Musicoterapia e linguagem

“A semelhança entre a construção de uma linguagem musical e de uma linguagem verbal torna a música um importante auxiliar da fonoaudiologia. Atribui-se primordialmente à linguagem da música os processos perceptivos e mentais tais como audição, memória e imitação dos sons ouvidos, aliados ao controle motor dos movimentos físicos necessários. Na fala, ocorre uma mistura dos elementos, acompanhados por símbolos da fala e da música. Durante a percepção da fala e da música, o processo é conduzido em comum com as áreas sensoriais de projeção e com os diversos centros de processamento de informação. A atividade musical e a audição ativa de música podem originar funções que favoreçam a aquisição da linguagem, da atenção e da percepção, e a transferência de um movimento para som e de som para movimento, criando uma experiência de unidade entre linguagem, música e movimento.” (JOHNS, 1991)

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As emoções influenciam o desenvolvimento cognitivo

Muito se fala da importância do brincar no desenvolvimento infantil. Para que  uma pessoa tenha a capacidade de fazer simbolismos, abstrações, é necessário que a mesma vivencie experiencias para criar. Pensando assim, se uma criança não consegue se relacionar com o meio por observação, experimentação, dificilmente terá a capacidade de desenvolver um pensamento criativo. Crianças em geral, brincam sobre coisas que percebem no dia a dia, por exemplo, brincar de casinha, construir cidades com objetos, etc. Infelizmente, estamos perdendo nossa capacidade de brincar por objetos tecnológicos.

Segundo Greenspan e Benderly (1999), as emoções exercem um papel importante no desenvolvimento cognitivo:

Essas crianças, que sofrem alguns dos problemas mais sérios de pensamento e linguagem que possamos imaginar, de base biológica, podem nos ensinar muito pela observação de como aprendem a pensar, se relacionar e comunicar. As crianças com as quais meus colegas e eu trabalhamos apresentam sérios déficits relacionados a problemas claramente neurológicos, tais como uma fraca capacidade de processar os sons, compreender palavras e executar movimentos sequenciais. (…) vagueiam sem rumo; agitam os braços compulsivamente; esfregam um determinado ponto no tapete de forma intermitente, pequenos objetos em fileiras rigorosamente retas – , nas quais não apresentam capacidade de respostas às tentativas mais básicas de comunicação. (GREENSPAN, BENDERLY, 1999, p. 31)

Os autores enfatizam que programas alguns programas terapêuticos podem inibir a capacidade criativa de uma criança com autismo reforçando um pensamento mecânico e estereotipado, quando poderíamos explorar todo o potencial para o raciocínio criativo e abstrato. “(…) No curso normal de eventos, cada sensação, à medida que é registrada pela criança, também dá margem a um afeto ou emoção” (GREENSPAN, BENDERLY, 1999, p. 37). Isso quer dizer, segundo os autores que uma brincadeira pode ser muito interessante para a criança ou ser desagradável, porque essas experiências vivenciadas determinam as impressões sensoriais que estão atreladas aos sentimentos. Por exemplo: se uma criança apresenta uma diferença inata na formação sensorial auditivo, podem comparar o tom de uma voz alta (frequência e altura) como se fosse o soar de uma sirene, porque só conseguem perceber a altura mais aguda daquela narrativa.

No que se refere a musicoterapia, usar técnicas de improvisação aumenta a possibilidade de extrair a capacidade criativa da criança. Mas, o que eu realmente quero falar nessa postagem é sobre como criar experiencias através do brincar com a música que ajude a modular um comportamento influenciado por incapacidades sensoriais e motoras.

Algumas crianças com autismo, não dão conta da enxurrada de informações sensoriais ao seu redor e oscilam em uma brincadeira entre o prazer, raiva ou medo, por exemplo.  Tenho crianças que podem estar muito envolvidas em um jogo musical ou em uma brincadeira e ao menor movimento, um pouco mais brusco, altera o humor da criança imediatamente de alegria para pânico ou raiva.

Seguindo os preceitos do DIR/Floortime, um dos meus atendidos se enrolou no tapete para se esconder. Seguindo sua liderança, decidi que poderíamos tornar uma brincadeira tão antiga e simples em algo mais divertido com a introdução da música. Nesse jogo foi possível ajudarmos nosso anjinho a controlar sua ansiedade e seu corpo no espaço, saber esperar (e isso para uma criança com autismo é muiiiitooooo difícil). E a nossa tendencia é reforçar porque sempre nos antecipamos a criança e entregamos “tudo de bandeja”. Precisamos criar um expectativa, e deixar a criança responder ao estímulo a seu tempo. Brincadeiras de esconder desenvolvem a capacidade da criança do pensamento, de construir imagens mentais dos objetos e das pessoas.

 

“descobrimos que a unidade básica da inteligência reside na conexão entre um sentimento, ou desejo, e uma ação, ou um símbolo. Quando um gesto ou  uma fração de linguagem relaciona-se, de alguma forma, com desejos da criança – mesmo que seja algo tão simples quanto a vontade de sair ou ganhar uma bola – , ela pode aprender a usar esse gesto ou essa linguagem de forma adequada e eficaz. Até fazer a conexão, no entanto, seu comportamento e sua comunicação permanecem em desiquilíbrio; de fato, a dificuldade em estabelecer tais conexões constitui um elemento básico do distúrbio.” (GREENSPAN, BENDERLY, 1999, p. 35).

Sendo assim, entendo que, quando uma criança apresenta um interesse incomum e persistente, devemos nos conectar a partir deste interesse e transformar essa brincadeira em algo compartilhado e prazeroso. Com afeto envolvido a expansão da capacidade cognitiva será ampliada.

