O que podemos aprender com nossos pequenos mestres TEA

Não me canso de agradecer aos pais por me proporcionarem a maior fonte de aprendizado que nenhum livro ou teoria poderia me fornecer. Não subestime a capacidade que nossos heróis tem de nos surpreenderem. Hoje quero contar algumas de minhas experiências mais fantásticas na musicoterapia e no Concerto Azul.

Todo mês de abril será realizado uma edição do Concerto Azul, e para este ano conseguimos um palco maravilhoso cedido pelo Teatro Miguel Falabella. Mediante este evento, procurei programar apresentações emocionantes que mobilizasse e sensibilizasse pessoas para a causa do Autismo. Claro que neste processo coletamos muitas histórias interessantes e que merecem ser compartilhadas.

Caso Violino:

Musicoterapia na educação musical

No ano passado, cursei uma disciplina do mestrado sobre Ensino Coletivo de instrumentos musicais com o Prof. João Bellard Freire. Uma das propostas da aula foi assistirmos palestras no Painel Funarte de Ensino de Cordas Friccionadas. Eu me apaixonei por cada projeto apresentado, e deste momento coloquei na minha cabeça que tinha que ensinar violino para meus meninos se apresentarem no Concerto Azul. Detalhe, eu nunca tinha tocado um violino em minha vida.

Pedi no facebook a doação de um violino e ganhei um. Agora, faltava aprender a tocar para ensinar.

Faltando menos de um mês para a apresentação, eu o Thiago, entramos em uma aula particular e pedimos nossa professora que focasse em nos ensinar um trecho de uma música “Aleluia”. Marcamos as notas que deveriam tocar e confiantes iniciamos os ensaios. Foi caótico. Chorei e pensei “será que vai dar certo?. Faltavam menos de duas semanas. Marcamos ensaios todos os dias e Thiago e eu nos reversamos nesses dias. A Sylvia, que é psicóloga e tinha uma noção do instrumento, também nos ajudou nessa tarefa.

No último dia que eu estava a frente do ensaio, Rômulo, autista de 18 anos, e Fábio , autista de 24 anos, ainda estavam com dificuldades para dominar o arco, tocar no ritmo, acertar as notas….

Rômulo nos ensaios

Rômulo dava vários suspiros de desespero e Fábio repetia “Isso é muito difícil”. Com pena, tentei minimizar a situação:

  • Rômulo, vamos fazer o seguinte, a gente para um pouco e continua depois.

Rômulo deu mais um suspiro e disse:

  • Espera Michele, eu quero tentar mais uma vez. Vem Fábio, toca comigo.

Os dois iniciaram o ensaio e conseguiram tocar. Quase chorei de emoção! Rômulo e Fábio me ensinaram a não desistir diante de um obstáculo. Foram persistentes e acreditaram em si mesmos. No dia da apresentação, fiquei nos bastidores ouvindo e me emocionando, com a certeza de dever cumprido. Mas o mérito foi todo deles.

Concerto Azul

 

“O sucesso nasce do querer, da determinação e persistência em se chegar a um objetivo. Mesmo não atingindo o alvo, quem busca e vence obstáculos, no mínimo fará coisas admiráveis.”

José de Alencar

 

Vídeo do dia da apresentação:

Caso hiperacusia e acusia

Você sabe o que é hiperacusia e acusia? São dois fenômenos sensoriais Onde o indivíduo tem uma hipersensibilidade a determinados sons, podendo provocar dor física. Além disso, a hiperacusia pode afetar o emocional, isso porque o sistema límbico , que é responsável pelas emoções e comportamentos, faz parte deste processo de desenvolvimento da hipersensibilidade, focando sua atenção aos sons dificultando a atenção em outras atividades. O fato é que a hiperacusia atrapalha avida social desses indivíduos. Meu filho por exemplo, tem muita sensibilidade a som de latido de cachorro. Passar por uma rua onde tenha muios cachorros é uma tortura pra ele. Imagine, uma criança com hiperacusia que os pais vão levar para um evento social como: shopping, festa, igreja, etc. Se essa criança não for verbal, o que torna identificação mais difícil, a criança pode ter crises de comportamento em função de sons que não tolera e os pais se sentirem perdidos. Com o tempo são privados de frequentarem determinados locais.

Thomaz, Manu e Breno fazem parte desta estatística, porém o trabalho da musicoterapia pode minimizar os impactos sensoriais e auxiliar na modulação desses sentidos.

