIAL: A musicoterapia e sua atuação no tratamento de crianças com autismo no contexto do modelo DIR/Floortime.

Michele de Souza Senra

             Thelma Alvares

RESUMO

Este artigo integra uma pesquisa em andamento em fase inicial, visando relacionar os elementos musicais e a forma como as disfunções sensoriais podem influenciar como o individuo com autismo percebe a música. O modelo de intervenção escolhido para a pesquisa é a abordagem desenvolvimentista DIR/Floortime,  partindo de uma revisão bibliográfica e da experiência da autora na prática do mesmo. A música fornece estimulação concreta e multissensorial (auditiva, visual, vestibular, propriocepção e tátil). As interações entre os sistemas sensoriais e como o cérebro captam essas informações, podem atrapalhar as percepções musicais de uma criança com atraso no desenvolvimento, por exemplo, e o estímulo sensorial com a música pode beneficiá-las. Além disso, a música atua diretamente nas emoções, e estabelecer um vínculo afetivo e emocional é importante no processo de reabilitação.

Palavras-chave: autismo, musicoterapia, DIR/Floortime e Processamento sensorial

 

1 INTRODUÇÃO

Muitas crianças com autismo possuem aptidões musicais, mas a dificuldade no processamento sensorial pode atrapalhar suas percepções, e dificultar o vínculo afetivo. O Objetivo deste artigo é abordar o funcionamento sensorial ligado às competências musicais e como podemos estimular crianças com autismo na musicoterapia.

A metodologia deste trabalho tem como principais referenciais teóricos a musicoterapeuta Dorita Berger e o médico Stanley Greenspan, entre outros autores. O que me motivou a querer estudar sobre essa temática, primeiramente foi meu filho, e através dele me envolvi com outras crianças. Busquei e ainda busco entender essa misteriosa síndrome e como posso ajudar cada criança com o transtorno com suas diferenças individuais.

2 AUTISMO: BEM VINDO AO MEU MUNDO SENSORIAL

 O artigo Autistic disturbances of affective contact2 de Kanner (1943) descreveu pela primeira vez, o que hoje conhecemos por autismo. Ele percebeu que apesar de apresentarem sintomas que lembravam os de pacientes com esquizofrenia (obsessividade, estereotipia e ecolalia), existiam outros pontos que divergiam e diferenciavam esse diagnóstico.

Desde sua descoberta, muitas coisas aconteceram. Hoje a classe médica está fornecida de mais informações para o diagnóstico. Prova disso, são os dados estatísticos cada vez mais crescentes do diagnóstico de autismo. Segundo dados da CDC (Centers for Disease control and Prevention)3, responsável pelo controle estatístico  de incidências de autismo, o número de crianças com o transtorno é alarmante. Cerca de 1 em 68 crianças recebem o diagnóstico. Para se ter uma ideia, entre o ano de 2000 a 2002 era 1 em 150, 2008 1 em 88.

Ainda não se sabe o que causa, e nem mesmo a cura. Porém, há uma movimentação por parte de cientistas do mundo inteiro na solução deste mistério, e está cada vez mais próximo de se comprovar através da genética e defeitos neurais. O mais recente Manual de Diagnóstico de Transtornos Mentais DSM-54 (2013), inclui nos comportamentos de padrões repetitivos as dificuldades no processamento de informações sensoriais.

Greenpan e Wieder (2006) dedicaram-se em pesquisas e desenvolveram uma intervenção terapêutica conhecida como DIR/Floortime, baseado em atividades lúdicas e de base sensorial que ajudam a criança a expressar seus sentimentos e resolução de conflitos. É uma abordagem de dentro para fora que visa atender a uma variedade de entraves no desenvolvimento. A outra meta é auxiliar os pais dessas crianças para que ajudem seus filhos a perceber e a interagir com o meio. Eles afirmam que o autista com pouca idade ou com problemas de atraso severo na linguagem não podem ser alcançado

2 Tradução: Distúrbios autísticos do contato afetivo.

3 Disponível em: http://www.cdc.gov/ncbddd/autism/data.html. Tradução CDC: Centro de Controle e prevenção de doenças. Acessado em: 15 de out. 2014

Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5) de 2013.

se não usarmos a brincadeira como um canal de aproximação. Neste aspecto, a musicoterapia pode ser uma ferramenta importante neste processo de engajamento e vínculo afetivo.