Mt. Michele Senra

Referência:

GREENSPAN, Stanley I; BENDERLY, Berryl Lieff. A evolução da mente: as origens da inteligencia e as novas ameaças a seu desenvolvimento. Tradução: MONTE, Mônica Magnani. Rio de Janeiro: Record, 1999.

O que podemos aprender com nossos pequenos mestres TEA

Não me canso de agradecer aos pais por me proporcionarem a maior fonte de aprendizado que nenhum livro ou teoria poderia me fornecer. Não subestime a capacidade que nossos heróis tem de nos surpreenderem. Hoje quero contar algumas de minhas experiências mais fantásticas na musicoterapia e no Concerto Azul.

Todo mês de abril será realizado uma edição do Concerto Azul, e para este ano conseguimos um palco maravilhoso cedido pelo Teatro Miguel Falabella. Mediante este evento, procurei programar apresentações emocionantes que mobilizasse e sensibilizasse pessoas para a causa do Autismo. Claro que neste processo coletamos muitas histórias interessantes e que merecem ser compartilhadas.

Caso Violino:

Musicoterapia na educação musical

No ano passado, cursei uma disciplina do mestrado sobre Ensino Coletivo de instrumentos musicais com o Prof. João Bellard Freire. Uma das propostas da aula foi assistirmos palestras no Painel Funarte de Ensino de Cordas Friccionadas. Eu me apaixonei por cada projeto apresentado, e deste momento coloquei na minha cabeça que tinha que ensinar violino para meus meninos se apresentarem no Concerto Azul. Detalhe, eu nunca tinha tocado um violino em minha vida.

Pedi no facebook a doação de um violino e ganhei um. Agora, faltava aprender a tocar para ensinar.

Faltando menos de um mês para a apresentação, eu o Thiago, entramos em uma aula particular e pedimos nossa professora que focasse em nos ensinar um trecho de uma música “Aleluia”. Marcamos as notas que deveriam tocar e confiantes iniciamos os ensaios. Foi caótico. Chorei e pensei “será que vai dar certo?. Faltavam menos de duas semanas. Marcamos ensaios todos os dias e Thiago e eu nos reversamos nesses dias. A Sylvia, que é psicóloga e tinha uma noção do instrumento, também nos ajudou nessa tarefa.

No último dia que eu estava a frente do ensaio, Rômulo, autista de 18 anos, e Fábio , autista de 24 anos, ainda estavam com dificuldades para dominar o arco, tocar no ritmo, acertar as notas….

Rômulo nos ensaios

Rômulo dava vários suspiros de desespero e Fábio repetia “Isso é muito difícil”. Com pena, tentei minimizar a situação:

  • Rômulo, vamos fazer o seguinte, a gente para um pouco e continua depois.

Rômulo deu mais um suspiro e disse:

  • Espera Michele, eu quero tentar mais uma vez. Vem Fábio, toca comigo.

Os dois iniciaram o ensaio e conseguiram tocar. Quase chorei de emoção! Rômulo e Fábio me ensinaram a não desistir diante de um obstáculo. Foram persistentes e acreditaram em si mesmos. No dia da apresentação, fiquei nos bastidores ouvindo e me emocionando, com a certeza de dever cumprido. Mas o mérito foi todo deles.

Concerto Azul

 

“O sucesso nasce do querer, da determinação e persistência em se chegar a um objetivo. Mesmo não atingindo o alvo, quem busca e vence obstáculos, no mínimo fará coisas admiráveis.”

José de Alencar

 

Vídeo do dia da apresentação:

Caso hiperacusia e acusia

Você sabe o que é hiperacusia e acusia? São dois fenômenos sensoriais Onde o indivíduo tem uma hipersensibilidade a determinados sons, podendo provocar dor física. Além disso, a hiperacusia pode afetar o emocional, isso porque o sistema límbico , que é responsável pelas emoções e comportamentos, faz parte deste processo de desenvolvimento da hipersensibilidade, focando sua atenção aos sons dificultando a atenção em outras atividades. O fato é que a hiperacusia atrapalha avida social desses indivíduos. Meu filho por exemplo, tem muita sensibilidade a som de latido de cachorro. Passar por uma rua onde tenha muios cachorros é uma tortura pra ele. Imagine, uma criança com hiperacusia que os pais vão levar para um evento social como: shopping, festa, igreja, etc. Se essa criança não for verbal, o que torna identificação mais difícil, a criança pode ter crises de comportamento em função de sons que não tolera e os pais se sentirem perdidos. Com o tempo são privados de frequentarem determinados locais.

Thomaz, Manu e Breno fazem parte desta estatística, porém o trabalho da musicoterapia pode minimizar os impactos sensoriais e auxiliar na modulação desses sentidos.

Manu quando iniciou na musicoterapia não suportava minha voz, principalmente quando eu cantava. Certos instrumentos faziam com que ela pedisse para parar de tocar pois “meus ouvidos doem”. A musicoterapia foi vital para que esses sintomas fossem minimizados. Hoje, Manu tem mais tolerância a sons, participa de musicoterapia em grupo e conseguiu se apresentar no Concerto Azul, mesmo com tantos estímulos sonoros aos seu redor. Para Thomaz, ainda tem um pouco de dificuldade de estar em um ambiente musical, e na medida do possível tentamos reduzir o estresse através de técnicas de dessensibilização. Breno também é capaz de se apresentar em um ambiente com bastante ruído, mas os latidos de cachorro ainda o incomoda, porém com menos frequência.

 

 

Por isso, defendo o atendimento em grupo, porque é por meio da observação e vivencia com o outro que aprendemos a resolver conflitos, criar pontes de ideias, fazer parte de um grupo social.