Manu quando iniciou na musicoterapia não suportava minha voz, principalmente quando eu cantava. Certos instrumentos faziam com que ela pedisse para parar de tocar pois “meus ouvidos doem”. A musicoterapia foi vital para que esses sintomas fossem minimizados. Hoje, Manu tem mais tolerância a sons, participa de musicoterapia em grupo e conseguiu se apresentar no Concerto Azul, mesmo com tantos estímulos sonoros aos seu redor. Para Thomaz, ainda tem um pouco de dificuldade de estar em um ambiente musical, e na medida do possível tentamos reduzir o estresse através de técnicas de dessensibilização. Breno também é capaz de se apresentar em um ambiente com bastante ruído, mas os latidos de cachorro ainda o incomoda, porém com menos frequência.

 

 

Por isso, defendo o atendimento em grupo, porque é por meio da observação e vivencia com o outro que aprendemos a resolver conflitos, criar pontes de ideias, fazer parte de um grupo social.

“Ninguém nasce feito, é experimentando-nos no mundo que nós nos fazemos.”

Paulo Freire

 

Caso Feio Inibitório e organização corporal

Você sabe o que é freio inibitório?

É a capacidade que a criança tem de controlar o próprio corpo e mudá-lo de direção quando em movimento. è o controle no tempo e no espaço.

Emanuel é uma fofura. Mas tem uma dificuldade com organização e controle do próprio corpo. Em uma sessão de musicoterapia estávamos ensaiando uma canção Si mama ka, música folclórica de Ghana, que é sobre movimento. Na canção tem comandos de ficar parado, pular, correr, andar… Dai surgiram suas maiores dificuldades, ter a atenção para fazer cada movimento a seu tempo. Então usamos uma estratégia, como ele adora inglês e tem uma compreensão muito boa, fizemos uma brincadeira sem música, inicialmente. Eu dizia:

  • Emanuel, pay attention. One, two, trhee and run. (Emanuel, preste atenção: um, dois, três e corre)

Emanuel começava a correr feliz da vida. Depois de repetir algumas vezes essa frase, acrescentei as palavras Jump (pular), stand still (ficar parado), Run (correr).

“O saber “entra” pelos sentidos e não somente pelo intelecto”.
(Frei Betto)

Depois de brincarmos pedir que ficasse parado e ai introduzimos o ritmo com a percussão, depois com o Ukulelê, e logo depois a canção. Fragmentar a canção com a brincadeira, e utilizando o inglês para aumentar o engajamento, Emanuel finalmente, conseguiu compreender com seu corpo a brincadeira. Isso não quer dizer que ele superou essa dificuldade, ainda precisa de muita organização. Mas conseguimos compreender, como as atividades para ele devem ser trabalhadas por pequenas etapas.

“… a brincadeira que é universal e que é própria da saúde: o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde…”
(Winnicott)

 

Isso é uma pequena parte das muitas experiencias que tenho vivido e quero poder continuar a compartilhar mais e mais histórias.

Mt. Michele Senra

 

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Porquê trabalhar na regulação/modulação sensorial na musicoterapia?

Desde que iniciei meu trabalho musical com pessoas com autismo, percebi o quanto é importante conhecer sobre integração sensorial para se trabalhar na musicoterapia e educação musical. É uma pena que as grades curriculares ainda não estão atualizadas, isso facilitaria a vida dos futuros profissionais, seja em consultório ou em uma escola.

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Listarei abaixo esta justificativa:

A aprendizagem dos elementos musicais que constituem o que chamamos de ritmo está diretamente relacionada com as sensações físicas de equilíbrio, peso e movimento corporal. Portanto, as competências com a pulsação/tempo, a divisão da pulsação (binária/ternária), a memória rítmica e a polirritmia (vários ritmos em simultâneo), deverão ser aprendidas justamente a partir das sensações físicas que o nosso corpo já conhece.

As atividades a usar para desenvolver este tipo de competências deverão envolver muito mais do que “palminhas”! A diversidade das atividades relacionadas ao ritmo deverá incluir jogos de movimento corporal e deslocação espacial que envolvam o corpo todo e não apenas os membros superiores.

A estimulação vestibular aumenta a produção  da fala  por causa da relação estreita com o sistema auditivo. Por esta razão, estimular o sistema vestibular pode ser uma boa estratégia quando se quer promover a produção da fala em uma criança.