Para Greenpan e Wieder (2006, p. 14) para que a criança autista tenha um bom desenvolvimento é essencial que haja uma troca afetiva com seus cuidadores, assim como qualquer criança. E nessa tríade inclui a organização comportamental e do humor. A falta desta troca pode privá-las e prejudicá-las no desenvolvimento da linguagem e cognição. Os autores ainda ressaltam que sem experiência vivida não há como fechar conceitos, fazer abstrações. Essa é uma problemática que se acentua nas  pessoas afetadas pelo autismo. A dificuldade de interação e interesse pelo meio as impede de desenvolverem de acordo com os padrões.

Aspectos sensoriais no autismo

 Segundo Greenspan e Wieder (2006, p.17) por causa das diferenças inatas no processamento sensorial, a experiência emocional de um estímulo irá variar de uma criança para outra. O mesmo som, por exemplo, uma voz mais aguda, pode ser interpretada como agradável e reconfortante para um e extremamente irritante para outro. Uma carícia pode ser apreciada por uma criança, quando para outra pode ser extremamente dolorosa. Cada pessoa, ao longo do tempo cria um “catálogo” de experiência sensorial e emocional. A deficiência sensório-motora pode afetar profundamente a experiência do indivíduo de se relacionar com o outro.

Os autores também exemplificam que crianças com hiposensibilidade ao toque ou som apresentam comportamento agitado e uma busca sensorial e de sensações constantemente. Por conta disso, elas podem mostra-se agressivas em determinados ambientes, com incapacidade de organização, envolvimento, co-regulação e emocional. Ambientes com muitos ruídos ou com muitas pessoas em volta podem sobrecarregar a criança com hipersensibilidade e alterar seu comportamento.

Nosso cérebro nos informa acerca do mundo externo a partir dos sistemas sensoriais. Berger (2002, p. 23) fala que o cérebro só decodifica e interpreta o que é recebido, e que está equipado para interpretar. Mas que ele não consegue identificar o que não tem. Um exemplo é de pessoas recém-mutiladas que ainda sentem dores em membros  já  não  existentes.  Ainda  segundo  a  autora,  o  cérebro  humano  não  pode decodificar os extremos sons altos que qualquer cão pode ouvir. Isso porque nosso (cérebro não sabe que essas frequências existem mesmo), porque o sentido da audição não detecta e nem transmiti a conversão de impulsos elétricos.

A autora ainda afirma que o cérebro humano, registra a informação auditiva e imediatamente sintoniza sequências de sons ligados e ritmo. Ele controla os sons que permanecem sintonizados ao som ainda presente, antecipando o próximo som. Neste caso, uma criança com autismo se sentirá emocionalmente bem. Isto por que a música induz a liberação de dopamina e outros relaxantes do sistema, reduzindo a resposta de luta ou fuga por acalmar o sistema para baixo o suficiente para permitir a modulação eficiente. Em virtude das afirmações dos autores citados neste capítulo, penso que a criança não deve ser vista com uma função isolada, porque todos os sistemas estão interligados.