“Ninguém nasce feito, é experimentando-nos no mundo que nós nos fazemos.”

Paulo Freire

 

Caso Feio Inibitório e organização corporal

Você sabe o que é freio inibitório?

É a capacidade que a criança tem de controlar o próprio corpo e mudá-lo de direção quando em movimento. è o controle no tempo e no espaço.

Emanuel é uma fofura. Mas tem uma dificuldade com organização e controle do próprio corpo. Em uma sessão de musicoterapia estávamos ensaiando uma canção Si mama ka, música folclórica de Ghana, que é sobre movimento. Na canção tem comandos de ficar parado, pular, correr, andar… Dai surgiram suas maiores dificuldades, ter a atenção para fazer cada movimento a seu tempo. Então usamos uma estratégia, como ele adora inglês e tem uma compreensão muito boa, fizemos uma brincadeira sem música, inicialmente. Eu dizia:

  • Emanuel, pay attention. One, two, trhee and run. (Emanuel, preste atenção: um, dois, três e corre)

Emanuel começava a correr feliz da vida. Depois de repetir algumas vezes essa frase, acrescentei as palavras Jump (pular), stand still (ficar parado), Run (correr).

“O saber “entra” pelos sentidos e não somente pelo intelecto”.
(Frei Betto)

Depois de brincarmos pedir que ficasse parado e ai introduzimos o ritmo com a percussão, depois com o Ukulelê, e logo depois a canção. Fragmentar a canção com a brincadeira, e utilizando o inglês para aumentar o engajamento, Emanuel finalmente, conseguiu compreender com seu corpo a brincadeira. Isso não quer dizer que ele superou essa dificuldade, ainda precisa de muita organização. Mas conseguimos compreender, como as atividades para ele devem ser trabalhadas por pequenas etapas.

“… a brincadeira que é universal e que é própria da saúde: o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde…”
(Winnicott)

 

Isso é uma pequena parte das muitas experiencias que tenho vivido e quero poder continuar a compartilhar mais e mais histórias.

Mt. Michele Senra

 

Próximo Concerto Azul tem data marcada

Devido ao sucesso do Concerto Azul, o Norteshopping e Teatro Miguel Falabella pediram BIS. Então no dia 24 de abril de 2017 às 19h faremos uma reapresentação especial. Anote aí na sua agenda:

Data: 24 de abril de 2017

Horário: 19h

Ingresso: R$ 10,00

Comprar ingressos: http://www.musicacomestilo.com.br

Local: Teatro Miguel Falabella – Norteshopping

Participe! Você vai se encantar e ainda contribuir para a manutenção do projeto CORA, onde parte das vendas será destinada à instituição. As crianças precisam do cora e o cora precisa de vocês!

“Conserto” Azul: Repensando a performance estética como performance de relacionamento em uma apresentação musical de crianças e adolescentes com autismo

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo apresentar um relato de experiência de uma apresentação musical realizada com crianças e adolescentes dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA) no dia 2 de abril de 2016, dia mundial da conscientização do autismo. O repertório e a estrutura do evento foram planejados e executados respeitando a neurodiversidade para que pudessem expressar-se através da arte seus sentimentos e troca afetiva com o outro na construção de uma performance que valorizasse mais o relacionamento do que a estética propriamente dita. O pressuposto teórico deste artigo visa analisar o papel da musicoterapia como mediadora no processo de expressão artística.

Palavra-chave: autismo, performance, expressão musical, neurodiversidade

Introdução

O autismo é um transtorno que afeta a forma como o indivíduo se relaciona com o mundo. Suas percepções são alteradas, e por vezes, essas especificidades podem afetar o modo como podemos estabelecer uma conexão. No entanto, para Bakan (2014) ao pensarmos no autismo somente como uma patologia, perdemos a oportunidade de quebrarmos um paradigma: construímos uma nova maneira de olhar esse público pelo viés da neurodiversidade[1]. O autor acredita que este pensar não é uma negação da gravidade que o transtorno acarreta na vida do sujeito e de seus cuidadores e sim, redirecionar para uma perspectiva de aceitação das peculiaridades, e que a música seria essa “voz” alternativa para comunicar pensamentos, sentimentos e necessidades.

Alvares e Amarante (2016) explicam que o conceito da diversidade em contraponto com a “patologização”. Os autores advertem que com base na prática com alunos em sofrimento psíquico, fazer com que os alunos atendam os padrões de ensino é prejudicar o processo de aprendizado do mesmo, pois padronizar configura uma frustração deste indivíduo. “(…) a música, assim como as outras artes, contribui com a construção de espaços sociais que possam acolher a diversidade humana (ALVARES, AMARANTE, 2016, p. 33).

            Quando estava no processo de ensaios para a apresentação do Concerto Azul, um dos adolescentes do projeto, inusitadamente, indagou: “Ah Conserto Azul quer dizer que o show precisa ser consertado? ”.  Achei muito interessante e pertinente, embora que não tenha sido proposital, pois é conhecido como característica do autismo a dificuldade de compreensão de palavras de duplo sentido, metáforas e outras figuras de linguagem (APA, 2014). Porém, de fato, a ideia da apresentação era reconstruir a forma de uma apresentação musical que fosse inteiramente adaptada a realidade deles. A palavra azul representa a cor símbolo da causa.

A contribuição da musicoterapia na descoberta da identidade sonora do indivíduo com autismo

Enquanto a educação musical tem como objetivo o ensino e aprendizado da música, a musicoterapia se utiliza do som, da música e do movimento com a finalidade de abrir canais de comunicação e reabilitação (BENEZON, 1985).