No caso do trabalho com crianças devemos levar em conta a menor dimensão dos membros, a localização mais baixa do centro de gravidade e a maior velocidade do batimento cardíaco. Portanto os cuidados a ter deverão envolver:

  1. escolher frases com um tamanho e uma regularidade adequadas
  2. Escolher um tempo adequado ao ritmo interno e as características físicas da criança (usualmente mais rápido do que os do adulto)
  3. escolher padrões rítmicos que as crianças possam repetir (levando em conta as características físicas da criança)
  4. escolher movimentos “naturais” para a criança.

Musicoterapia na Alemanha

Há alguns meses tive o prazer de participar de um encontro com um médico e musicoterapeuta alemão, Niels Hamel, no Conservatório Brasileiro de Música. É sempre importante conhecermos e nos atualizarmos de como é a relação da musicoterapia em outras partes do mundo.

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Hamel, dirige um centro de atendimento à pessoas com autismo. Acesse o site para conhecer: http://www.autismus-owl.de/index.php/fortbildung

Quatro coisas me chamaram a atenção no relato de sua experiência no centro de atendimento Autismus, em vermelho minhas observações:

  • Na Alemanha o tratamento e benefícios são pagos pelo governo por toda a vida. Os terapeutas são pagos pelo governo. Ou seja, meu filho tem autismo, ele é encaminhado para um centro de atendimento, que é uma clinica particular, e o governo paga o tratamento no valor integral do terapeuta.

Isso me dá tristeza como mãe. Estamos distantes de termos bons atendimentos para nossos filhos. Como terapeuta, dá tristeza da não valorização profissional.

  • O neuropediatra e o psiquiatra não definem quais são as terapias que a criança devem fazer, isso fica a cargo dos centros de terapia. Eles fazem uma avaliação, e com base nesta redirecionam a terapia adequada. Exemplo: quando a criança recebe o diagnóstico precoce, ou ainda não se fechou o diagnóstico, o primeiro profissional que atende essa criança é o: MUSICOTERAPEUTA. Surpresa? Também fiquei porque aqui a musicoterapia é vista como terapia alternativa. Mas preste a atenção na justificativa. Essa criança é encaminhada para a musicoterapia para o treino da escuta (o processo é treinar o ouvido primeiro), porque só assim ela estará apta para ser trabalhada na fonoaudiologia.

Queridas amigas fonos, não me batam. Esse é um procedimento padrão do país deles. Mas, isso me faz sentir que a musicoterapia ainda não ocupa o espaço que merece. Não querendo desvalorizar o profissional de fonoaudiologia, mas a musicoterapia é vista como alternativa, e tem crianças com autismo que respondem muito bem a musicoterapia ampliando os canais de comunicação. Acho que a fonoaudiologia e a musicoterapia podem trabalhar juntas para obter um melhor resultado. Aliás, não só a fono, mas toda uma equipe multidisciplinar em prol da melhoria da crianças, do adolescente e adulto com autismo.

  • As famílias estão presas a estruturas, e o trabalho deles é de tentar quebrar esses paradigmas. Não possuem uma linha específica. Redirecionam a criança para determinada abordagem conforme sua necessidade individual.
  • autistas não verbais tem um desempenho melhor na musicoterapia (ajuda nas emoções).

Na guerra de qual abordagem é a melhor, esquecemos que lidamos com indivíduos com necessidades particulares, e cada sujeito pode responder melhor a determinada abordagem. Assim como, cada terapeuta se adapta melhor a linha que escolheu. Pensar na criança e de como o processo daquela abordagem irá beneficiá-lo.

Tiveram outras informações importantes, mas não me lembro de todas.

Mas, para quem não sabe o que é musicoterapia, segue abaixo algumas definições:

        Musicoterapia é a utilização da música e/ou seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) por um musicoterapeuta qualificado, com um cliente ou grupo, num processo para facilitar e promover a comunicação, relação, aprendizagem, mobilização, expressão, organização e outros objetivos terapêuticos relevantes, no sentido de alcançar necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas. A Musicoterapia objetiva desenvolver potenciais e/ou restabelecer funções do indivíduo para que ele/ela possa alcançar uma melhor integração intra e/ou interpessoal e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida, pela prevenção, reabilitação ou tratamento.

                                                         Comissão de Prática Clínica.

                                                Federação Mundial de Musicoterapia Inc.

                                                                                        Hamburgo – 1996.

Revista Brasileira de Musicoterapia. União Brasileira de Associações de Musicoterapia. Ano I – Número 2 – 1996.