Greenspan e Wieder (2006, p. 15) explicam que crianças autistas que estão alheias ao seu redor, ficam esquivas e se mantêm distantes das pessoas, em nada tem haver com a falta de amor e sim por um bombardeio de estímulos sensoriais. A atenção é um processo dinâmico que envolve muitas partes do sistema nervoso  ao mesmo tempo. Essas bases biológicas nas funções motoras e sensoriais alteram a capacidade de uma criança se autorregular e ter interesse pelo mundo. E que precisamos olhar para a modulação sensorial de cada um para conseguirmos estabelecer um relacionamento com eles. Nascimento e Ikuta exemplificam que:

A estimulação sensorial é essencial para a percepção do mundo. A música se constitui em importante objeto de estimulação sensorial porque ocorre simultaneamente no tempo e no espaço, proporcionando a vivência desses elementos musicais em diferentes velocidades, alturas e durações. (NASCIMENTO, IKUTA, CARVALHO, 2009, pág.121)

Para uma melhor compreensão dos sistemas sensoriais básicos, e como eles se relacionam com a música, devemos observar suas funcionalidades e o que acontecem quando não são processados adequadamente. Desde o útero de nossas ães vivenciamos experiências gravitacionais. Após o nascimento o bebê, a cada mês, seu corpo vai se preparando motoramente para as posturas corporais necessárias para sentar, mover-se e andar. O sistema vestibular é responsável pelo equilíbrio e movimento do nosso corpo. “Ele também age juntamente com o sistema proprioceptivo, cuja função está ligada aos músculos e tendões” (Berger,2002, p. 62) . Greenspan e Wieder (2006) sugerem que algumas crianças podem se concentrar melhor quando estão envolvidas em atividades rítmicas lentas, movimentando-se no balanço de lycra. Outros podem responder melhor quando experimentam movimentos alternados entre rápido e lento. A frequência do ritmo e movimento ajuda a manter um estado de regulação e calma.

Para Berger (2002, p.108), quando a pessoa apresenta uma desordem no processamento multissensorial altera os aspectos de coordenação auditivos e motores. Ela explica que o mesmo ritmo que estimula os músculos a reagirem com movimento, se a criança apresenta dificuldade no processamento do som e planejamento motor, isso irá interferir no modo como a criança reagirá fisiologicamente sobre o som e o movimento. Pois, o processamento em conjunto do sistema vestibular e proprioceptivo, tátil, auditivo e visual, não estão organizados e integrados em um mesmo nível. Para tocar um instrumento musical existem um envolvimento de entrada multissensorial, que inclui o feedback do planejamento motor, proprioceptivo e tátil. A ação de bater em um tambor, por exemplo, “envolve movimentos bilaterais do braço, o cotovelo fica flexionado, as mãos se ocupam com as baquetas, movimentando-se ritmicamente para cima e para baixo” (BERGER, 2002, p.108) , acompanhando o pulso. Crianças com esses déficits não têm controle motor e percepção de pulsação e andamento.

Penso que autistas que possuem dificuldades para registrar os estímulos sensoriais, além da desatenção já mencionada, estão em busca de sensações e tentam criar um ambiente próprio com seus balbucios vogais e movimentos, como de um pêndulo, movendo-se  de um lado e para o outro sem parar.

Contudo, Berger (2002, p. 46) diz que os elementos musicais, quando aplicados de forma correta para atender a objetivos específicos, contribuem com informações relevantes para o sistema límbico, que traz para o sistema fisiológico a sensação e ajustes de conforto necessários. A música atua como um agente que acalma e dissipam as entradas sensoriais que causam medo. É como se o som fosse um cobertor que envolve o corpo trazendo conforto e segurança. Uma vez que o cérebro humano registra informação auditiva, como forma de tratamento do ambiente, consegue sequenciar os sons ligados a ritmo. O cérebro vai controlando os sons que estão presentes, e antecipar o próximo som.

Apesar disso alguns sons não recebem a mesma atenção. Outro ponto relatado pela autora é que existe um efeito no sistema auditivo que é conhecido por reflexo do ouvido médio. Ao ouvirmos sons em frequência muito alta em um determinado ambiente, dois músculos do ouvido médio são acionados (adaptação reflexiva), a fim de reduzir a capacidade da membrana timpânica na recepção do som. A autora ainda dá o exemplo do que ocorre com o sistema visual. O contato dos olhos com luzes mais fortes, faz com que nossa pálpebra se contraia. Deste modo, a criança autista tem como reflexo, colocar as mãos ou os dedos no ouvido para bloquear a entrada de sons (BERGER, 2002, p.85).