Existem delimitações claras entre a musicoterapia e a educação musical. O que distingui as áreas são seus objetivos que definem seu papel empírico (PASSARINI, AOKI, PREARO e ANDRADE, 2012). Porém os autores ressaltam que os entrelaçamentos dos conteúdos propostos pela educação musical também norteiam os princípios da musicoterapia. A proposta é de refletir sobre a interdisciplinaridade da musicoterapia em estimular a singularidade da criança e explorar suas capacidades criativas e exploratórias da música para uma auto expressão emocional de seus conteúdos internos. Para Bang (1991, p. 21) “Em muitos casos, a musicoterapia vem a ser o único meio viável de se obter resultados terapêuticos e pedagógicos”.

            Um dos princípios metodológicas da musicoterapia consiste no ISO (igualdade) de Altshuler. Na prática significa que devesse igualar “o tempo mental do paciente com o tempo sonoro/musical executado pelo terapeuta (BENEZON, 1985, p. 44). Segundo Benenzon (1985) cada pessoa carrega um tempo biológico particular, e que em pessoas com deficiência intelectual seu ritmo interno, velocidade do andar são irregulares, atribuídos aos déficits motores. O autor exemplifica que uma criança agitada tem um tempo orgânico muito rápido, e que os exercícios rítmicos devem acompanhar o mesmo andamento. Por outro lado, uma criança inerte, com baixa reatividade motora, tem em seu tempo natural os andamentos mais lentos. “A criança, através do ritmo aprende a viver o tempo que passa” (BENENZON, 1985, p. 131).

Benezon (1985) também definiu uma outra forma de ISO:

O ISO universal é uma identidade sonora que caracteriza ou identifica a todos os seres humanos, independente de seus contextos sociais, culturais, históricos e psicofisiológicos particulares. Dentro deste ISSO universal figurariam as características particulares do batimento cardíaco, dos sons de inspiração e expiração, e da voz da mãe nos primeiros momentos do nascimento e dias do novo ser. (BENENZON, 1985, p. 46)

            Com base no princípio de ISO universal, em uma das escolhas do repertório do Concerto Azul, foi considerado a estereotipia motora de duas crianças. A primeira criança colocava a mão na boca e outra no ouvido para escutar o ressoar de seu próprio som. A segunda criança batia palma repetidamente sem nenhuma função aparente. Parecia experimentar o som que produzia. Escolhemos então a canção, cuja letra é sobre bolinha de sabão, com percussão corporal utilizando os elementos sonoros que esses pacientes traziam para o setting terapêutico. No Brasil, essa prática musical é muito difundida pelo grupo Barbatuques, de onde surgiu nossa inspiração. As batidas eram marcadas no peito (som grave) e a palma (som mais agudo), e finalizava com um som de estourar bolhas batendo na boca, como era produzido pelo primeiro paciente. A resposta emocional das duas crianças foi muito emocionante, pois a impressão que passava é que foi descoberto um caminho peculiar de comunicação, ou seja, segundo uma técnica de aproximação para abrir canais de comunicação entre o terapeuta e a criança (BENENZON, 1985).

Segundo Benenzon (1985) o corpo humano constitui um instrumento corporal que originou os instrumentos musicais, porque o instrumento seria uma extensão do próprio corpo.

Um dos adolescentes, no dia da apresentação, espontaneamente, sentiu-se compelido em ensinar a cada espectador a coreografia da canção. O resultado, foi a participação total de todos que estavam presentes no show.

Figura 1: Concerto Azul

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Fonte: arquivo pessoal

            Segundo Bruscia (2000) a experiência musicoterápica envolve quatro técnicas fundamentais: improvisação, Re-criação, composição e audição. Para o Concerto azul utilizamos o recurso de Re-criação onde “o cliente canta ou toca, de memória ou utilizando partitura, uma peça musical composta anteriormente” (BRUSCIA, 2000, p. 31).  Ainda segundo o autor, esta técnica tem como objetivo facilitar o engajamento, uma vez que aquele repertório tem um significado para a pessoa que o escolhe:

Os clientes de eleição para as experiências re-criativas são aqueles que precisam de estrutura para desenvolverem comportamentos e habilidades específicas. Também são indicadas para clientes que precisam entender e se adaptar às ideias e sentimentos dos outros preservando suas próprias identidades, assim como clientes que precisam trabalhar juntamente com outras pessoas visando a objetivos comuns. (BRUSCIA, 2000, p. 127)

Um dos integrantes do Concerto escolheu um solo de uma canção que falava de amizade, o que contrapõe com o mito de que pessoas com autismo não desenvolvem empatia. A dificuldade na comunicação social e no relacionado é descrito no DSM-5 (APA, 2014), porém a dificuldade não é sinônimo de desprezo ao contato humano. A música pode ser um intermediador neste processo de socialização. Bruscia (2000) acrescenta que a empatia, uma habilidade muito importante na construção de relacionamentos é facilitada pela música.  “De todos os fenômenos sonoros do corpo humano, o mais profundo é constituído da voz e canto” (BENENZON, 1985, p. 50).  Este mesmo menino, em uma entrevista para o Jornal da Band  (2015), sobre inclusão na escola, declarou “eu tenho os melhores amigos do mundo”. Em uma análise na perspectiva da musicoterapia, a escolha da música sobre o tema amizade, revela muito sobre seu conteúdo interno, seus sentimentos e o desejo de compartilhar suas descobertas com o outro.

Figura 2 – Canção da amizade

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Fonte: arquivo pessoal

Bruscia (2000) ressalta que o fazer musical em um grupo faz com que o centro tonal seja compartilhado, sincronização de ritmo, troca de estímulos sonoros e sensações provocadas pela música, tornando-se uma só pessoa no processo terapêutico. “ A música é útil para fazer conexões porque ela envolve e requer todos os tipos de conexões! ” (BRUSCIA, 2000, p. 73).