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Musicoterapia é o uso profissional da música e seus elementos, como uma intervenção em ambientes médicos, educacionais, e do dia a dia, com indivíduos, grupos, famílias, ou comunidades que procuram otimizar a qualidade de vida e melhorar a saúde física, social, comunicativa, emocional, intelectual, e espiritual. A pesquisa, a prática, a educação, e a prática clínica em musicoterapia são baseadas nos  princípios  profissionais de acordo com os contextos cultural, social, e político. Fonte: WFMT, 2011  (trad. Barcellos, L. R. M.)

OS BENEFÍCIOS DA MÚSICA PARA CRIANÇAS

Sons e ritmos têm, comprovadamente, o efeito de aumentar a concentração e a capacidade de planejamento das ações da criança. Veja como os estímulos musicais podem contribuir para o desenvolvimento mental dos pequenos

 

Texto: Cristina Almeida / Foto: Shutterstock / Adaptação: Clara Ribeiro

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Em entrevista, especialista fala sobre os benefícios da musicoterapia para os pequenos

Foto: Shutterstock

Todos somos seres musicais, capazes de identificar e codificar uma série de sons, timbres, contornos melódicos, harmonias e ritmos. Ouvir música é uma atividade que requer o bom funcionamento dos sistemas auditivo e nervoso, o que faz dessa experiência algo não só mecânico, mas também sensorial: a música nos emociona, acalma, estimula e ajuda a sincronizar o trabalho e as atividades de lazer.

Apesar da intensa relação existente entre os seres humanos e a música, somente a partir dos anos 1980, a Neurociência, ramo da medicina que estuda o comportamento, o processo de aprendizagem, a cognição e os mecanismos de regulação orgânica, passou a observar os vários tipos de reações causados por estímulos musicais.

Há 60 anos, porém, a música já era utilizada com fins terapêuticos, e hoje é vista com entusiasmo, em razão dos resultados obtidos no tratamento de diversas doenças neurológicas (acidente vascular cerebral, doença de Alzheimer e outros tipos de demência, retardamento mental, perda da linguagem ou funções motoras, amnésia, autismo, doença de Parkinson, entre outras). Para muitos, a música é a única chave capaz de abrir portas para respostas positivas, após uma lesão cerebral.

Luisa Lopez, neuropsiquiatra infantil do Centro de Reabilitação Eugênio Litta de Roma e consultora científica da Fundação Mariani, entidade que financia e promove pesquisas sobre Neurociência e música na Itália, diz que a música realmente pode favorecer o desenvolvimento cerebral, mas adverte que os pais devem aprender a ser críticos diante da ansiedade de fazer das crianças gênios mirins.

Segundo a especialista, é preciso evitar equívocos como o chamado “efeito Mozart”, febre que levou pais de todo o mundo a impor aos filhos horas seguidas de audição de uma determinada sonata do músico austríaco, com o único objetivo de torná-los mais inteligentes. Luisa concedeu essa entrevista exclusiva à VivaSaúde de Roma, na Itália, onde reside.

Qual é o efeito da música sobre o feto? Luisa: Verifica-se o aumento do batimento cardíaco e ritmo da respiração, propiciando um estado de maior atenção. Na mãe, além das respostas do sistema nervoso autônomo (responsável pelo controle da respiração, temperatura e circulação do sangue), podem ser identificados sinais de bem-estar.

Quais são os principais benefícios para a saúde das crianças?Luisa: A música pode trazer benefícios em vários níveis. Por exemplo, treinando o ouvido, é possível desenvolver a capacidade de perceber corretamente os sons e timbres desde muito cedo na infância. Além disso, podem-se melhorar algumas capacidades do tipológico, viso-espacial e lingüístico. Um estudo realizado no Canadá demonstrou o aumento do QI imediatamente após um período de treinamento musical, já que as crianças apresentavam melhor desempenho em uma série de itens contidos no teste para avaliação das habilidades visuais, espaciais e matemáticas. Todavia, o próprio autor daquele estudo decidiu aprofundar essas conclusões e hoje sustenta que o que realmente melhora nas crianças é a capacidade de concentração e de planejamento das próprias ações. Essas são funções relacionadas aos lobos frontais que nos permitem planejar, coordenar e executar uma série de ações complexas, necessárias à plena eficiência. Crianças com déficit de atenção são carentes dessas funções e, assim, o treinamento musical para elas pode trazer resultados positivos.