Greenspan e Wieder (2006) explicam que crianças com hiposensibilidade  ao som reagem a um padrão vocal dramático alto, porém as que apresentam hipersensibilidade responderão melhor com os tons suaves e de baixa frequência. Neste caso, a criança tem dificuldade para abstrair a sequência de sons, mesmo que sejam com ritmos simples, ou com mais variações.

Benezon (1985) explica que as reações de perigo frente aos ruídos estão em um nível mais profundo. Ele acredita que essa sensibilidade a determinados sons não está relacionada aos sons internos que percebemos desde a vida uterina, e sim são percebidos pelo corpo pelo sistema tátil. Sons específicos provocam os medos, assim como sons monótonos, repetidos, podem causar o aumento da tensão e levar ao sentimento de pânico.

Considerações finais

A música é parte integrante do comportamento humano. É através dela que nos expressamos e nos conectamos com o outro afetivamente. A música redireciona nossas tensões e organiza nossos comportamentos. Através deste trabalho podemos entender que o som nem sempre será respondido por um processamento intelectual. A música poder ser compreendida a nível intuitivo sem que ainda tenha desenvolvido o intelecto.

O conhecimento sobre o funcionamento vestibular e proprioceptivo e do planejamento motor, são importantes para que o musicoterapeuta possa ajudar a  criança a receber as mensagens adequadas às articulações e músculos e a se desenvolver. Isso faz com que o cérebro desenvolva a capacidade de reprogramar e reter novas informações sensoriais para uma adaptação funcional. Atividades musicais com as devidas adaptações sensoriais podem melhorar as funções fisiológicas presentes nos déficits sensoriais.

A interpretação sensorial é única em cada sujeito. Quando a música é aplicada para atender aos objetivos específicos, pode contribuir consideravelmente para  o sistema límbico, o que pode ajustar um conforto maior ao sistema fisiológico. A música tem como recurso o fator de acalmar o que pode trazer autoregulação sensorial. Ela envolve todo nosso corpo produzindo sensação de proteção e segurança.

Como a música poderia nos auxiliar para acalmar o sistema sensorial com a finalidade de eliminar as respostas de medo e rejeição a determinados sons e  músicas? A terapia realizada pelo musicoterapeuta, através de estímulos sonoros em uma base persistente, auxilia nas questões motoras e de linguagem. O estímulo musical afeta as adaptações auditivas. Além disso, atividades de escuta com foco em treinar o cérebro a ouvir e recordar os sons em sequência, podem ser muito eficiente. Berger (2002) sugere que essa escuta pode ser para sons específicos, trabalhar os tons graves e agudos para o ganho de habilidades de escuta, pois esses estímulos estimulam o planejamento motor- oral para a imitação do som vocal. Este é o desafio para permitir que a música faça a transferência de habilidades de rastreamento musical para os centros de monitoramento da fala no cérebro. Outro recurso para amenizar esses fenômenos é a dessensibilização do som específico. Potencializar de forma eficaz a reprogramação das funções do sistema auditivo. Nascimento (2009), diz que o método de dessensibilização tem como objetivo aumentar o limiar auditivo para os estímulos sonoros, para que melhore a qualidade de vida e a integração social.

REFERENCIAS

BENEZON, Rolando O. Manual de Musicoterapia. Tradução Clementina Nastari. Rio de Janeiro: Enelivros, 1985.

BERGER, Dorita S. Music Therapy, sensory integration and autistic child. London and Philadelphia: Jéssica Kingsley Publishers, 2002.