            Outros momentos foram igualmente importantes na produção deste evento. “Além de ter relações com outras pessoas significativas, cada indivíduo é parte de muitos estratos da comunidade, desde o núcleo familiar (…), amigos, sociedade a cultura (…)” (BRUSCIA, 2000, p. 153).  Um adolescente estava muito feliz em tocar uma canção com o único acorde que conhecia no violão, o La. Enquanto ele tocava seu único e precioso acorde, três meninos com autismo severo utilizavam o pau de chuva e o tambor trovador para fazerem efeitos de percussão na canção, marcando o tempo corretamente. Em um momento coletivo, todos tocaram Twinkle Litlle Star com sinos musicais. Cada criança acompanhada de um cuidador era responsável por uma nota. Três terapeutas ficaram responsáveis por guiar as crianças e adolescentes com TEA na leitura de uma partitura com cores. Cada cor representava uma nota. Este tipo de atividade musical pode auxiliar nos déficits de planejamento motor e viso-motor, que são processos sensoriais e motores deficientes, e que acarretam uma grande parte da população autista (DSM-5/APA, 2014).

Figura 2 – Apoio visual

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Fonte: arquivo pessoal

            Outras medidas foram tomadas para que as crianças e adolescentes pudessem se sentir confortáveis na apresentação. Levando em consideração que os distúrbios sensoriais estão presentes na vida de uma pessoa com autismo, o som foi diminuído para que as crianças que apresentavam uma hipersensibilidade auditiva conseguissem participar. Quanto as crianças com baixa reatividade ao som, os pais foram orientados a se sentarem próximos as caixas de som para que a vibração emitida por elas aumentasse o limiar auditivo.

O processo artístico: performance estética no conceito da musicoterapia

Por se tratar de um concerto onde a neurodiversidade era celebrada, as crianças tinham a total liberdade para circularem no palco e se aproximarem dos músicos. Bakan (2014) acredita que a produção musical de pessoas com autismo, podem ser classificadas como etnomusicologia. E que essas apresentações fornecem a sociedade uma outra perspectiva com relação a arte de indivíduos com autismo. “(…) o terapeuta utiliza as experiências musicais coletivas como base para a terapia do indivíduo ou da comunidade” (BRUSCIA, 2000, p.153).

            Bruscia (2000) traça uma interessante visão a respeito do que seria a estética para o musicoterapeuta:

A música é experienciada como um objeto artístico sempre que o foco está no puro prazer estético derivado do ato de fazer ou ouvir música. Aqui, os valores estéticos e a beleza são perseguidos e alcançados ao se improvisar, compor, re-criar ou escutar música, no processo criativo propriamente dito. Portanto, é o ato da criação artística que tem sentido estético, com interesse comparativamente menor sobre o valor artístico do produto resultante. (BRUSCIA, 2000, p. 157,158).

Considerações finais

            Como descrito no texto, a musicoterapia, diferentemente da educação musical, tem objetivos diferentes com a utilização da música. Porém, ambas as profissões podem dialogar, e juntas criar possibilidades para pessoas com necessidades especiais de se expressar através do fazer musical.

            A estética dentro da performance está mais voltada para o relacionamento que a música se interpõe entre o sujeito e seus pares. Neste sentido, a beleza não está em tocar os acordes perfeitos, no aprendizado formal de música, mas sim, em como a música é um objeto transformador e aberto a diversidade humana.  A experiência musical de como a pessoa com autismo se relaciona com ela é que torna esta vivência tão interessante. Além disso, este tipo de evento promove um modelo de socialização e sensibilização do público em geral, apreciando a produção artística de pessoas com TEA. Assim, objetivamos a quebra de barreiras e a construção de uma identidade.

REFERENCIAS

ÁLVARES, Sérgio Luís de Almeida. Considerações sobre a educação musical na diversidade sob a perspectiva da musicalidade abrangente. IN: ALVARES, Thelma Syndenstricker; AMARANTE, Paulo (org.). Educação Musical na Diversidade: construindo um olhar de reconhecimento e equidade social em educação. Curitiba: Editora CRV, 2016.

ÁLVARES, Thelma Sydenstrick; AMARANTE, Paulo. Educação musical na diversidade: um caminho para a ressignificação do sujeito em sofrimento psiquico. IN: ALVARES, Thelma Syndenstricker; AMARANTE, Paulo (org.). Educação Musical na Diversidade: construindo um olhar de reconhecimento e equidade social em educação. Curitiba: Editora CRV, 2016.

ÁLVARES, Thelma Sydenstrick; SALGADO, José Alberto. Refletindo sobre práticas musicais educativas, diferença e emancipação. IN: ALVARES, Thelma Syndenstricker; AMARANTE, Paulo (org.). Educação Musical na Diversidade: construindo um olhar de reconhecimento e equidade social em educação. Curitiba: Editora CRV, 2016.

BAKAN, Michael B. Ethnomusicological Perspectives on Autism, Neurodiversity, and Music Therapy. Voices: A world forum for music therapy. Vol, 14, nº3, 2014

BANG, Claus. Um mundo de som e música. IN: RUUD, Even (org.). Música e Saúde. Tradução: WROBEL, Vera B; CAMARGO, Glória P.; GOLDFEDER, Miriam. São Paulo: Summus Editora, 1991.

BENENZON, Rolando O. Manual de Musicoterapia. Tradução: NASTARI, Clementina. Rio de Janeiro: Enelivros, 1985.