 

Que tipo de música é indicado para os pequenos? Luisa: Cada pessoa tem suas preferências e, portanto, possui uma identidade musical. Por isso, é difícil indicar qual tipo de música pode agradar ou não a uma criança. Lembro apenas que os pequenos aprendem e compreendem a música partindo da repetição das seqüências musicais, sob conceitos muito precoces de consonância e dissonância, e não apreciam a intensidade elevada. Os pais devem definir um momento para ouvir música, evitando o uso abusivo de “fundos musicais” que coloca a música em segundo plano e atrapalha o processo de formação do gosto musical.

Existe algum instrumento musical mais adequado para a infância? Luisa: Sim. O instrumento ideal para o ensino da música é a voz.

A musicoterapia é indicada para crianças? Luisa: A finalidade da musicoterapia é estabelecer uma interação, relação ou reabilitação por meio do uso de um instrumento sonoro. A técnica não está ligada à aquisição de competências musicais, porque seu objetivo é promover a interação. Quando isso ocorre, há uma troca entre as pessoas: existe uma expectativa, é preciso ter atenção a tudo o que o outro diz e faz, as pessoas devem adaptar as próprias ações ao que está ocorrendo no contexto, além de respeitar as regras de comportamento grupal. Todos esses elementos podem ser trabalhados em uma sessão de musicoterapia. Assim, ela é indicada nas situações em que essas habilidades estejam comprometidas: nos casos de autismo, retardo mental, distúrbios de comportamento, depressão, demência, entre outros.

Em que idade é aconselhável iniciar a terapia? Luisa: Como a musicoterapia deve acontecer num contexto multidisciplinar, cada caso deve ser avaliado pela equipe que cuida do paciente. Contudo, a capacidade de percepção e compreensão da música é muito precoce na criança (3 – 4 meses). O estudo tradicional de um instrumento é difícil e não deve jamais ser uma imposição. Por outro lado, é importante que a criança viva em um ambiente estimulante e variado do ponto de vista musical.

A musicoterapia deve ser guiada por um especialista ou os pais podem ajudar no processo decura em casa? Luisa: A musicoterapia deve ser guiada. Na Itália, existem escolas de formação onde os profissionais são preparados na teoria e na prática. Faz parte do curso um estágio supervisionado junto às estruturas de reabilitação. O curso segue critérios da confederação de classe e os alunos recebem certificado de especialistas. Se os pais desejam colaborar, devem seguir as orientações dos profissionais.

Quais sons seriam ideais para as crianças? Luisa: Eu sugiro que as mães cantem para seus filhos as canções que fazem parte da cultura popular. Em todas as culturas existem canções de ninar com características rítmicas e tons que, para as crianças, são muito calmantes e agradáveis. Parece que elas acham muito mais interessante escutar a mãe (ou a voz de uma mulher que não seja sua mãe) cantando do que a sua fala. Então, não me agrada a idéia de uma “trilha sonora”, contínua e passiva. Sugiro uma música doce que a mãe cantarola para seu filho. Por outro lado, a música ocidental, com características harmônicas e tonais, muito regulares, pode ser agradável e favorece a atividade cerebral. Ressalto apenas que é preciso evitar equívocos como o ocorrido nos anos 1990, quando aconteceu a explosão do “efeito Mozart”: as pessoas falavam que escutar uma sonata de Mozart teria o poder de potencializar a inteligência. Esse estudo fez com que muitas mães impusessem a seus filhos somente aquela sonata do compositor austríaco. A coisa foi tão clamorosa que o governo de um Estado americano adotou a idéia como política social e passou a distribuir cds para todas as grávidas do local! Ora, sabemos que esse efeito não existe. O que existe é apenas o aumento da capacidade de atenção, se comparada com crianças que permaneceram no silêncio.

No último mês de junho, especialistas de todo o mundo se reuniram em Montreal para um congresso sobre musicoterapia. Quais são as novidades sobre o tema? Luisa: A maior novidade é o uso disseminado da música nos casos de reabilitação: seu aprendizado favorece a retomada da atividade motora, mesmo para as ações da vida cotidiana. Destacaria o uso da Melodic Intonation Therapy (Terapia de Entonação Melódica), que usa o canto como forma de estimular o lado direito do cérebro, que, conforme estudos realizados pela Faculdade de Medicina de Harvard e pela Universidade de Música e Drama de Hannover, comprovadamente garante a progressiva melhora da capacidade de falar, além de ter colocado o piano no patamar de grande estrela das terapias de reabilitação, cujo estudo potencializa a coordenação motora de pacientes vitimados por AVC.

Revista VivaSaúde – Edição 65

Fonte:

http://revistavivasaude.uol.com.br/familia/os-beneficios-da-musica-para-criancas/2480/