CENTERS   FOR   DISEASE   CONTROL   AND   PREVENTION.   Disponível    em:

http://www.cdc.gov/ncbddd/autism/data.html.  Acessado em: 15 de out. 2014

DIAGNOSTIC AND STATISTICAL MANUAL OF MENTAL DISORDERS    (DSM- 5). Disponível em: http://www.dsm5.org/about/Pages/BoardofTrusteePrinciples.aspx. Acessado em: 15 de out.2014.

GREENSPAN, Stanley I; BENDERLEY, Beryl Lieff. A evolução da mente. Tradução do inglês: Mônica magnani Monte. Rio de Janeiro: Record, 1999.

GREENSPAN, Stanley I; WIEDER, Serena. Infant and Early Childhood Mental Health: A Comprehensive Developmental Approach to Assessment and Intervention. Arlington, Va: American Psychiatric Publishing, Inc., 2006.

IKUTA, Clara Métodos de intervenção musicoterapêutica e suas aplicações. IN: NASCIMENTO, Marilene do (Coordenadora), Musicoterapia e a reabilitação do paciente neurológico. São Paulo: Memnon, 2009.

KANNER, Leo. Autistic disturbances of affective contact, na revista Nervous Children, número 2, páginas 217-250. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Autismo>. Acessado em: 14 de out. 2014.

NASCIMENTO, Marilena do. Musicoterapia e a reabilitação do paciente neurológico. São Paulo: Memnon, 2009.

THE INTERDISCIPLINARY COUNCIL DEVELOPMENT  LEARNING.  Disponível em: www.icdl.com

ARTIGO APRESENTADO NO XV SIMPOSIO DE MUSICOTERAPIA E XV ENCONTRO DE PESQUISAS EM MUSICOTERAPIA DA AMTRJ, EM 31 DE OUTUBRO DE 2015.

016 017 018

024

Sobre o curso – imagens de dois dias especiais

OBS: próxima oficina 28/11/2015

No último final de semana, realizei um curso sobre musicalização para autistas, para profissionais e estudantes que trabalham com a música com crianças autistas.

Foram dois dias muito intensos. Falei sobre minhas experiências e sobre o modelo que utilizo como ferramenta do meu trabalho.

093

Brincadeiras com o parachute “musical”.

095 100

Brincadeiras com o túnel de lycra

098 096

O Polvo de lycra.

11895288_813478038773555_2060121773787368259_o

Entre outras igualmente divertidas e que tem por objetivo criar recursos terapêuticos para abertura dos canais de comunicação, engajamento, interação, acomodação sensorial com os elementos sensoriais, etc.

103 101

Para complementar nossa prática, tivemos uma oficina com o musicoterapeuta Di Lutgardes sobre percussão.

086

O poder da brincadeira: “Terapia Floortime” para crianças com autismo

3

A importância da brincadeira para as crianças é um fato. Os benefícios da ligação, se divertindo, e oportunidades para aprender novos conceitos, como o compartilhamento, são essenciais para a relação pai-filho. Mas como isso afeta o cérebro? De acordo com pesquisa realizada pela Universidade de York em Toronto, Floortime tem a capacidade de ajudar as crianças com autismo .

Crianças com autismo apresentam sintomas variados, dependendo de onde eles se encontram no espectro do autismo, mas os sintomas principais são exibidos nas seguintes áreas:

  • As interações sociais
  • Relacionamentos
  • Comunicação
  • Interesse limitado nas atividades e brincadeiras

Universidade de York selecionaram 51 famílias com crianças de 2 a 5 anos de idade que foram diagnosticadas com autismo moderado a grave a participar de um estudo sobre o poder do jogo. “O objetivo do estudo foi o de pesquisar e entender o que estava acontecendo na rede do cérebro social”, disse o professor Stuart Shanker, investigador da ligação. “Todas as crianças têm o desejo de interagir. É a essência do ser humano, mas o autismo pode fazer a interação ser dolorosa e desagradável. Queríamos identificar os estressores e reduzi-los. “