BRUSCIA. Kenneth E. Definindo Musicoterapia. 2ª ed. Tradução: CONDE, Marisa Velloso Fernandez. Rio de Janeiro: Enelivros, 2000.

DSM-5/American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Tradução: NASCIMENTO, Maria Inês. 5 ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

ORTEGA, Francisco. Sujeito Cerebral e o movimento da neurodiversidade. Mana vol.14 no.2 Rio de Janeiro, 2008.

PASSARINI, Luisiana B. F; AOKI, Thiago T.; PREARO, Pablo de M.; ANDRADE, Andressa L. A educação musical no desenvolvimento da criança: trilhas da musicoterapia preventiva. IN: Anais do XIV Simpósio Brasileiro de Musicoterapia e XII Encontro Nacional de Pesquisa em Musicoterapia. Olinda, 2012.

[1] O termo Neurodiversidade (diversidade cerebral) foi cunhado por um grupo de ativistas autistas nos EUA, que dizem que o autismo não é uma doença e sim uma maneira diferente de ser (ORTEGA, 2008). Essa postura vem a eliminar as ideias pré-concebidas de psicanalistas nos anos 50 que acusaram as mães pelo autismo de seus filhos, chamando-as de mães geladeira.

A Relação da Música com o Processamento sensorial – partes

O estímulo vestibular com ritmo musical pode estimular a fala e o canto de crianças com autismo. Grandin (1991) é uma das autistas mais conhecidas no mundo. Apesar das dificuldades que encontrou ao longo de sua vida, conseguiu se estabelecer profissionalmente como cientista. Ela concorda que os estímulos de balanço podem proporcionar a aquisição de linguagem. Mas que coordenar muitos movimentos ao mesmo tempo limitou-a no aprendizado de um instrumento musical, porém isso não foi um impeditivo para o canto com afinação. Ela relata que quando criança tinha muitas dificuldades para se comunicar, mas que cantar sempre foi mais fácil. Outro desafio relatado é com relação ao ritmo, como por exemplo, sincronizar palmas e ritmos. Ela sugere que os problemas rítmicos podem estar relacionados com os problemas de fala. Os bebês típicos movem-se em sincronia com a fala dos pais, o que não ocorre em bebês com autismo. Sobre este tema, Bang explica:

O ritmo da fala é um movimento rítmico dos órgãos da fala, tais como respiração, a voz e os movimentos articulatórios da boca, em conjunto com os sons provenientes da laringe. Nós ouvimos os movimentos da fala, e dessa maneira, a audição é um processo sensório motor.

O exercício da música e do movimento treinam as funções sensório-motoras auditivas e vibratórias e a memória de tais sequências e sua utilização. As atividades musicais, portanto, treinam indiretamente as funções básicas da fala e da linguagem. BANG, 1991, p. 25)

O ritmo está presente em toda parte. O ritmo é fisiológico. Nossos órgãos internos funcionam ritmicamente para o funcionamento perfeito de nossa sobrevivência. O bebê acompanha desde o útero materno o ritmo pulsante do coração de sua mãe, e ao nascer, quando colocado no peito de sua mãe, se autorregula com os sons do batimento cardíaco. O universo é regido pelo ritmo pulsante de luzes e frequência dos sons para a órbita dos planetas (BERGER, 2002, p.112).  Cirigliano (2015) contextualiza a respeito desta relação musical do ser humano que advém da vida uterina até a morte:

 

A música todo o ser humano, do nascimento à morte. Os batimentos cardíacos e outros sons internos de uma gestante constituem a primeira marca musical do ser humano. Percebida desde o útero materno, por via óssea, nas vibrações, e auditivamente, estas sonoridades imprimem os primeiros indícios de uma identidade musical que vai se sofisticando após o nascimento. Vale dizer que, para o musicoterapeuta, o choro do bebê também é música. (CIRIGLIANO, 2015, p.7)

 

 

 

 

 

 

 

 

A estimulação auditiva e motora pode ser muito útil para o alinhamento da pulsação rítmica do corpo. Internalizar o ritmo com o corpo é um processo importante na integração dos sistemas. Ainda na opinião de Berger (2002) o regulamento rítmico dos processos internos, pulso, batimento cardíaco, respiração e etc., incluem a cognição e a linguagem, o que influencia o ritmo em relação à entrada rítmica externa. Crianças que conseguem internalizar o ritmo desenvolvem-se melhor no comportamento. E claro, com o corpo organizado ritmicamente as respostas fisiológicas são mais gerenciáveis. Desenvolver funcionalmente o planejamento motor auxilia na internalização rítmica e pulso (BERGER, 2002, p.114).

O corpo precisa sentir o movimento para que nosso cérebro consiga compreender. Quando a criança recebe um estímulo vestibular num balanço, ou trampolim, ou numa bola terapêutica, cantando uma música, marcando ritmo, estas ações resultarão na compreensão de seu cérebro na internalização rítmica e da entoação. Ikuta explica que:

A neurociência tem demonstrado que o estímulo auditivo rítmico pode melhorar ou promover respostas motoras e, ainda mais diretamente, estimular o movimento. O ritmo pode ser mais bem descrito como um “temporizador” sensorial que utiliza conexões, fisiologicamente, muito sensíveis entre o sistema auditivo e o motor no cérebro para influenciar o controle temporal do movimento. (IKUTA, 2009, p. 99)

 

O atributo rítmico, denominado pulso é o cronometrista, o marcapasso da música. O andamento do pulso, ou seja, se é rápido ou devagar, é importante na abordagem de problemas de desenvolvimento de linguagem. A aplicação do pulso ritmico podem alcançar bons resultados para a estimulação da fala. “Quando as sílabas são discriminadas em seus padrões rítmicos, as palavras tornam-se mais simples de ouvir, repetir e lembrar” (BERGER, 2002, p.115).

Berger (2002)  chama a atenção para os padrões rítmicos, pois o cérebro adora padrões. Eles preenchem as lacunas e mantém o cérebro em alerta sobre as constantes mudanças de informação musical. Enquanto o pulso permanece constante, o padrão por sua vez é livre para mudar, com paradas, sendo rápido e lento, e quando combinados adicionam uma dimensão profunda e constante num pulso simples. Berger (2002, p.116) acredita que na linguagem a presença do padrão é evidente, pois cada palavra quando divididas em ritmo silábico exibe um padrão. Assim, o padrão rítmico é um dos elementos principais para o aprendizado da língua falada. Por exemplo, se cantar ou falar uma palavra dividida em sílabas com ritmos padronizados, obtém-se a atenção e motivação necessária para imitar a palavra. Este exercício contribui para o desenvolvimento de linguagem de crianças não verbais.

Por esta razão, aprender um vocabulário de forma cantada contribui para a memorização mais eficiente das letras, e até mesmo de língua estrangeira. Para aprendermos uma língua estrangeira assimilação do idioma se dá pela padronização rítmica e tonal das palavras e frases. Quando alguém fala muito rápido, nosso cérebro tem dificuldade de rastrear e reter cada informação de forma padronizada. Informações muito rápidas são mais difíceis de serem compreendidas, principalmente por crianças que apresentam deficiências sensoriais e dificuldades de aprendizagem (SENRA, 2015).

Quando as informações são realizadas através de um padrão e pulsação rítmica, o cérebro não as percebe como algo ameaçador. Uma vez que essa informação está estruturada e organizada dentro do ritmo com padrões de afinação, o cérebro vai processando cada dado de forma aleatória expandindo o medo, e permitindo uma abertura de passagens para os canais cognitivos (BERGER, 2002, p.117).

 

A velocidade do pulso determina como a música irá provocar reações sensoriais, fisiológicas e emocionais. Assim como músicas rápidas nos impulsionam em uma energia alegre ou tensa, a música mais lenta pode nos relaxar, e fornecer informações importantes para o processamento cognitivo. As músicas rápidas animam o sistema e tem como objetivo acelerar as respostas do planejamento motor para a execução de tarefas e baixo tônus muscular. “É um aspecto que, quando usado conscientemente por razões específicas, podem alterar as respostas físicas e emocionais” (BERGER, 2002. P.119).

Texto por MICHELE SENRA

MUSICOTERAPEUTA E MESTRANDA EM MÚSICA PELA UFRJ

A Relação da música com o processamento sensorial – partes 4 à 8/23

Greenspan e Wieder (2006, p. 15) explicam que crianças autistas que estão alheias ao seu redor, ficam esquivas e se mantêm distantes das pessoas, em nada tem haver com a falta de amor e sim por um bombardeio de estímulos sensoriais. A atenção é um processo dinâmico que envolve muitas partes do sistema nervoso  ao mesmo tempo. Essas bases biológicas nas funções motoras e sensoriais alteram a capacidade de uma criança se autorregular e ter interesse pelo mundo. E que precisamos olhar para a modulação sensorial de cada um para conseguirmos estabelecer um relacionamento com eles. Nascimento e Ikuta exemplificam que:

A estimulação sensorial é essencial para a percepção do mundo. A música se constitui em importante objeto de estimulação sensorial porque ocorre simultaneamente no tempo e no espaço, proporcionando a vivência desses elementos musicais em diferentes velocidades, alturas e durações. (NASCIMENTO, IKUTA, CARVALHO, 2009, pág.121)

O sistema Vestibular, embora não faça parte dos cinco sentidos, é um sistema fundamental para o “desempenho motor antigravitacional” (MOMO, SILVESTRE e GRACIANI, 2012, p. 9). Significa que, em função deste sistema, o Sistema Nervoso Central relaciona a ação e controle de nossos movimentos como, cabeça, olhos e corpo.

 

O estímulo vestibular com ritmo musical pode estimular a fala e o canto de crianças com autismo. Grandin (1991) é uma das autistas mais conhecidas no mundo. Apesar das dificuldades que encontrou ao longo de sua vida, conseguiu se estabelecer profissionalmente como cientista. Ela concorda que os estímulos de balanço podem proporcionar a aquisição de linguagem. Mas que coordenar muitos movimentos ao mesmo tempo limitou-a no aprendizado de um instrumento musical, porém isso não foi um impeditivo para o canto com afinação. Ela relata que quando criança tinha muitas dificuldades para se comunicar, mas que cantar sempre foi mais fácil. Outro desafio relatado é com relação ao ritmo, como por exemplo, sincronizar palmas e ritmos. Ela sugere que os problemas rítmicos podem estar relacionados com os problemas de fala. Os bebês típicos movem-se em sincronia com a fala dos pais, o que não ocorre em bebês com autismo. Sobre este tema, Bang explica:

 

O ritmo da fala é um movimento rítmico dos órgãos da fala, tais como respiração, a voz e os movimentos articulatórios da boca, em conjunto com os sons provenientes da laringe. Nós ouvimos os movimentos da fala, e dessa maneira, a audição é um processo sensório motor.