Para a coleta de dados de base, as crianças foram observadas brincando com seus pais antes da terapia Floortime. Durante esta sessão, os pesquisadores descobriram que muitas crianças não se envolviam com os pais, mesmo quando provocado com ações lúdicas e ruídos. As Crianças não faziam contato visual e jogavam por si mesmos. As crianças também participaram de varreduras do cérebro para monitorar a atividade em diferentes partes do cérebro. Na maioria das crianças, a amígdala, ou a parte do cérebro que processa a ansiedade e o medo, era muito, muito ativa. Por outro lado, o lobo frontal, que processa as expressões faciais e emoções dos outros, foi subutilizado.

Uma vez que o estudo começou, as famílias foram obrigadas a assistir a uma sessão de 2 horas de terapia “Floortime” semanal na universidade. As sessões consistiam de terapeutas e famílias recebendo até ao nível da criança e aprender a tocar. Além disso, as famílias foram obrigadas a realizar 20 horas de Floortime em casa por semana.

Depois de um ano de terapia Floortime, os pesquisadores reavaliaram os participantes. Durante esta observação, as crianças pareciam muito mais engajadas durante o jogo. Eles estavam usando a linguagem para direcionar os pais na ação e comentando sobre ambos os pais e as suas próprias ações. Durante os exames cerebrais de acompanhamento, as crianças mostraram um uso muito mais relaxado Amídala e mais pesado do lobo frontal. Essencialmente, o cérebro mostrou sinais de que está sendo “religado”.

“Esses estudos são os tipos de coisas que precisamos”, disse Shanker. “Precisamos trazer a criança para o nosso mundo social, de modo que a criança torna-se um agente social ativa. Nós não queremos que uma criança de responder porque ele é condicionado. Queremos que ele responde porque é divertido. “

Para saber mais sobre o estudo e seus participantes,

visite: http://www.cbc.ca/player/News/TV+Shows/The+National/ID/2220343281/ .

 

Fonte: http://presencelearning.com/blog/power-play-floortime-therapy-children-autism/

A importância dos jogos e brincadeiras musicais para o desenvolvimento de crianças com TEA

Por Michele Senra

1401884289535

Sabemos que a maioria das crianças com autismo, possuem uma fraca capacidade simbólica. Para se fazer uma abstração é necessário que vivenciamos experiências. Como vivenciar algo do qual estamos alheios ao nosso redor? Brincar com seu filho é uma oportunidade de ajudá-lo a compreender regras, fazer uso da imaginação, desenvolver a comunicação e socialização.

Algumas crianças conseguem alcançar tais capacidades, mas com algumas restrições. A tendência a inflexibilidade pode ser grande. Tenho uma menina muito matreira, Manu, dentro do diagnóstico do TEA. Dias desses, numa atividade com bolas de guizo, ela colocou as bolas dentro de um pequeno balde e começou a brincar que estava carregando os doces. Na mesma hora, aproveitei e disse que poderíamos brincar de chapeuzinho vermelho e lobo mau. Quando falei que eu seria o lobo, ela começou a protestar:

– Você não pode ser o lobo.

– Porquê? Eu finjo que sou o lobo mau e você vem visitar a casa da vovó. – Respondi

– Você não pode ser o lobo mau porque você é rosa.

Comecei a rir porque não tenho a pele rosada e nem tão pouco minha roupa era rosa. Teria relação com o rosa como representação do sexo feminino? Depois ela continuou:

– Eu não posso ser a chapeuzinho porque sou uma menina de verdade e não de mentirinha.

Outro ponto importante a se pensar, porque bolinhas guizo para ela representam doces, mas eu e ela não podemos ser personagens de conto de fadas?

Por tanto, listei abaixo algumas informações sobre a importância dos jogos e como poderíamos ajudar crianças como a Manu, na quebra da inflexibilidade imaginativa.