O exercício da música e do movimento treinam as funções sensório-motoras auditivas e vibratórias e a memória de tais sequências e sua utilização. As atividades musicais, portanto, treinam indiretamente as funções básicas da fala e da linguagem. BANG, 1991, p. 25)

Para Berger (2002, p.108), quando a pessoa apresenta uma desordem no processamento multissensorial altera os aspectos de coordenação auditivos e motores. Ela explica que o mesmo ritmo que estimula os músculos a reagirem com movimento, se a criança apresenta dificuldade no processamento do som e planejamento motor, isso irá interferir no modo como a criança reagirá fisiologicamente sobre o som e o movimento. Pois, o processamento em conjunto do sistema vestibular e proprioceptivo, tátil, auditivo e visual, não estão organizados e integrados em um mesmo nível. Para tocar um instrumento musical existem um envolvimento de entrada multissensorial, que inclui o feedback do planejamento motor, proprioceptivo e tátil. A ação de bater em um tambor, por exemplo, “envolve movimentos bilaterais do braço, o cotovelo fica flexionado, as mãos se ocupam com as baquetas, movimentando-se ritmicamente para cima e para baixo” (BERGER, 2002, p.108) , acompanhando o pulso. Crianças com esses déficits não têm controle motor e percepção de pulsação e andamento.

 

Penso que autistas que possuem dificuldades para registrar os estímulos sensoriais, além da desatenção já mencionada, estão em busca de sensações e tentam criar um ambiente próprio com seus balbucios vogais e movimentos, como de um pêndulo, movendo-se  de um lado e para o outro sem parar.

Contudo, Berger (2002, p. 46) diz que os elementos musicais, quando aplicados de forma correta para atender a objetivos específicos, contribuem com informações relevantes para o sistema límbico, que traz para o sistema fisiológico a sensação e ajustes de conforto necessários. A música atua como um agente que acalma e dissipam as entradas sensoriais que causam medo. É como se o som fosse um cobertor que envolve o corpo trazendo conforto e segurança. Uma vez que o cérebro humano registra informação auditiva, como forma de tratamento do ambiente, consegue sequenciar os sons ligados a ritmo. O cérebro vai controlando os sons que estão presentes, e antecipar o próximo som.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em Música

 Terapeuta DIR/Floortime

 

A Relação da música com o processamento sensorial – parte 2/23

Por Michele Senra

Segundo Greenspan e Wieder (2006, p.17) por causa das diferenças inatas no processamento sensorial, a experiência emocional de um estímulo irá variar de uma criança para outra. O mesmo som, por exemplo, uma voz mais aguda, pode ser interpretada como agradável e reconfortante para um e extremamente irritante para outro. Uma carícia pode apreciada por uma criança, quando para outra pode ser extremamente dolorosa. Cada pessoa, ao longo do tempo cria um “catálogo” de experiência sensorial e emocional. A deficiência sensório-motora pode afetar profundamente a experiência do indivíduo de se relacionar com o outro.

            Os autores também exemplificam que crianças com hiposensibilidade ao toque ou som apresentam comportamento agitado e uma busca sensorial e de sensações constantemente. Por conta disso, elas podem mostra-se agressivas em determinados ambientes, com incapacidade de organização, envolvimento, co-regulação e emocional. Ambientes com muitos ruídos ou com muitas pessoas em volta podem sobrecarregar a criança com hipersensibilidade[1] e alterar seu comportamento.

[1] Hipersensibilidade – o limiar de sensibilidade é alto. Ex: Não suportar ser tocado.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em música

 

Referências

SENRA, Michele de S;, ALVARES, Thelma S. A Relação da Música com o processamento sensorial:  a musicoterapia e sua atuação no tratamento de autistas no contexto do modelo DIR/Floortime. XV Simposio Brasileiro de Musicoterapia. XV Encontro Nacional de de Pesquisa em Musicoterapia. Rio de Janeiro, 2015.

A Relação da Música com o processamento sensorial – parte 1/23

Por Michele Senra

A música fornece estimulação concreta e multissensorial (auditiva, visual, vestibular, propriocepção e tátil). As interações entre os sistemas sensoriais e como o cérebro captam essas informações, podem atrapalhar as percepções musicais de uma criança com atraso no desenvolvimento, por exemplo, e o estímulo sensorial com a música pode beneficiá-las. Além disso, a música atua diretamente nas emoções, e estabelecer um vínculo afetivo e emocional é importante no processo de reabilitação.

Você sabe a diferença entre musicoterapia e educação musical?

A Federação Mundial de Musicoterapia (1996) definiu a profissão como:

(…) a utilização da música e/ou seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) por um musicoterapeuta qualificado, com um cliente ou grupo, num processo para facilitar e promover a comunicação, relação, aprendizagem, mobilização, expressão, organização, e outros objetivos terapêuticos, no sentido de alcançar necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas. A musicoterapia objetiva desenvolver potenciais e/ou restabelecer funções do indivíduo para que ele/ela possa alcançar uma melhor integração intra e/ou interpessoal e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida pela prevenção, reabilitação ou tratamento. (FEDERAÇÃO MUNDIAL DE MUSICOTERAPIA, 1996)

A Educação Musical tem um objetivo específico com fins pedagógicos, no ensino estruturado de instrumentos, leitura rítmica, etc.

Existem delimitações claras entre a musicoterapia e a educação musical. O que distingui as áreas são seus objetivos que definem seu papel empírico (PASSARINI, AOKI, PREARO e ANDRADE, 2012). Porém os autores ressaltam que o entrelaçamento dos conteúdos propostos pela educação musical também norteiam os princípios da musicoterapia. A proposta é de refletir sobre a interdisciplinaridade da musicoterapia em estimular a singularidade da criança e explorar suas capacidades criativas e exploratórias da música para uma auto expressão emocional de seus conteúdos internos. Para Bang (1991, p. 21) “Em muitos casos, a musicoterapia vem a ser o único meio viável de se obter resultados terapêuticos e pedagógicos”.

Michele Senra

Musicoterapeuta

Mestranda em Música