 Jogos e brincadeiras musicais

Objetivos gerais de aprendizagem

– interagir e comunicar-se intencionalmente, com mais sucesso, e com mais prazer;

1610042_591880647573320_464668246_n

– comunicar-se usando palavras, gestos, olho no olho, expressões faciais e linguagem corporal;

– Imitar o que os outros fazem, incluindo ações, palavras, melodia de voz e estilo pessoal;

–  gostar de brincar e interagir com outras pessoas por longos períodos de tempo;

1081_dl_photo2_bc097

Jogos e brincadeiras musicais
Objetivos Específicos

Gerenciando atenção
– Estar cada vez mais consciente de que o parceiro de jogo está olhando, fazendo, sentindo e tentando realizar

– Demonstrar conhecimento e interesse na   interação social

10423914_10152522977123892_4373886787577077006_n

Comunicação

Compreender e utilizar gestos não verbais, como a cabeça treme e acenos, ondas, e apontamento.

– Comunicar o desejo de acabar com uma atividade de forma adequada

– Solicitar com palavras, gestos, imagens ou olho no olho

– Chamar os outros

– Pedir ajuda

– Compreender e seguir instruções verbais

– Comunicar brincadeira com a expressão facial, a proximidade do corpo, o olhar, e o tom de voz

2013-07-20 10.01.22

 

Gerenciando Emoções
– Para ficar emocionalmente regulado (acalmar), quando os outros disserem não.

– Para ficar emocionalmente regulado (acalmar) quando as coisas inesperadas acontecerem.

-Para participar em atividades lúdicas com brincadeiras

 

  Iniciação e fazer escolhas
– Para fazer uma escolha entre duas ou mais opções quando fornecido com fotos ou dado uma escolha verbal

– Para iniciar jogos com ações, palavras ou imagens

– Para discutir e escolher entre duas ou mais opções

 Cooperação

¨Seguir rotinas dentro de jogos e atividades

¨Para comunicar o desejo de acabar com uma atividade

¨Mover-se em conjunto com os outros e / ou em resposta ao movimento de outros

¨Juntar-se às atividades lúdicas com brincadeiras

 Reprodução

¨Usar brinquedos na forma como eles foram destinados  e sua utilidade

¨Brinquedos para uso/ variedade de maneiras diferentes

¨Seguir rotinas dentro de jogos e atividades

¨Adicionar novas ideais em jogo inspirados em coisas que estão acontecendo na vida

Estratégias que ajudam as crianças com autismo aprender essas habilidades:

Criança vai se tornar mais conscientes dos outros, e o que os outros estão fazendo

¤Usando pequenas rotinas previsíveis, de modo a tornar-se mais previsível

¤Tornando-se a fonte de coisas que a criança gosta

¤Exagerar expressões faciais

¤Usando uma voz expressiva

¤Rotinas de Interrupção

¤Imitando a criança

¤Expectativa de espera por uma resposta depois de tentar interagir com a criança

¤Usando comunicação visual, em vez de verbal (fotos, manifestações, gestos)

¤Usando a música, incluindo uma voz mais melódica, sons engraçados e  experiências sonoro-sensorial

Espaço Penha - Pau de chuva

Espaço Penha – Pau de chuva

2015-02-10 14.30.30

 

Tornando-se interessado na interação social (brincalhão)

¤Ser brincalhão enquanto interativo

¤Falar menos e usando uma linguagem previsível

¤Demonstrando (não muitos passos) rotinas lúdicas simples

¤Estar atento e observando o que a criança gosta e uso dessas informações

¤Adicionando agradáveis ​​experiências sensoriais para jogar (ou seja, balançando, pulando, fazendo cócegas, brincar na água)

Deslocando a atenção rapidamente entre pessoas, atividades e brinquedos

¤Jogar jogos em que está olhando para alguém ou ouvindo  alguém que faz parte do jogo

¤Reduzir ou eliminar as distrações concorrentes (ou seja, desligar a televisão, remover os brinquedos que não estão sendo usados ​​no jogo, reduzir o número de pessoas no quarto)

¨Prestar atenção quando mudar rotinas

¤Fornecendo informações sobre quando vai mudar rotinas incluindo programações visuais, músicas de transição

¤Fazendo terminações claras para um jogo ou atividade e, em seguida, um início claro para a próxima atividade (por exemplo, dizendo “Acabou ______, Tempo para ______” com cada atividade tem um nome que é sempre o mesmo)

Prestar atenção quando o tema não é um tema preferido ou o jogo não é um jogo preferido

¤Comece a ensinar a criança a prestar atenção ao interagir usando temas preferenciais ou jogar um jogo preferido

¤Integrar novos tópicos ou jogos gradualmente, mas manter alguns aspectos ou elementos do tema ou jogo preferido (por exemplo, deixe a criança saber quanto tempo você vai falar sobre um tópico não preferencial ou jogar um jogo não preferencial)

Percebendo que um parceiro de jogo está olhando, fazendo, sentindo e tentando realizar

¤Jogar jogos onde percebendo é parte do jogo são necessários para cumprir as metas do jogo

¤Habilidades de linguagem pré-ensinamentos necessários para compreender o que os outros estão fazendo, sentindo, ou tentando realizar

Abordagens como DIR/Floortime, são ótimos exemplos e escolhas para ajudar seu filho no desenvolvimento de suas capacidades. E claro, puxando sardinha pro meu lado, a música também está englobada neste pacote.

 

Espero que tenham ajudado. até o próximo post.

Abraços,

Michele Senra

Ideias de estimulação sensorial aliado à música para trabalhar com crianças com autismo

Por Michele Senra

Estou sempre em busca de melhorar minhas habilidades como professora de musicalização. Descobrir ideias eficazes para envolver crianças autistas através da música é sempre divertido e motivador.

As crianças que trabalho no CORA e aula particular, são em sua maioria autistas e aspergers. À começar pelo meu filho que tem autismo leve, que sempre me serviu como parâmetro sobre a síndrome. Nessa minha caminhada como mãe e no meu trabalho com o CORA, percebi e aprendi sobre as necessidades sensoriais que nossas crianças apresentam. Então, conversando com minha amiga Adriana Fernandes, Fonoaudióloga e especialista DIR/Floortime, pude perceber como essa abordagem pode ser uma forte aliada ao trabalho com música. E desde então tenho me aprofundado no assunto para melhor atender às necessidades dos meus alunos.

3-25

Tenho alguns alunos que ficam pulando e batendo em coisas, em busca de estímulos sensoriais. Procuro neste caso, proporcionar uma experiência sensorial oferecendo a esse aluno saltar no trampolim, ou saltar na bola suíça, eles adoram. Assim fica mais fácil o engajamento nas atividades musicais.

A criança recebe um input proprioceptivo e vestibular saltando na bola. Com a música que canto enquanto ela pula, no ritmo da música, consigo um bom contado ocular e às vezes consigo que ela cante comigo alguns trechos. Por incrível que pareça uma atividade onde a criança está em movimento, pode proporcionar uma interação muito produtiva e benéfica para as crianças. Com a bola podemos fazer outras atividades relaxantes como deitar sobre ela, rola para cima e para baixo, e etc.

Uma das premissas do Floortime é a motivação. A criança motivada consegue interagir com pais e terapeutas. Segundo Greespan: “Nós realmente precisamos mudar essa dicotomia histórica da cognição por um lado, as emoções, por outro lado, e perceber que nossas emoções são o combustível que dão origem ao comportamento social, mas também a diferentes níveis de inteligência”

É por isso que amo música, porque ela por si só já um agente motivador, e desenvolve diversas habilidades e estimula a criatividade.

Em breve postarei outras dicas. Até breve! Bjs